"Ainda vão fechar tudo para não dormirmos nem nesse espaço", diz morador de rua
Grades da rodoviária tinham sido autorizadas desde fevereiro pela CMTU
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de agosto de 2019
Grades da rodoviária tinham sido autorizadas desde fevereiro pela CMTU
Isabela Fleischmann - Reportagem Local 
Em meio a onda de frio que passou por Londrina neste fim de semana, os moradores de rua que dormem na rodoviária não tiveram nem a proteção contra o sereno sob a marquise. Alojaram-se no pequeno espaço entre as grades e a rua. O gradil foi instalado na quinta-feira (1°) para impedir que os moradores de rua dormissem no piso inferior da rodoviária.

Submetido à precariedade, o morador de rua Adão Gelinski Leal, 35, disse que as grades são “um absurdo” e questionou o porquê do poder público não investir em estrutura para a Assistência Social ao invés de cercas para moradores de rua. “Eu não sou ladrão, não uso droga, só tomo minha cachacinha e fumo cigarro. Eu trabalho, sou engraxate, não faço mal a ninguém”, disse.
Leal disse que aguarda documentos que a assistência está providenciando para ele conseguir um trabalho. Enquanto não tem seu lugar, dorme no pequeno espaço que ficou entre as grades. “Eu durmo nesse espacinho, mas o problema são as mulheres e crianças. Pode anotar, eles ainda vão fechar tudo aqui para não dormirmos nem nesse espaço.”

Ainda nesta segunda-feira (5) trabalhadores da empresa contratada para a instalação das grades faziam ajustes na cerca enquanto outro funcionário da rodoviária orientava que os passageiros de linhas metropolitanas deveriam pegar ônibus agora na parte superior do terminal rodoviário. A grade de 2,5 metros de largura por 2,43 de altura custou R$ 46 mil, com recursos próprios da rodoviária, como as taxas de embarque, como explicou o gerente da rodoviária, Sandro Neves.

A licitação para o gradil foi feita pela CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização). Na manhã desta segunda, o prefeito Marcelo Belinati (PP) disse em entrevista coletiva que houve uma "interpretação equivocada" da instalação de grades.
De acordo com o prefeito, a justificativa da CMTU para o fechamento das áreas foi a segurança dos taxistas, comerciantes, passageiros e usuários. "Ali [rodoviária] já morreu gente, existia muitos problemas com drogas e bebidas, até [a prática de] sexo já ocorreu naquele local. O objetivo da direção da rodoviária é amenizar problema de segurança", disse.

Mas enquanto um investimento desse porte foi feito para impedir que moradores de rua durmam no piso inferior, a rodoviária apresenta problemas estruturais que ainda não foram solucionados como rachaduras no teto.
Uma visita técnica feita pela Comissão de Finanças e Orçamento da Câmara de Londrina na rodoviária em fevereiro deste ano constatou que o prédio, além de ter goteiras, tinha falhas na segurança com apenas duas câmeras para monitoramento interno de funcionamento. A rodoviária tem quase 17 mil metros quadrados.
Desde a visita técnica, Neves já se queixava que a presença dos moradores gerava insegurança no terminal. À época, ele já tinha sugerido a construção de grades para dificultar a permanência dos moradores de rua na área, o que já tinha sido autorizado pela CMTU desde então.
Durante a coletiva, o prefeito lembrou que as pessoas em situação de rua que frequentam a rodoviária estão cadastradas na Secretaria Municipal de Assistência Social e que é oferecido a eles ações como casas de acolhimento, onde podem dormir, alimentar-se e tomar banho. "Mas existem pessoas que são usuárias de drogas e que não querem sair desta situação, preferem ficar na rua", recordou.
Segundo Neves as grades não impedem o direito de ir e vir dos moradores, que podem utilizar os banheiros do terminal. “Eles só não podem permanecer lá, dormir”. Depois da repercussão do gradil, o gerente disse ainda que os esclarecimentos só serão feitos por meio de nota da CMTU.
Para os taxistas que pagam para ter o ponto no piso inferior da rodoviária, o local virou um “museu”, como definiu Reinaldo de Oliveira, 63. Sem a circulação de passageiros das linhas interurbanas, Oliveira e seu colega de profissão Alex Sandro Delmonaco, 40, viram as corridas diminuírem drasticamente. “Primeiro por conta dos aplicativos e agora essas grades”, queixa-se Delmonaco.
(Colaborou Luís Fernando Wiltemburg)
LEIA MAIS
MP vai apurar instalação de grades anti-morador de rua na rodoviária


