Mãe de Hannan quer que filho seja lembrado como alguém 'feliz e cativante'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Luis Fernando Wiltemburg - Grupo Folha 
A atendente Sônia Regina da Silva, mãe de Hannan José Silva, assassinado entre a noite de segunda-feira (21) e a madrugada de terça (22) na praça Rocha Pombo, diz que quer que o filho seja lembrado por ser "feliz, humilde, trabalhador, educado e que queria ser famoso”.

Sônia diz querer apagar a imagem criada com base no depoimento do homem preso pelo assassinato, Fernando Inácio Andrade, que assumiu para a Polícia Civil também a morte de Fábio Ábila, ocorrida cerca de dez dias antes no Bosque.
Para Sônia, o filho foi morto por estar no “local errado, na hora errada e acompanhado da pessoa errada”. A mãe acredita que a intenção de Andrade era roubar Hannan. “Eu acho que meu filho revidou e a única maneira foi matá-lo para roubar. Foi meu filho que agiu em legítima defesa”, diz a atendente.
A declaração justificaria o machucado no braço de Andrade, apresentado à Polícia Civil durante o depoimento. Naquele momento, ele disse que foi procurado pela vítima para um suposto programa e, diante da negativa, Hannan teria segurado em seu braço. Andrade alega, então, que se defendeu e, em legítima defesa, acabou matando a vítima.
“Ele diz isso para inverter a situação e parecer ser a vítima”, diz o padrasto, o encarregado de depósito Marcelo Lima de Souza. A mãe ainda aponta outro fator: “Quero deixar claro que meu filho não era gay. Ele nunca declarou isso. Por isso, eu digo que não é verdade o que esse cara [Andrade] fala”, afirma, categórica.
Sônia ainda aponta que Hannan foi encontrado com machucados no rosto, na testa e nas bochechas, além de ter os pés amarrados e a mão machucada. “Meu filho, sim, agiu em legítima defesa.”
CAMINHO PARA CASA
Hannan foi morto após ter saído do trabalho, no cinema de um shopping da zona leste, enquanto seguia a pé para casa, no Jardim Hedy, na zona oeste. Marcelo Souza diz que o filho voltava frequentemente para casa com transporte fornecido pelo empregador, por volta das 2h30, mas que, quando saía mais cedo, tinha o costume de voltar a pé.
Souza conta que a família não gostava disso. “Quando ele nos falava que estava sem dinheiro, nós fazíamos uma vaquinha para pagar, mas ele estava acostumado [a fazer o trajeto andando].”
Pelo horário em que chegava em casa, os pais só começaram a ficar preocupados quando policiais militares entregaram o telefone celular de Hannan, encontrado com Andrade na rua Rio Grande do Norte – o suspeito disse aos agentes ter encontrado o aparelho nas imediações de um cursinho pré-vestibular da Rua Fernando de Noronha, coincidentemente, onde Hannan estudava. “Nós quisemos fazer boletim de ocorrência por desaparecimento, mas os policiais disseram que tinha um prazo mínimo para ser considerado desaparecido”, recorda Souza.
No dia seguinte, sem o filho em casa, procuraram a Polícia Civil e, em seguida, seguiram para o local de trabalho dele, por volta das 12h30, na tentativa de entender o que poderia ter levado Hannan a não voltar para casa. Seguiram, logo após, para o cursinho. Ao constatarem que havia câmeras de segurança, pediram para a direção acesso às imagens, o que foi permitido.
Apenas Sônia entrou para olhar as gravações. Do lado de fora da escola, Souza recebeu uma chamada telefônica dizendo que um corpo havia sido encontrado na praça Rocha Pombo e orientando-o a seguir para lá, onde o pior foi constatado: era o corpo de seu filho. “Dali em diante, o chão caiu. E tinha outra coisa: como contar para a mãe dele? Eu tive de contar”, recorda.
O RAPAZ QUE QUERIA SER FAMOSO
A principal recordação dos pais de Hannan é de um rapaz que trabalhava duro na expectativa de se tornar, um dia, um jornalista famoso. “Ele dizia que queria estudar, sair pelo mundo para trabalhar. Falava inglês perfeitamente, sem nunca ter estudado”, conta Souza.
A mãe lembra que ele dizia que queria ir para Nova York, trabalhar em uma rede de televisão norte-americana - “ABC, eu acho”, diz ela. Simpático e comunicativo, Hannan tinha um canal no Youtube, onde começou se apresentando como Jack. “Não deu muito certo e ele voltou para Hannan”, recorda Souza.
"Era a pessoa mais cativante que existiu"
O rapaz que pretendia estudar jornalismo e que, segundo amigos, tinha obtido um bom desempenho na primeira fase da UEL (Universidade Estadual de Londrina), ocorrida no domingo (20), pagava o cursinho com o próprio salário, assim como o tratamento dentário. Mas, quando precisava, podia contar com o socorro da família.
Sônia ressalta o sorriso sempre presente no rosto dele, mesmo nos piores dias. E que também era uma pessoa peculiar, que gostava de mudar a cor dos cabelos com frequência, mesmo sob protestos da mãe. “Eu dizia, ‘filho, fica feio, que jornalista você vai ser desse jeito?’, e ele respondia ‘Eu vou ser um jornalista que pinta o cabelo’. Era a pessoa mais cativante que existiu", recorda.
LEIA MAIS:
Polícia Civil investiga crime registrado no Bosque Central
Corpo é encontrado na Praça Rocha Pombo
Polícia apresenta suspeito de homicídios no centro de Londrina


