Tilápia 'invasora' opõe produtores e pesquisadores
Possibilidade de inclusão da espécie em lista de exóticas gera incerteza entre psicultores
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de outubro de 2025
Possibilidade de inclusão da espécie em lista de exóticas gera incerteza entre psicultores

A possibilidade de inclusão da tilápia na lista brasileira de espécies exóticas invasoras pela Conabio (Comissão Nacional de Biodiversidade), acendeu um intenso debate entre entidades produtoras e órgãos que estudam o peixe. Enquanto o setor produtivo teme a retração e o fim da atividade com a nova classificação, biólogos defendem a rotulação e apontam a necessidade de se estabelecer critérios mais rigorosos para a criação.
A tilápia não é uma espécie de peixe nativa do Brasil. Seu habitat natural é o continente africano, especialmente a bacia do Rio Nilo, local de origem da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus), que foi introduzida no país entre as décadas de 1970 e 1980, começou a ser cultivada e hoje é líder absoluta da piscicultura brasileira.
Resistente, adaptável e de fácil reprodução, a espécie permitiu que o Paraná se tornasse o maior produtor do Brasil, respondendo por 37% da produção nacional e por 25% da produção de peixes no geral. A produtividade de 50 mil kg por hectare em cada ciclo produtivo é a maior do mundo para tilápia, superando China e Egito, segundo a PeixeBR (Associação Brasileira de Psicultura).
No mercado internacional, a tilápia também representou 94% das exportações na piscicultura brasileira em 2024, totalizando US$ 55,6 milhões. Um crescimento de 138% em valor e 92% em volume em comparação com 2023, de acordo com dados da associação.
PRESSÃO CONTRÁRIA
O diretor de aquicultura da SRP (Sociedade Rural do Paraná) Ricardo Neukirchner, que também é produtor de tilápia, explica que a espécie foi introduzida no Brasil pelo próprio governo para repovoar reservatórios e gerar alimento em diferentes regiões do país. Segundo ele, o peixe já está adaptado e não representa riscos.
“Ela está totalmente ambientalizada em todos os ambientes. Se encontra tilápia em todos os estados, praticamente. Você tem o alevino [peixes filhotes], você tem o pai, tem a mãe, o avô, bisavô, tataravô. Está todo mundo na água vivendo em paz com todos os peixes do ambiente”, argumenta.
No Paraná, somando-se a área de água de tanques ou viveiros exclusivos para cultivo da espécie, há quase 16 mil hectares de produção de tilápia, sem considerar a produção em tanques flutuantes em que os peixes ficam confinados em represas, por exemplo. No Estado, 25 mil produtores rurais dependem dessa atividade, a grande maioria de pequeno ou médio porte.
Não é a primeira vez que a possibilidade de classificação da tilápia como espécie invasora vem à tona. Neukirchner, que também é conselheiro da PeixeBR, reconhece que, de fato, a espécie é exótica, mas é contrário à ideia de classificá-la como invasora.
“Seria um crime fazer isso. A produção de tilápia hoje gera milhões de empregos, um faturamento gigantesco, movimenta o Estado e tudo mais. Se você deixa a tilápia dentro dessa lista, em teoria você não poderia comercializar produtos desses animais. Então você quebra uma cadeia, uma indústria gigantesca. E é uma discussão que não faz sentido no fundo, porque a tilápia está estabelecida, esse é o ponto”, enfatiza.
A classificação ainda não foi feita de forma definitiva, mas diversas entidades, como o Sistema Faep (composto pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná, pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Paraná e pelos sindicatos rurais), a PeixeBR e a própria SRP, já se posicionaram contra a possibilidade ventilada pelo Conabio, que é um órgão vinculado ao MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima).
“Essa pressão é uma pressão no Brasil inteiro. A expectativa e todas as forças estão sendo feitas para que se derrube isso. A tilápia não pode entrar nessa lista. Uma vez que se coloca isso em um documento, você tem um Ministério Público que vai olhar o documento técnico e não está interessado no que o governo quer. Se cai na mão de pessoas que querem conturbar o ambiente, vira uma confusão”, conclui o diretor de aquicultura da SRP.
CEM PIORES ESPÉCIES
Segundo o biólogo Mário Luís Orsi, do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da UEL (Universidade Estadual de Londrina), a classificação proposta pela Conabio é necessária e tem base científica, uma vez que “decisões políticas não alteram o fato de a espécie não ser nativa”.
“Desde [o ano] 2000 pesquisadores de diversas universidades do Brasil vêm alertando para esse modelo da criação da tilápia como carro-chefe que foi adotado no país. Ela é considerada hoje uma das cem piores espécies invasoras do mundo e isso é fato. Centenas de artigos publicados, não só aqui, como no mundo todo. Essa classificação é internacional”, explica.
Orsi é coordenador do Lepib-UEL (Laboratório de Ecologia de Peixes e Invasões Biológicas da UEL) e há 33 anos pesquisa peixes e outras formas de vida invasoras. Ele destaca três principais impactos negativos da tilápia na natureza: dizimar espécies nativas, comprometer a qualidade da água e hospedar patógenos e parasitas.
O pesquisador rebate um dos principais argumentos do setor produtivo, que é o fato da espécie ter chegado ao Brasil há décadas e já ter se estabelecido aqui, estando adaptada ao ambiente e vice-versa. ”Do ponto de vista biológico, a título de exemplo, o mosquito da dengue está há 400 anos aqui no Brasil e ainda causando impactos gigantescos na saúde pública”, compara.
Para o biólogo, que também já participou da elaboração de pareceres técnicos há alguns anos sobre o tema, o problema não é a criação da tilápia em ambientes controlados, mas o manejo descuidado sem a contenção de escapes, possibilitando o acesso do peixe ao ambiente natural, como lagos, represas, ribeirões e bacias hidrográficas inteiras.
“O benefício econômico é evidente. A gente nunca foi contra isso. O problema é o custo ambiental, porque a hora que junta as duas coisas, o custo ambiental é muito maior que o benefício. E o benefício é para poucos, mas o prejuízo é para todos”, lamenta.
Orsi reconhece que o debate entre pesquisadores e produtores é intenso, mas afirma que a decisão deve ser científica, independentemente de pressões políticas. Para o biólogo, a classificação vai beneficiar a própria aquicultura.
“A gente [pesquisadores] na verdade está ajudando. Porque é uma regulamentação para uma produção sustentável. Ninguém é contra a tilápia. Acho que tem mais é que criar. Por que o suíno e a ave são um sucesso [de produção]? Porque eles são tecnificados. Eles trabalham em cima de normatizações sanitárias e ambientais”, pondera.
FIM DA ATIVIDADE
Entidades e produtores temem que a nova classificação da tilápia como espécie invasora determine o fim da produção do peixe no país. Tal argumento ganhou repercussão nacional, motivando uma manifestação oficial do MMA, segundo o qual não há possibilidade de interromper a atividade.
Em nota, o MMA informa que “é importante destacar que a inclusão de uma espécie na lista tem caráter técnico e preventivo, não implicando banimento, proibição de uso ou cultivo. O reconhecimento de espécies exóticas com potencial de impacto sobre a biodiversidade nativa serve como referência técnica para políticas públicas e ações de prevenção e controle”.
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Segundo a pasta, a avaliação é conduzida de forma colegiada por todos os membros da comissão, que reúne representantes de diversos setores do governo e da sociedade. A proposta deve passar por discussão e, eventualmente, aprovação na próxima reunião da Conabio, no dia 8 de novembro.


Fernando Buchhorn Jr.
Repórter com atuação em Cidades e meio ambiente.




