Homem preso por homicídio de avó e neta em Jataizinho pede indenização de R$ 500 mil
Linchado por moradores, Reginaldo Santos passou 43 dias preso até o verdadeiro culpado confessar; advogado vê 'grave falha estatal' e pede reparação financeira
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Linchado por moradores, Reginaldo Santos passou 43 dias preso até o verdadeiro culpado confessar; advogado vê 'grave falha estatal' e pede reparação financeira

Reginaldo Aparecido dos Santos, linchado por moradores de Jataizinho (Região Metropolitana de Londrina) e preso injustamente por 43 dias no ano passado, pede uma indenização de R$ 500 mil ao Estado do Paraná em compensação pelos danos morais sofridos na época, quando foi o primeiro suspeito do assassinato de Marley Gomes de Almeida, 53, e da neta dela, Ana Carolina Almeida Anacleto, 11. Elas foram encontradas sem vida na casa da avó no dia 22 de março, com sinais de violência e um pedido de desculpas escrito com sangue na parede. Santos foi preso após a agressão, sendo liberado depois de o verdadeiro culpado confessar o crime.
Marley e Ana foram mortas a facadas, amarradas e amordaçadas por João Vitor Rodrigues, à época com 24 anos. Conhecido como Vitinho, a polícia atestou que ele entrou na residência para cometer um furto e encontrou cerca de R$ 100, mas decidiu procurar outros itens. Para não ser reconhecido e cobrado na comunidade, as executou, utilizando perfumes de Marley em tentativa de limpar suas impressões digitais.
O jovem estava preso por tráfico de drogas em Assaí (RML) e, na data do crime, durante uma saída temporária, dormiu na casa da mãe, que é vizinha de Marley. Usando sangue, escreveu “Deculpa, mae. Marcos” (sic) em uma das paredes da casa, pedindo perdão à sua mãe e a um dos filhos da vítima. Ele confessou a autoria à mulher quando retornou ao presídio e, em janeiro, foi condenado à 60 anos de prisão.
Leia mais:
Julgado por sua ‘condição social e cor’
Somente quatro dias após o crime, antes de Rodrigues assumir a responsabilidade, Reginaldo Santos, conhecido como Javali, foi apontado como o principal suspeito. No pedido de indenização feito por seu advogado, Luiz Gustavo Cardozo, o profissional argumentou que a imagem de seu cliente foi divulgada de maneira “precipitada, leviana e irresponsável, transformando-o, da noite para o dia, em alvo de repúdio público, ódio social e violência extrema”. Inclusive, uma emissora televisiva também é alvo de indenização por danos morais no valor de R$ 300 mil.
Santos foi espancado por moradores no mesmo bairro em que o crime foi cometido, necessitando de internamento no HU/UEL (Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina). Sua prisão temporária foi solicitada pelo delegado Vitor Dutra, de Ibiporã, diante de imagens repassadas por testemunhas à Polícia Civil e para preservar a sua integridade após o linchamento, conforme divulgado na época.
Cardozo alega que Santos foi mantido sob custódia por 43 dias “em condições degradantes, sem acesso ao tratamento médico adequado de sua cirrose hepática, o que agravou ainda mais seu estado de saúde”. Completou recordando que “durante sua prisão, o requerente teve sua residência invadida, saqueada e destruída por populares. Perdeu os poucos bens que possuía e todos os seus documentos pessoais”.
Advogado vê falha grave do Estado
O verdadeiro culpado confessou o duplo latrocínio em 8 de maio, fornecendo informações detalhadas e compatíveis com os laudos periciais. Santos foi liberado da PEL II (Penitenciária Estadual de Londrina) no dia seguinte e passou a receber auxílio da Secretaria de Assistência Social de Jataizinho, se mudando para uma casa temporária, onde permanece até hoje. Cardozo informou que ele segue “profundamente marcado e em extrema vulnerabilidade”, vivendo com “as cicatrizes deixadas pela violência covarde que sofreu, sem recursos, com a saúde fragilizada e sem qualquer perspectiva de reconstrução imediata de sua vida”.

Com o Governo do Paraná como requerido, o processo de indenização por danos morais tramita na Vara Cível e da Fazenda Pública de Ibiporã. O advogado solicita a fixação de R$ 500 mil ao considerar que um “erro estatal” levou a prisão de Santos. “A atuação precipitada dos agentes estatais, motivada pela comoção social, resultou em flagrante erro judiciário, que trouxe ao requerente danos irreversíveis”, pontuou Cardozo.
A ação está em fase inicial, com a Procuradoria-Geral do Paraná informando, em nota, que “o Governo do Estado não foi citado judicialmente e, portanto, não tem conhecimento formal sobre o pedido de indenização. A prisão foi feita no âmbito da investigação. Ele foi liberado assim que o autor confessou o crime”.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.




