Para especialista, crescimento da violência reforça na população a sensação de impotência e descrença nas instituições
Para especialista, crescimento da violência reforça na população a sensação de impotência e descrença nas instituições | Foto: Arquivo Folha



Os números de MVI (Mortes Violentas Intencionais) atingiram um novo recorde no ano passado no Brasil. De janeiro a dezembro de 2017, foram registradas 63.880 mortes resultantes da violência provocada, alcançando a média de 175 casos por dia - alta de 2,9% ante 2016, quando foram contabilizadas 61.619 mortes. Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro da Segurança Pública 2018, divulgado nesta quinta-feira (9) pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Os números do documento revelam um dado impressionante: a cada hora, sete pessoas foram assassinadas no País no ano passado.


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A título de comparação, os quase 64 mil assassinatos cometidos no Brasil no último ano equivalem, em números, às mortes provocadas pela explosão da bomba nuclear que devastou a cidade japonesa de Nagasaki, em 1945, ou à média anual de mortes registradas na Guerra da Síria, em curso há sete anos. O número de MVI é calculado a partir dos registros de homicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte, homicídios de policiais e mortes por intervenções policiais.

No Paraná, os dados levantados pelo FBSP permitem desenhar um cenário um pouco mais favorável da violência, mas a organização classifica no Grupo 2 os registros estatísticos oficiais do Estado, o que significa que a qualidade das informações é considerada "intermediária". Em relação ao número de MVI registradas em 2017 caiu 13% na comparação com o ano anterior. Em 2016 foram computados 2.940 assassinatos em todo o Estado contra 2.555 no ano passado.

O Rio Grande do Norte registrou a maior taxa de mortes violentas por 100 mil habitantes: 68. Em seguida vêm o Acre (63,9) e Ceará (59,1). As menores taxas foram observadas em São Paulo (10,7), Santa Catarina (16,5) e Distrito Federal (18,2). O Paraná aparece com 22,6, atrás do Mato Grosso do Sul (20,8), Piauí (20,2) e Minas Gerais (19,6).

As capitais com as maiores taxas são Rio Branco (AC), com 83,7 por 100 mil habitantes, Fortaleza (CE), com 77,3 e Belém (PA) com 67,5. A menor taxa foi verificada em São Paulo (11,1), Campo Grande (13,7) e Brasília (18,2). Curitiba está no meio da tabela, com 24,4 mortes violentas para cada grupo de 100 mil habitantes.

"As taxas de Mortes Violentas Intencionais, que resultam os principais tipos de registros com resultado morte, não param de crescer e não há solução mágica que permita reverter esse quadro. Os recursos são escassos, trabalha-se muito, mas desarticuladamente, gasta-se mal, e não aprendemos com as sucessivas crises que acompanhamos no setor ao longo dos últimos anos", afirma o diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima, por meio de nota encaminhada pela assessoria de imprensa.

A organização avalia que o Brasil precisa de ações coordenadas das políticas de prevenção e combate à violência que só serão possíveis a partir de um novo modelo de governança para a segurança pública.

Doutor em Sociologia e coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública da PUC Minas, Luís Flávio Sapori diz que os números apresentados pelo anuário são "inadmissíveis" e que o crescimento da violência observado nos últimos anos reforça na população a sensação de impotência e descrença nas instituições. "Certamente vai influenciar as eleições presidenciais deste ano porque é uma sensação de que não tem jeito, de que o poder público não está conseguindo resolver o problema", analisou.

Sem acreditar nos órgãos oficiais e agentes de segurança, destaca Sapori, a população parte em busca de alternativas de autoproteção, o que explica o interesse pelo porte de arma de fogo que vem aumentando entre os brasileiros, inclusive com a proposta de revogação do Estatuto do Desarmamento. "Há um apoio cada vez maior da população a soluções autoritárias para a segurança pública. A democracia brasileira está muito fragilizada."

Segundo o anuário, das 119.484 armas apreendidas no ano passado pelas forças de segurança, 95% não foram registradas pelas polícias no Sinarm, sistema da Polícia Federal que unifica informações sobre armas no País.

Sapori chama atenção para outro dado do anuário, referente à letalidade policial, que teve o expressivo aumento de 20% entre 2016 e 2017. Hoje, há 14 mortes decorrentes de intervenções policiais por dia no Brasil. Em 2012, eram seis mortes ao dia. "Esse é o dado mais preocupante do anuário. Mostra que os policiais estão se sentindo mais à vontade para matar em confrontos com criminosos. É um fenômeno que aumentou em todo o Brasil."

Em nota enviada pela assessoria de imprensa, a Sesp (Secretaria Estadual de Segurança Pública) ressaltou que o Estado apresentou queda no número de homicídios no ano passado e que o primeiro trimestre de 2018 foram os três meses menos violentos em mais de uma década. Segundo o órgão estadual, de janeiro a março deste ano foram 509 mortes contra 628 em igual período de 2017. "O declínio de 19% nas estatísticas reflete o esforço do governo no combate à criminalidade e na segurança do paranaense."

Com relação às mortes decorrentes de confronto com policiais, a Sesp esclarece que um dos motivos para o agravamento da criminalidade do País é o acesso dos criminosos às armas, "tanto em quantidade quanto em qualidade". A secretaria destaca ainda que toda morte decorrente de confronto é investigada pelas corregedorias das polícias Militar e Civil.

Imagem ilustrativa da imagem Brasil registra sete assassinatos por hora
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