Tânia Djanira Melo Becker é acusada de estrangular e assassinar a própria filha, Andréa Rosa de Lorena, para não perder a guarda do neto Lucas. O crime ocorreu em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba, em fevereiro de 2007, quando o menino tinha apenas 5 anos. A mulher, hoje com 60 anos e presa preventivamente na Cadeia Feminina de Londrina, irá a julgamento nesta quinta-feira (18) no Tribunal do Júri de Campina Grande do Sul (RMC).

O MPPR (Ministério Público do Paraná) a denunciou por homicídio triplamente qualificado por motivo fútil, com emprego de asfixia e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Se condenada, estará sujeita a uma pena de 12 a 30 anos de reclusão. O coautor do crime seria Everson Luís Cilian, 55, companheiro de Tânia na época e padrasto de Andréa, que foi condenado a 21 anos de reclusão em regime fechado em 2024.

O advogado de defesa da idosa, Marcos Pavinato, informou que Tânia “sempre alegou inocência” e considera que não há provas suficientes para condená-la. “Ela nega ter matado e conta outra versão, que vai ser revelada no dia do júri. O processo dela foi muito difícil porque ela ficou muito tempo foragida, que também vai ser esclarecido lá”, adiantou. Na época do crime, ela tinha 42 anos de idade.

O promotor de Justiça Danillo Pinho Nogueira espera que “o Conselho de Sentença reconheça a materialidade e a autoria do gravíssimo e horrível delito praticado, bem como as três qualificadoras que foram imputadas na denúncia, da mesma forma como já foi feito no julgamento anterior do corréu (Everson), que foi julgado em separado no ano passado”.

O julgamento seria realizado no dia 28 de agosto, mas foi adiado a pedido da defesa e remarcado para esta quinta-feira.

'Como se nada tivesse acontecido'

Tânia e Everson haviam cuidado de Lucas por um tempo, após Andréa sofrer um acidente de motocicleta que a impossibilitou de zelar pelo filho. Enquanto se recuperava, Tânia pediu a guarda do menino na Justiça, o que gerou um conflito com a própria filha. Quando foi morta, Andréa tinha 23 anos, era mãe de uma bebê de 9 meses e Lucas tinha cinco anos.

Conforme a denúncia do MP, no dia 12 de fevereiro de 2007, Andréa recebeu a mãe e o padrasto, Everson, para um almoço. Eles teriam agido com dolo (intenção de matar) ao render a mulher e utilizar um fio elétrico para apertar seu pescoço até que ela parasse de respirar.

“Depois que os denunciados verificaram que a vítima estava morta, colocaram o seu corpo embaixo da cama e foram embora, como se nada tivesse acontecido. A vítima sofreu as lesões corporais descritas no laudo de exame de necrópsia (...), que foram a causa de sua morte”, diz trecho da denúncia do Ministério Público.

Juliano Saldanha, marido de Andréa, teria deixado a casa antes dos sogros para ir trabalhar. Quando retornou, foi informado por Tânia que a mulher tinha saído com sua irmã. Dois dias depois, ele descobriu o cadáver da esposa escondido sob a cama do casal.

Leia mais:

Se apresentava como Lourdes

Tânia e Everson fugiram e permaneceram foragidos por muitos anos. O homem se dizia inocente quando foi preso em 2023, em Apucarana (Centro-Norte). Em junho de 2024, foi condenado pelo Tribunal do Júri de Campina Grande do Sul a 21 anos de reclusão em regime fechado pelo homicídio triplamente qualificado da enteada. O Conselho de Sentença do Júri acolheu todas as qualificadoras sustentadas pelo MP em plenário: motivo fútil, meio cruel e meio que impossibilitou a defesa da vítima.

Já Tânia foi encontrada e presa em Marilândia do Sul, região de Apucarana, em maio de 2024, após 17 anos de fuga. O caso ganhou repercussão nacional após o programa Linha Direta, da Rede Globo, relembrar a história em um episódio. Ela foi localizada dois dias depois da exibição, após a PM (Polícia Militar) receber uma denúncia anônima.

Conforme a força de segurança, Tânia se apresentava como “Lourdes” e não resistiu à prisão. Ela foi encaminhada à Cadeia Feminina de Londrina, onde permanece aguardando o julgamento.

'Acreditamos na inocência dela'

Tânia será ouvida pessoalmente no tribunal para apresentar sua versão dos fatos. “Nós (equipe de defesa) acreditamos na inocência dela. Eu olhando nos olhos dela, conversando com ela, eu entendo que tem grandes chances dela estar dizendo a verdade mesmo, ser inocente e vamos lutar para fazer o melhor para ela na quinta-feira”, garantiu Marcos Pavinato.

Nas visitas que fez à sua cliente na cadeia, o advogado diz ter observado que Tânia está com a saúde debilitada. “Parecia outra pessoa, estava muito magra e abatida, dizendo que não estava comendo direito, que não estava bem, passou por várias consultas. Uma aparência muito ruim, muito pálida”.

O advogado reiterou a certeza de que não existem provas maciças e irrefutáveis que sustentem uma condenação, afirmando que foi seguida “uma linha de acusação já pré-condenando ela”. “O fato dela ser uma mulher simples, de, na ocasião (do crime), estar passando por muitos problemas que vão ser revelados ali (no julgamento). Ela sofreu a vida inteira violência de gênero, estupro. Teve uma vida terrível e aconteceu mais tudo isso na vida dela. É um processo difícil, a gente está indo para uma guerra grande ali”, considerou Pavinato.

Em caso de condenação, Tânia estará sujeita a uma pena de 12 a 30 anos de reclusão. Ainda não se sabe se ela cumpriria a pena em Londrina ou em outra cadeia.

(Com MPPR)

mockup