"Ai moço! Toda vez que ouço falar de Londrina, meu coração começa a doer. Até já sei do que você vai falar", diz, com voz embargada e do outro lado da linha de telefone, uma dona de casa prestes a completar 60 anos de idade logo ao ser contactada pela FOLHA. Ela é mãe do agente penitenciário Thiago Borges de Carvalho, 33 anos, cuja morte completou um ano nesta quarta-feira (20). Ele foi assassinado na Avenida Guilherme de Almeida, perto do União da Vitória, zona sul, com tiros de fuzil enquanto retornava de uma revista na PEL 2 (Penitenciária Estadual de Londrina).

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Thiago estava em um carro do SOE (Serviço de Operações Especiais), grupo especializado do Depen (Departamento Penitenciário do Paraná) que atua em situações de crise nos presídios estaduais e do qual o agente foi um dos fundadores em Londrina, quando uma bala de um fuzil 762 atingiu sua cabeça. Os disparos deixaram outros dois servidores feridos, mas eles sobreviveram após serem internados no Hospital da Zona Sul.

Apesar de ter cursado Administração, Carvalho realizou o sonho de ser agente penitenciário ao passar em um concurso de 2008
Apesar de ter cursado Administração, Carvalho realizou o sonho de ser agente penitenciário ao passar em um concurso de 2008 | Foto: Reprodução/Arquivo Família


"2017 foi o pior ano da minha vida. Eu tive depressão e pressão alta. O Thiago era um filho ótimo, trabalhador e esforçado. Ficar sem ele é praticamente impossível. Está difícil viver", relata a mãe, que preferiu não se identificar à reportagem. Morando em Dracena (SP), a quase 300 km de Londrina, a trabalhadora contou que mudou da capital para o interior com os dois filhos depois da morte precoce do marido, provocada por problemas de saúde.

Já adulto, Thiago de Carvalho cursou Administração, mas alimentava outro sonho. Em 2008, passou no concurso de agente penitenciário e veio morar em Curitiba. Oito anos depois, conseguiu a transferência para Londrina, onde ajudou a fundar a primeira unidade do SOE no interior do Paraná. A corporação, que até hoje funciona em dependências anexas à PEL 2, foi oficializada em julho de 2016. "Ele também queria ficar mais perto da família".

Um dos fundadores do SOE, Thiago de Carvalho (canto direito) na inauguração da base do grupo em Londrina, em 2016
Um dos fundadores do SOE, Thiago de Carvalho (canto direito) na inauguração da base do grupo em Londrina, em 2016 | Foto: Reprodução/Agência Estadual de Notícias


Meses depois, Thiago casou-se com uma jovem bióloga na capital paranaense. O rapaz acumulava horas no serviço para conseguir outro objetivo na vida. "Trabalhava sábado, domingo e até feriado para tirar um tempo maior de férias com a esposa. Eles planejavam um filho para 2017, mas isso foi interrompido por esse episódio que tanto me entristece", contou a dona de casa.

Em junho de 2017, seis meses após o crime, uma operação da Sesp (Secretaria Estadual de Segurança Pública) prendeu sete homens que foram acusados de planejar e executar o atentado na zona sul de Londrina. Todos permanecem presos. Segundo as investigações, eles seriam integrantes de uma facção criminosa.

Esposa quer justiça


Thiago e a esposa planejavam um filho para 2017; a bebê nasceu meses após a morte do agente
Thiago e a esposa planejavam um filho para 2017; a bebê nasceu meses após a morte do agente | Foto: Reprodução/Agência Estadual de Notícias


Também ouvida pela FOLHA, a esposa de Thiago de Carvalho, que não quis revelar a identidade, pensou que o sonho alimentado pelo casal de aumentar a família "foi deixado para trás" com a morte do marido. Um mês após o velório do agente - que lotou o pequeno cemitério de Dracena -, ela soube que estava grávida. "Deus foi muito bom comigo ao dar a oportunidade de gerar um verdadeiro anjo. Hoje, não tenho dúvidas de que a minha filha é um milagre", disse.

A bebê nasceu em agosto. "Quando o Thiago morreu, eu senti muita raiva. Percebi que o ódio é um sentimento pesado. Foi difícil aceitar a condição de ser mãe sozinha, além de olhar uma foto e saber que ele (Thiago) não vai voltar mais. Porém, depois que passei por todo este sofrimento, concluí que algo de bom sempre vem quando se tem esperança. É assim que eu vivo hoje", completou.

Apesar do luto, a mãe e esposa de Thiago Borges de Carvalho querem que a Justiça puna os responsáveis pelo assassinato do servidor público. "Que a lei seja cumprida", afirmaram.

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