Aconselhamento rápido em serviços de saúde pode frear tabagismo
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, 29 de agosto, Inca pede que profissionais incluam tema no contato com pacientes
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, 29 de agosto, Inca pede que profissionais incluam tema no contato com pacientes
Tâmara Freire - Agência Brasil 

Se todos os profissionais de saúde aproveitassem as consultas com pacientes fumantes para oferecer um breve aconselhamento sobre os perigos do tabaco, o Brasil poderia ter meio milhão de fumantes a menos. A estimativa é do Inca (Instituto Nacional de Câncer) e foi divulgada como alerta para o Dia Nacional de Combate ao Fumo, comemorado nesta sexta, 29 de agosto.
Esse número de 500 mil fumantes representa 2,5% dos cerca de 20 milhões de consumidores de tabaco que o instituto estima existirem no país. Tal redução já levaria a uma economia de R$ 1 bilhão, considerando os custos de todas as condições de saúde provocadas ou agravadas pelo cigarro.
"São números impressionantes para um país que tem tanta limitação de recursos e tantos lugares em que precisa aplicar esses recursos. É uma oportunidade que estava na frente de um profissional de saúde e que se perdeu", lamenta o pesquisador da Divisão de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco do Inca, André Szklo, um dos autores da pesquisa.
Importância da orientação
As estimativas foram feitas com base em dados de pesquisas oficiais sobre a saúde da população brasileira. A última edição da Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada em 2019 pelo IBGE, por exemplo, mostrou que 30,9% dos fumantes atendidos por médico ou dentista não foram perguntados sobre a dependência, e 18,1% foram perguntados mas não receberam nenhuma orientação depois de assumir que fumavam.
Somadas, essas duas proporções representam quase 10 milhões de pessoas. O pesquisador do Inca André Szklo ressalta que a proporção de pessoas que buscaram parar de fumar foi maior entre as pessoas que receberam aconselhamento, em comparação com as que não receberam. Ele lembra que todos os profissionais da área devem atuar em prol da diminuição do tabagismo, que ainda provoca 174 mil mortes por ano e gera R$ 153,5 bilhões em custos no Brasil.
"O INCA, por exemplo, lançou, este ano, uma cartilha, para os agentes comunitários de saúde, que são um elemento importante para oferecer o aconselhamento breve naquela visita de rotina nas residências. O programa Agora Tem Especialistas, que também acaba de ser lançado, tem como especialidades prioritárias ginecologia, ortopedia e oftalmologia, mas esses especialistas também podem aproveitar a consulta para fazer o aconselhamento breve", complementa.
O aconselhamento breve em todas as consultas de rotina (com duração entre 30 segundos e 3 minutos) também é recomendado pela Organização Mundial de Saúde. De acordo com a entidade, evidências científicas apontam que a interação aumenta os níveis de abstinência e também pode estimular os pacientes a procurarem serviços de ajuda para parar de fumar. O Sistema Único de Saúde oferece tratamento multidisciplinar e gratuito para os tabagistas, que pode ser feito nas unidades básicas de saúde.
Agosto Branco
Durante o Agosto Branco, mês de conscientização sobre o câncer de pulmão, médicos e sociedades científicas voltam a acender o alerta sobre a necessidade de fortalecer o PNCT (Programa Nacional de Controle do Tabagismo). A data marca uma oportunidade para ampliar o debate sobre a dependência de nicotina e a importância de oferecer mais opções terapêuticas aos pacientes que desejam parar de fumar.
Segundo a pneumologista Enedina Scuarcialupi, coordenadora da Comissão de Tabagismo da SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia), o tabagismo ainda é uma das principais causas evitáveis de morte no Brasil e no mundo. “Estima-se que 80% das mortes por câncer de pulmão no país estejam associadas ao cigarro, que também contribui significativamente para doenças cardiovasculares e respiratórias crônicas”, afirma a especialista. Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) mostram que mais de 8 milhões de pessoas morrem todos os anos em decorrência do uso do tabaco.
Duas opções farmacológicas
Embora o PNCT seja reconhecido internacionalmente como uma política pública bem-sucedida e ofereça tratamento gratuito por meio da Atenção Primária à Saúde, o acesso continua desigual entre as regiões, e a oferta de recursos terapêuticos ainda é limitada. Atualmente, o paciente encontra basicamente duas opções farmacológicas no Sistema Único de Saúde: os adesivos de nicotina e o cloridrato de bupropiona.
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“A diversidade clínica entre os pacientes exige uma abordagem mais personalizada. Uma das estratégias que merece atenção é a inclusão das gomas de nicotina, que já fazem parte dos protocolos de tratamento em países como Reino Unido, Canadá e Estados Unidos, com alta segurança e eficácia comprovadas”, defende Enedina.
As gomas de nicotina possuem ação rápida e são especialmente úteis nos momentos de maior desejo de fumar, oferecendo alívio imediato. Enquanto o adesivo fornece nicotina de forma contínua, a goma permite uma administração sob demanda, adaptada ao impulso do paciente. Além disso, o ato de mascar a goma colabora com o componente comportamental do tratamento, importante para o sucesso da cessação.
A pneumologista ressalta que a dependência à nicotina deve ser tratada como uma condição crônica e complexa. “A limitação de ferramentas terapêuticas, sobretudo entre os mais vulneráveis, reduz as chances de sucesso e aprofunda as desigualdades em saúde. Precisamos ampliar o acesso a abordagens baseadas em evidências, já disponíveis no mercado brasileiro e aprovadas pela Anvisa, como as gomas de nicotina”, afirma.
A proposta, segundo a especialista, não é substituir os recursos existentes, mas ampliar o leque de possibilidades dentro da política pública atual, respeitando as individualidades clínicas e aumentando as chances de sucesso para mais brasileiros. “Muitos pacientes desejam se livrar do cigarro e dar esse passo em direção à saúde. Cabe ao SUS oferecer todos os meios possíveis para que esse desejo se concretize”, conclui. (Com assessoria de imprensa da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia)





