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m de leitura Atualizado em 28/05/2022, 06:00

Adoção tardia oferece nova oportunidade a crianças e adolescentes

Juizado da Infância avalia que escolha por adotados mais velhos mostra amadurecimento dos casais no país

PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de maio de 2022

Janaína Ávila - Especial para a Folha
AUTOR autor do artigo

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A pedagoga Maria Fernanda Bleck Vieira conheceu o marido, o controlador de voo André Saulo de Barros Vieira, em São José dos Campos (SP) e entre as tantas afinidades, ainda na época do namoro, existia aquela da vontade de adotar duas crianças. O tema da adoção amadureceu com o relacionamento, veio o casamento e uns dois anos de prazo para um filho biológico fazer a família crescer, coisa que não aconteceu. Não existiam motivos de saúde que pudessem impedir, simplesmente não aconteceu. Depois de uma temporada em Recife (PE), veio a transferência do controlador de voo para Londrina e foi a saúde da cidade que fez os dois decidirem realizar o sonho que os acompanhava desde os tempos de solteiros: ser pai e mãe adotivos. Era chegada a hora de fazer a família aumentar.  

Gustavo Carneiro 

Fernanda Bleck e André Saulo realizaram o sonho de formar família por meio da adoção de três crianças Gustavo Carneiro 

Fernanda Bleck e André Saulo realizaram o sonho de formar família por meio da adoção de três crianças
Gustavo Carneiro Fernanda Bleck e André Saulo realizaram o sonho de formar família por meio da adoção de três crianças |  Foto: Gustavo Carneiro
 

O casal entrou com a documentação para o processo da primeira adoção em 2011 e um ano depois, estava habilitado com a intenção de adotar duas crianças de uma vez. Uma adoção tardia, como se diz para aquelas de crianças maiores de três anos de idade. “Eu nunca engravidei da barriga, só do coração. Eu, pessoalmente, gosto da sensação da espera, embora reconheça a ansiedade e expectativa, sem saber quanto tempo iria levar até ele ou ela chegar. O que eu sempre soube é que ele já estava ali, em algum lugar. Só faltava o encontro acontecer, o amor já existia, era latente. Já era maternidade”, conta Maria Fernanda. 

O encontro com Vitor, o primeiro filho do casal, demorou três anos para acontecer. Finalizado o processo, foi a vez dos três encararem uma nova espera na fila de adoção, até a chegada dos irmãos Ingrid, hoje com nove anos e Roberto, com oito anos, isso em dezembro de 2020. “A vontade de continuar adotando continua aqui. Se não fossem as limitações da vida prática, já estaríamos novamente na fila da adoção”, revela.  

Maria Fernanda diz entender que o ato de adotar é a chance de dar uma oportunidade para quem já perdeu a primeira possibilidade de viver e desenvolver todo o seu potencial. “Mais do que doar, eu estou recebendo meus filhos de uma forma tão verdadeira quanto quem gera um filho no próprio ventre. É aceitar a parentalidade para muito além de laços de sangue, é uma questão de identificação nos desejos. O nosso e o deles, de ter uma família. O processo é desafiador e cada criança passa por um período de adaptação que pode durar meses, anos. Existem muitas rupturas na vida das crianças, sérias, emocionais, afetivas e traumáticas, essa é a visão real da adoção, principalmente a tardia. Uma decisão consciente porque estamos com crianças já marcadas profundamente pelo abandono, pela rejeição vinda de pessoas a quem eles confiaram a própria vida”, comenta.  

O casal Vieira sempre participou de grupos de apoio e Maria Fernanda, considera essa companhia fundamental. “São pessoas com quem podemos contar, consolar e compartilhar experiências muito desafiadoras”, afirma. A certidão com o nome da família como sobrenome das crianças, continua Maria Fernanda, é o símbolo de que tudo valeu a pena. “Quando sai a certidão é emocionante para toda a família, pegar fisicamente um papel que representa, para as crianças, uma vitória. A adoção envolve muitos sentimentos e esses, desse momento, são de muita alegria e amor”, diz. 

Maria Fernanda e André Saulo Vieira fizeram parte dos primeiros grupos de pais habilitados à adoção do Instituto de Apoio a Adoção de Crianças e Adolescentes Trilhas do Afeto, uma organização londrinense que desde 2014 promove encontros, debates e projetos que incentivem a adoção legal, ações com apoio e em parceria com a Vara da Infância e Juventude de Londrina.  

O grupo é um entre os mais de 120 que existem espalhados em todo o Brasil e dele, geralmente, fazem parte pais que passaram pelo processo de adoção dos próprios filhos. Esse é o caso do presidente do Trilhas do Afeto, José Wilson de Souza. Ele conta que o Instituto já atendeu mais de 400 famílias nos processos de pré-adoção e outras 450, no pós-adoção. Hoje, o Grupo acompanha 260 famílias, em reuniões mensais e que começam a serem retomadas presencialmente depois da pandemia.  

Segundo ele, os vínculos entre os pais que passam pela experiência acabam acontecendo naturalmente. “São grupos com especificidades diferentes. Em um, a ansiedade e a angústia da espera. No outro, as dificuldades com o filho que chegou”, comenta.  

Com o passar do tempo e as crianças crescendo, surgiu a necessidade de criar um grupo para os adolescentes que chegaram pequenos ao Trilhas do Afeto e hoje se encontram entre eles e com o acompanhamento de uma psicóloga para discutirem temas mais relacionados aos desafios dessa fase da vida. Souza acredita numa mudança no perfil do brasileiro que decide adotar, hoje mais aberto a crianças maiores e grupos de irmãos.  

“As crianças que estão destituídas precisam da convivência familiar. Conversando com as famílias, percebemos uma quebra do paradigma da adoção de crianças de zero a três anos de idade. Hoje, na fila de adoção, essa média já subiu para crianças de zero a sete, oito anos de idade. Além disso, existe o interesse por crianças com necessidades especiais. As famílias estão mais conscientes, há uma mudança de pensamento na sociedade”, analisa.  

Souza diz que o papel do Grupo de Apoio não é induzir os pais a tomar qualquer decisão. “A adoção é uma questão muito íntima, é imprescindível ser consciente do ato e os grupos podem ajudar a isso, nunca induzir a nada. A criança não pode mais sofrer traumas em uma segunda convivência familiar”, afirma. 

Para a juíza de direito da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Camila Tereza Gutzlaff Cardoso, a mudança de perfil dos candidatos a adoção é real e vem acontecendo nos últimos dez anos. “Percebemos que mudou a forma de entender a filiação, com a ideia de que ela pode acontecer a qualquer idade”, afirma. Para ela, isso aconteceu justamente por conta da atuação dos grupos de apoio, campanhas de informação sobre o tema, o trabalho das equipes técnicas no momento de habilitação e maior visibilidade sobre o assunto na mídia, uma grande soma de atores atuando na desmitificação dos processos de adoção.  

“Há um entendimento maior que é possível ser pai e mãe de filhos de qualquer idade. Os desafios, com amor, preparo e vontade de exercer a paternidade e a maternidade com vínculo, serão superados e as relações, melhoradas”, comenta. 

 Os processos também foram simplificados e projetos como o Entrega Legal, que atende gestantes que desejam entregar o bebê para adoção legalmente, mostram como a adoção talvez tenha muito mais a ver com amor que com abandono. “É um direito de uma mãe entregar o seu filho para a adoção, isso elimina a cultura do abandono e também é um ato de amor”, comenta a juíza. 

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 Durante a pandemia, ocorreu uma diminuição nos pedidos de habilitação, mas isso já está normalizado. Hoje, em Londrina, de acordo com números da Vara da Infância e Juventude, são 94 crianças e adolescentes acolhidos e 191 perfis de pessoas habilitadas. Apenas 15 crianças e adolescentes estão aptos para adoção. No ano passado, foram realizadas 21 adoções, sendo dessas, duas dentro do Projeto Entrega Legal. Em 2022, foram 10 adoções até o momento, sendo duas dentro do Entrega Legal. Para a magistrada, a atual crise econômica serve de alerta para a situação das crianças e adolescentes porque ela tende a fazer aumentar situações de riscos, elevando o número de crianças acolhidas em instituições por causas de conflito, vulnerabilidade ou negligência familiar. “Sem as escolas, no ano passado, o volume de denúncias caiu bastante e agora, volta a crescer. A escola é o principal canal de verificação de negligência e situação de risco”, comenta. 

APLICATIVO

Em 2018, no Dia Nacional da Adoção, o 25 de maio, os pretendentes já habilitados pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) ganharam uma ferramenta tecnológica para ajudar na busca do tão sonhado filho. O aplicativo A.DOT nasceu de uma parceria entre o Tribunal de Justiça do Paraná, por meio da Corregedoria-Geral da Justiça do Paraná e do Conselho de Supervisão dos Juízos da Infância e da Juventude (CONSIJ-PR) e hoje, conta com 10.128 perfis de candidatos a pais ativos e validados pelo SNA, que estão conhecendo melhor as 649 crianças e adolescentes disponíveis para adoção em nove estados brasileiros, parceiros do Tribunal de Justiça do Paraná.  

Ao longo desses quatro anos de existência, 56 adoções foram concretizadas por meio do app. De acordo com a gestora do aplicativo, Liselis Izar, da Comissão Estadual e Judiciária de Adoção (Ceja/PR), a ferramenta quer dar mais visibilidade às crianças maiores, adolescentes e grupos de irmãos. Ela também celebra a adoção recente de gêmeos, de 17 anos de idade pelo app. “Eram jovens que ficariam até a maioridade nos abrigos. O aplicativo dá visibilidade para essas crianças que também são uma adoção necessária”, comenta. Hoje, no Paraná, existem 2.665 crianças acolhidas em abrigo e dessas, 422 aguardam para serem adotadas enquanto 273 já se encontram em processo de convivência com as famílias. 

Para acessar o A.DOT os pretendentes precisam, necessariamente, estar previamente habilitados e ativos no Sistema Nacional de Adoção. Ao fazer o cadastro, o sistema já faz a consulta e só assim o acesso ao dados é liberado. “A segurança e proteção das crianças são muito importantes. Não é qualquer pessoa que pode acessar o A.DOT, só quem já está habilitado”, comenta a gestora. O A.DOT também pode ser acessado por pretendentes estrangeiros cadastrados na Ceja, equipes técnicas das Varas de Infância e Juventude, magistrados e promotores de Justiça das Varas de Infância e Juventude e Grupos de Apoio à Adoção. No aplicativo, os pretendentes podem conhecer crianças e adolescentes fora dos perfis indicados no cadastro oficial, ampliando as possibilidades para ambos os lados. 

Na terça-feira (24), o SNA anunciou a busca ativa nacional, uma nova ferramenta que deve facilitar processos de adoção, promovendo o encontro entre pretendentes habilitados e as crianças aptas à adoção que tiverem esgotadas todas as possibilidades de buscas nacionais e internacionais de famílias compatíveis com seu perfil no Sistema. Lançada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a primeira fase da funcionalidade vai permitir que as unidades judiciárias indiquem as crianças e adolescentes que estão disponíveis para busca ativa, com a possibilidade de inclusão de fotos e vídeos. O objetivo é impulsionar a adoção, utilizando a tecnologia para facilitar o encontro entre crianças e adolescentes que esperam por pais, mães e uma vida em família, e as pessoas que esperam pelos filhos e pelas filhas. Na fase seguinte, a ferramenta vai disponibilizar o ambiente virtual para que os mais de 33 mil pretendentes habilitados no SNA possam realizar a consulta de todas as crianças e adolescentes previamente disponibilizados para busca ativa. 

Criado em 2019, o SNA já registrou mais de 11 mil adoções pelo cadastro. Em 2021, houve recorde no número de adoções concluídas: mais de 3,7 mil. Também houve recorde em reintegrações, tendo mais de 11 mil acolhidos retornado à convivência com seus pais biológicos. Ainda assim, mais de 4 mil acolhidos aguardam ser adotados. Desses, cerca de 2,2 mil não conseguem encontrar pretendentes interessados em sua adoção: 21,4% possuem problemas de saúde; 24,2% com algum tipo de deficiência; e 85% tem acima de 10 anos. 

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