Apenas 18% dos municípios têm coleta seletiva


Simoni SarisReportagem Local
Simoni SarisReportagem Local
Londrina teve seu momento de destaque na reciclagem, mas nos últimos anos o serviço passou a dar sinais de enfraquecimento
Londrina teve seu momento de destaque na reciclagem, mas nos últimos anos o serviço passou a dar sinais de enfraquecimento | Fotos: Saulo Ohara



Pesquisa realizada pelo Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem) em 2016 revelou que 1.055 dos 5.570 municípios brasileiros possuíam sistema de coleta seletiva implementado, o que corresponde a uma cobertura de apenas 18%, e a maioria das cidades concentrava-se nas regiões Sul e Sudeste. Os primeiros programas de reciclagem de resíduos sólidos no País surgiram há cerca de 30 anos, mas esse tempo ainda não foi suficiente para que o serviço se consolidasse em todo o território nacional. De modo geral, a coleta seletiva ainda se sustenta com o trabalho de catadores individuais e a falta de conhecimento da população contribui para o atraso na expansão da atividade.

Na última terça-feira (5), o instituto de pesquisa Ibope Inteligência divulgou uma pesquisa na qual 98% dos brasileiros ouvidos consideram a reciclagem importante para o futuro do planeta, mas 66% deles afirmam saberem pouco ou nada a respeito de coleta seletiva e 28% não sabem citar quais são as cores das lixeiras para coleta de cada tipo de material.

O estudo mostrou ainda que 95% concordam que o jeito correto de descartar os resíduos é separando cada um em um saquinho diferente, mas 75% não fazem isso em casa. Trinta e nove por cento dos entrevistados não separam sequer o lixo orgânico do inorgânico.

No levantamento, encomendado pela Ambev, foram ouvidas 1,8 mil pessoas por telefone entre os dias 25 e 30 de maio e dele é possível extrair vários recortes. Um deles é analisar os dados específicos de cada Estado.

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Quando avaliadas as respostas dadas pelos paranaenses aos entrevistadores, a realidade não difere muito do que se observa no restante do País. No Estado onde o programa de coleta seletiva implantado na capital foi propagado como modelo no final da década de 1980, em 2018, 62% dos participantes dizem saberem pouco ou nada a respeito de coleta seletiva e 23% não sabem distinguir as cores das lixeiras destinadas à separação do material reciclável.

Oitenta e oito por cento dos paranaenses entrevistados dizem separar o lixo orgânico do inorgânico, mas apenas 28% reservam um recipiente para cada item reciclável. Do total ouvido, 66% dizem estar atentos à compra de produtos com embalagens que sejam recicláveis, mas apenas 6% deles sabiam que as embalagens longa vida se enquadram nessa categoria e 29% desconheciam que garrafas PET podem ser reaproveitadas. O índice melhora quando se fala em plástico (77%), vidro (64%), papel (51%) e alumínio (54%), mas ainda está longe do ideal.

"A reciclagem no Brasil é uma responsabilidade compartilhada. Se uma das pontas falha, o processo não se completa", disse o gerente de Sustentabilidade Ambiental da Ambev, Filipe Barolo.

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ENFRAQUECIMENTO
Assim como aconteceu com Curitiba 30 anos atrás, Londrina também chegou a ter seu momento de destaque na reciclagem. O programa desenvolvido no município para reduzir o despejo de lixo no meio ambiente e proporcionar renda aos recicladores recebeu algumas premiações, uma delas, em 2009, de alcance na América Latina. Nos últimos anos, porém, o serviço passou a dar sinais de enfraquecimento.

Em 2009, quando o município recebeu o prêmio Del Água America Latina y El Caribe, a prefeitura divulgou que das 400 toneladas de resíduos geradas diariamente em Londrina, 35% eram recicladas. Em 2017, a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) contabilizou pouco mais de 127 toneladas de de resíduos sólidos, dos quais 10% foram reaproveitados. Mas segundo balanço disponível no site da companhia, no ano passado, pouco mais de nove toneladas passaram pelos barracões das cooperativas de reciclagem. Em 2016, haviam sido reciclados 13,2 mil quilos de material.

A CMTU admite queda na produção, mas atribui a redução à situação econômica do País, que "provocou a perda do poder aquisitivo das famílias e, consequentemente, a queda no consumo de materiais que geram resíduos recicláveis", conforme afirmou em nota encaminhada pela assessoria de imprensa.

"A população faz a parte dela, separando o lixo. Mas estou bem desanimada, sem esperança. A gente chegou em um ponto em que deveria ser o máximo, mas as cooperativas são organizadas e tem os atravessadores e catadores individuais, que estão ficando com a vantagem e o lucro que deveria vir para os cooperados", protestou a presidente da Coocepeve, Sandra Araújo Barroso Silva.

Ela se queixa do aumento do número de carrinheiros nas ruas e cobra da CMTU medidas para coibir o trabalho de recicladores irregulares na cidade. "A gente é fiscalizada, recebe um monte de cobranças e eles estão aí, trabalhando sem regularização e sem nenhum encargo", destacou Silva, que calcula que os rendimentos dos recicladores cooperados caiu, em média, R$ 300 nos últimos dois anos. "O ano passado foi ruim e 2018 está bem pior."

CENTRAL
A presidente da Coocepeve cita também a CVMR (Central de Valorização de Materiais Recicláveis), que em menos de um ano após o início das atividades deixou de operar. "Tive esperança com a central, que iria agregar valor ao material, mas a central está parada desde março", lamentou Silva.

A central surgiu de uma parceria entre a CMTU, as cooperativas de catadores e entidades representantes de setores industriais e o objetivo era beneficiar e vender os resíduos da coleta seletiva garantindo um preço melhor para os materiais. Segundo a companhia, as associações de logística reversa estão negociando o retorno das atividades.

"Eu olho o passado, começamos pequenos, fomos nos organizando, em 2009 tivemos premiação, fechamos com chave de ouro, e hoje a gente vê voltando para trás. A gente reclama e a CMTU diz que é a crise, mas a maioria das pessoas que vejo trabalhando por conta própria já esteve nas cooperativas. É a crise ou o sistema? Eu acho que é o sistema", criticou Silva.

A CMTU afirma que tem orientado os catadores autônomos e as cooperativas para a inclusão dos trabalhadores informais.



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