O momento e a forma corretos de explicar sobre sexualidade e reprodução humana às crianças e adolescentes e o papel das escolas nesse processo são questionamentos recorrentes entre pais e educadores. A inserção da educação sexual nos currículos escolares é um tema sempre controverso e gerador de debates calorosos. Há quem veja com bons olhos a divisão da responsabilidade na orientação, mas tem quem defenda que o assunto deve ser tratado estritamente no âmbito familiar.

Nesta semana, a notícia de que o livro infantil “O bebê vem com a cegonha?!?” causou incômodo na gerência de Ensino Fundamental da Secretaria Municipal de Educação reacendeu as discussões. O departamento solicitou formalmente o recolhimento do exemplar das bibliotecas da rede.

O título, de autoria da escritora e educadora Patricia Engel Secco e publicação da Editora Melhoramentos, relata a estória de Pedro, um menino que sai em busca de respostas para uma dúvida muito comum entre as crianças: de onde vêm os bebês? Na obra, a questão surge com a notícia da chegada de um irmão e o menino, então, sai perguntando aos adultos, que lhe dão respostas sem qualquer sustentação na realidade, como a de que os bebês são trazidos pelas cegonhas ou brotam nas hortas, em plantações de repolho.

As respostas deixam Pedro ainda mais confuso e cabe à mãe do garoto derrubar os mitos e esclarecer de maneira simples o processo biológico, da concepção ao parto. A mãe explica sobre a fecundação do óvulo pelo espermatozoide e descreve o ato sexual, associado ao amor e ao afeto.

Embora o conteúdo do livro mostre à criança uma prática natural da vida adulta, a estória foi avaliada como inadequada e classificada como “conteúdo sensível” pela pasta da Educação. Mestre em psicologia escolar, doutora em educação e professora aposentada da UEL (Universidade Estadual de Londrina), a psicóloga Mary Neide Damico Figueiró enxerga o pedido de recolhimento do livro como “um retrocesso” e um “desrespeito” ao direito da criança ao aprendizado.

Autora de quatro livros que abordam o tema da educação sexual, Figueiró utilizou as suas experiências em um grupo de estudo voltado a professores para escrever um deles. Na obra “Educação Sexual no Dia a Dia”, publicada pela Eduel, a psicóloga ensina pais e educadores a conversarem com a criança sobre sexualidade de acordo com cada faixa etária.

Dos dois aos quatro anos de idade, orienta Figueiró, a criança deve ser ensinada que os bebês saem da barriga da mãe. Entre os quatro e os seis anos, ela já tem condições de compreender a relação sexual, ainda que de forma simplificada, destacando que os casais ficam bem juntinhos, nus, acariciando-se até que uma sementinha sai do pênis e entra na vulva, se aloja no útero e dá origem a uma outra sementinha que se torna um bebê.

A partir dos seis anos de idade, a explicação pode ser mais completa, com maior detalhamento sobre como é o ato sexual. “Os nomes das partes do corpo podem ser substituídos por apelidos, não tem problema. E se a criança ficar espantada, deixa ela se espantar porque depois, ela vai assimilar o processo naturalmente.”

Desde 2009

O livro, que desde 2009 faz parte do acervo das bibliotecas da rede municipal de ensino, é indicado para a faixa dos oito aos dez anos de idade.

Além de ser uma atitude respeitosa em relação à criança, falar sobre sexualidade com o público infantil pode ajudar a formar adultos que desenvolvem uma sexualidade mais saudável e a evitar que sejam vítimas de violência, disse Figueiró. “Se não falamos, a criança vai ficar sabendo pelos amigos, pela internet e vai ficar com a ideia de que é feio, é vergonhoso, é besteira, é proibido.”, comentou. “Pesquisas, desenvolvidas pela Unesco e outras instituições, mostram que crianças e adolescentes que têm diálogos sobre sexo com adultos que educam tendem a iniciar a vida sexual mais tarde porque entendem a responsabilidade que isso implica.”

Tirar o livro de circulação é um retrocesso, afirmou Figueiró, porque a estória poderia abrir espaço para a abordagem de temas como respeito, consentimento, pedofilia e estupro. No caso recente do estupro coletivo no Rio de Janeiro, no qual quatro adolescentes violentaram uma menor de idade, chamou a atenção o relato da vítima ao irmão, assim que deixou o apartamento onde tudo aconteceu. Em uma ligação, ela comentou que “achava” que tinha sofrido um estupro.

Vulnerabilidade

“Na escola, a criança tem tanto conhecimento sobre ciências, sobre montanhas, rios e não pode ter sobre a origem da vida? Isso é uma involução. A criança que não sabe nada sobre isso se torna uma criança mais vulnerável à violência sexual. Não vai saber fugir, se proteger, falar não”, alertou Figueiró.

Promover a educação sexual nas escolas, ressaltou a psicóloga, nada tem a ver com estimular a sexualização de crianças e adolescentes. A formação integral do aluno, encampando aspectos afetivos, cognitivos e emocionais, faz parte da responsabilidade social das instituições de ensino. “Paulo Freire já dizia que a criança aprende com o corpo inteiro, com as emoções, as sensações.”

Por fim, Figueiró lembra que informação nunca é demais e que quando a sexualidade é tratada tanto na escola quanto em casa, a criança e o adolescente vão somar conhecimento. E deixar de discutir o tema também é educar. “Quando nem a escola e nem a família falam sobre, o silêncio também está educando, porém de um modo negativo.”

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