Em agosto do ano passado, a professora Patrícia Perez Bueno perdeu o pai, Guilherme, 72, para a Covid-19. Ele vivia acamado, nunca saía de casa, mas contraiu o novo coronavírus. O primeiro sintoma foi uma febre diagnosticada na manhã de uma segunda-feira e que foi controlada com medicação. No final da tarde, uma nova febre, mais forte, acompanhada de falta de ar. Naquela mesma noite, Guilherme foi encaminhado para o hospital e de lá saiu sem vida, cerca de 20 dias depois.

Guilherme vivia acamado, mas foi contaminado e não resistiu à doença
Guilherme vivia acamado, mas foi contaminado e não resistiu à doença | Foto: Acervo Pessoal

Durante todo o período de internação, Patrícia e os dois irmãos se revezaram no hospital, acompanhando o pai em tempo integral. Devidamente paramentados para evitar a contaminação, os três filhos viram a doença evoluir gradualmente, até levá-lo embora, em uma manhã de sábado. Daqueles dias, a professora se recorda dos gemidos do pai, que mesmo intubado sofria para manter a respiração, da tosse e da febre incessantes e de seu olhar, denunciando o desconforto físico. “A médica foi conscientizando a gente, dizendo que o caso dele era muito difícil de reverter, mas quando ele resistia a mais uma noite, sempre vinha a esperança de que no próximo dia ele pudesse começar a reagir ao tratamento”, relembrou. “Quando ele morreu, a enfermeira estava dando banho nele e meu irmão estava junto. Pelo menos ele não morreu sozinho.”

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Não bastasse a dor da perda, a família teve que superar outra enorme tristeza, a de não poder velar o corpo. “Depois que ele morreu, ninguém mais o viu. A gente não sabe se colocaram uma roupa, como estava dentro do caixão. Dá uma angústia não ver pela última vez, não poder colocar uma flor no caixão. Os amigos não puderam se despedir, não teve o momento do luto, do velório. No enterro, eram só onze pessoas. Meu pai chegou ao cemitério às 17h30 e foi enterrado às 17h45. É uma lacuna eterna”, lamentou a professora.

Patrícia sabe que é inútil tentar adivinhar de que forma o vírus entrou na casa dos pais, mas há uma certeza. Ele foi levado por alguém. Um familiar ou um dos profissionais de saúde que cuidavam de Guilherme. A mãe da professora também foi contaminada na mesma época que o marido, mas apresentou sintomas leves.

Hoje, enquanto se refaz da perda, Patrícia usa as redes sociais para tentar conscientizar outras pessoas sobre a importância da manutenção dos cuidados preventivos contra a Covid-19. “Quando você presencia, passa por aquilo todos os dias, a sua visão sobre a doença é totalmente diferente. É uma doença destrutiva, desumana, terrível. Não te dá nenhuma chance.”

A professora também conta que quando vê pessoas aglomeradas, sem máscara ou usando o equipamento de proteção de forma inadequada, não hesita em alertar. A motivação vem da dor vivenciada pela família. “Sabemos como é difícil e, por empatia, eu não gostaria que ninguém passasse pelo que eu passei. No mesmo mês em que meu pai morreu, também perdi uma tia e um primo para a doença.”

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