|
  • Bitcoin 121.537
  • Dólar 5,2175
  • Euro 5,3103
Londrina

GERAL

m de leitura Atualizado em 25/07/2022, 17:13

Morte de crianças pequenas por Covid é o triplo da causada por 14 doenças em dez anos

A relação inclui enfermidades que podem matar, mas que são passíveis de prevenção por meio de intervenções do SUS

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de julho de 2022

Cláudia Collucci – Folhapress
AUTOR autor do artigo

menu flutuante

São Paulo - Em dois anos, as mortes de crianças até cinco anos por Covid-19 foram mais do que o triplo das causadas, em uma década, por outras 14 doenças que podem ter mortalidade evitada por vacinação e outras ações de saúde. 

Neste ano, mais 300 crianças com menos de cinco anos morreram por Covid Neste ano, mais 300 crianças com menos de cinco anos morreram por Covid
Neste ano, mais 300 crianças com menos de cinco anos morreram por Covid |  Foto: Isaac Fontana/Frame Photo/Folhapress
 

 Em 2020 e 2021, 1.508 crianças morreram por Covid. Já as doenças que compõem a Lista Brasileira de Mortes Evitáveis somaram 44 óbitos nesse período. Entre 2012 e 2021, totalizaram 498 mortes. 

 A lista, formulada por especialistas de diversas áreas ligadas à saúde infantil e coordenada pelo Ministério da Saúde, reúne as seguintes doenças: neurotuberculose, tuberculose miliar, tétano neonatal, tétano, difteria, coqueluche, poliomielite, sarampo, rubéola, hepatite B, caxumba, rubéola congênita, hepatite viral congênita e meningite meningocócica do tipo B. 

LEIA TAMBÉM

Casos de Covid-19 voltam a disparar em Londrina

Crianças de 3 e 4 anos começam a ser vacinadas contra Covid em Londrina

 A relação inclui doenças que podem matar, mas que são passíveis de prevenção por meio de intervenções do SUS, como vacinação, pré-natal adequado e acesso à atenção básica à saúde, cuidados no parto e pós-nascimento. 

 A análise é do Observatório de Saúde na Infância - Observa Infância, da Fiocruz/Unifase, a partir de dados do SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade), do Ministério da Saúde. 

 No último dia 13, a Anvisa liberou o uso emergencial da vacina Coronavac, do Instituto Butantan, para as crianças de três a cinco anos. Porém, as que têm entre seis meses e dois anos continuam descobertas e possuem o dobro de risco de morte em relação às primeiras. 

 Em dois anos, 539 crianças morreram por Covid nessa faixa etária. Para efeito de comparação, entre 2012 e 2021, as outras 14 doenças com mortes evitáveis por vacina somaram 144 óbitos. 

 Segundo Cristiano Boccolini, pesquisador do Observa Infância, se o ritmo de mortes por Covid se mantiver no mesmo nível observado nos últimos dois anos, nos próximos três meses o país pode perder mais 76 crianças nessa faixa etária. 

 "Esse é o preço que o Brasil pode pagar enquanto espera a aprovação da vacinação para esse grupo. No cenário mais otimista, poderíamos ter a vacina nos braços dos nossos bebês daqui a três meses", diz ele. 

 Ao menos 13 países já vacinam crianças menores de cinco anos contra a Covid-19, entre eles Estados Unidos e Israel, que aprovaram a aplicação de doses a partir dos seis meses de idade. 

 No Brasil, até o momento, nenhuma farmacêutica solicitou autorização à Anvisa para uso da vacina a partir dos seis meses. Tanto a Pfizer quanto a Zodiac, representante da Moderna no país, dizem que devem fazer o pedido em breve, mas não definiram datas. 

 A vacinação contra a Covid já liberada para crianças entre três e cinco anos também encontra entraves. Há um público elegível de 5,6 milhões de pessoas –o que significa 11,2 milhões de doses, já que a Coronavac demanda duas aplicações. Mas os municípios só dispõem de cerca de 1,5 milhão de doses e estão criando estratégias distintas para lidar com a escassez.  

 O Ministério da Saúde informou que o governo federal planeja remanejar as doses de Coronavac entre os estados.  

Em meio a isso, o país também enfrenta resistência dos pais em imunizar seus filhos contra a Covid.  

"O que a gente mais vê são mães preocupadas com a meningite, por exemplo, mas a Covid mata muito mais e não há essa sensibilização toda", diz Cristiano. Entre 2012 e 2021, 29 crianças morreram por meningite B no país. 

 Para o pesquisador, isso se deve muito às campanhas contrárias à vacina no final do ano passado e a uma contínua falta de empenho do governo federal no sentido de incentivar a imunização. 

 O pediatra Renato Kfouri, que preside o departamento de imunizações da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), afirma que médicos também foram impactados por notícias falsas sobre a vacinação contra a Covid da mesma forma que parte da população. 

 "Continuamos nessa polarização política, que é uma desgraça para a saúde pública", afirma. Ele também observa uma inversão de valores entre os pais. "A gente viu a vida inteira os pais querendo proteger os filhos com vacinas e só depois pensavam neles. Agora a gente vê pais com duas, três doses, e que não querem dar nenhuma nos filhos." 

 Segundo o pediatra, o risco é que esse tipo de comportamento se repita para outras vacinas do calendário infantil, que já enfrentam queda de cobertura no Brasil e em outros países. 

 Neste ano, mais 300 crianças com menos de cinco anos morreram por Covid. "Isso não é pouco. E o sofrimento, as internações, as sequelas da doença, como a Covid longa?" 

 Patrícia Boccolini, também pesquisadora do Observa Infância, afirma que em grupos de pais essa resistência em relação à vacina contra a Covid tem aberto espaço para questionamentos sobre outras vacinas já estabelecidas. 

 "Parece que foi uma porteira que se abriu. Estão questionando vacinas mais novas, como a pneumocócica [contra pneumonia] e a do rotavírus, e as antigas também, como as da pólio e do sarampo." 

 Para ela, porém, a atual queda da cobertura vacinal vai além da hesitação dos pais devido a informações falsas. Passaria por questões como horários pouco flexíveis dos postos de saúde e pelo fato de que as pessoas não veem mais sequelas de doenças que já foram erradicadas, como a poliomielite. 

 Nas populações mais vulneráveis, outro fator que tem influenciado é o aumento da insegurança alimentar. "O que a gente vai comer amanhã? É um assunto mais imediato para essas famílias do que a questão da vacinação." 

Receba nossas notícias direto no seu celular! Envie também suas fotos para a seção 'A cidade fala'. Adicione o WhatsApp da FOLHA por meio do número (43) 99869-0068 ou pelo link wa.me/message/6WMTNSJARGMLL1