Médico epidemiologista e sanitarista, Gilberto Martin observa uma “reintensificação” da doença que começa a se assemelhar ao período do primeiro pico da pandemia, em julho e agosto. Iniciado em novembro, esse recomeço, segundo Martin, é resultado da condução do processo de flexibilização das regras de distanciamento social. “Nem dá para chamar de flexibilização. O que se percebe é uma circulação de pessoas praticamente normal. Comércio, ruas, comemorações no final de ano. Isso tudo a gente vê refletido nos números, o quanto aumentou a transmissibilidade do vírus. É a crônica de uma morte anunciada”, diz o médico.

A base da epidemiologia é a estatística e os números são precisos, ressaltou Martin. Sem levar à risca as normas sanitárias, que orientam manter o isolamento social o máximo possível, utilizar máscara e álcool gel, a propagação do vírus é certa. E à medida que aumenta o número de casos, também cresce o número de pacientes com agravamento da doença e de óbitos. “Não há confirmação de que essa nova cepa é mais agressiva do que a que está circulando. E essa nova cepa, por enquanto, só está circulando em São Paulo. Não houve mudança na agressividade do vírus, mas na agressividade com que as pessoas estão rompendo as regras de distanciamento.”

Martin disse temer o fechamento dos dados de janeiro e de fevereiro e que para evitar um colapso no sistema de saúde, seria necessário que a população mantivesse o distanciamento social por, pelo menos, mais seis meses. “Vacina mesmo só vamos ter para o segundo semestre. Mesmo se tivermos a vacina no primeiro semestre, seria para os profissionais de saúde e para os idosos, para reduzir os casos graves da doença. Mas a vacina em um volume que começa a interferir na transmissão do vírus vai levar mais tempo.”

Do ponto de vista da epidemiologia, observou Martin, a melhor medida para evitar o agravamento do número de casos e de mortes seria determinar novamente o fechamento do comércio e das outras atividades econômicas não essenciais por um período de 15 ou 30 dias, reduzindo ao máximo possível a circulação de pessoas. “Além de aplainar a curva de contaminação pela doença e reduzir a demanda pelos serviços de saúde, essa medida também faria ganharmos tempo com a vacina e ganhar tempo agora é importante. Se não fizer o lockdown, que pelo menos seja tomada uma medida intermediária e que haja um revezamento dos dias e horários em que os setores poderão funcionar. Não são medidas contra a economia, mas a favor da saúde das pessoas”, destaca o médico.

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