Importação recorde agrava situação da triticultura paranaense
Combinação de fatores está desanimando os produtores paranaenses e Estado fica cada vez mais distante da liderança nacional
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 2025
Combinação de fatores está desanimando os produtores paranaenses e Estado fica cada vez mais distante da liderança nacional
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

Os números do boletim do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado e do Abastecimento não mentem.
A saca de 60 quilos de trigo no Paraná está cotada em R$ 65, com viés de baixa. O valor é 14% menor em comparação com outubro de 2024. Enquanto isso, os custos variáveis por saca estão estimados em cerca de R$75.
Com praticamente dois terços da safra já colhida no Estado, o clima é de desânimo para aqueles que insistiram na cultura mesmo com as perspectivas negativas que já dominavam o setor no período do plantio.
Quem comercializou a produção no pico da remuneração, em maio, com a saca valendo R$ 79, escapou do prejuízo, mas de modo geral, a redução de 25% da área plantada neste inverno em comparação com o ano passado mostra que a percepção dos triticultores no primeiro semestre estava correta. “É um ano ruim, com certeza. Na melhor das hipóteses, a margem está muito pequena”, avalia o agrônomo Carlos Hugo Godinho, analista do Deral.
Mesmo com esta conjuntura adversa na rentabilidade, o Paraná despejou no mercado 1 milhão de toneladas do grão em setembro, volume semelhante ao que será entregue em outubro.
As condições climáticas ajudaram e a produtividade alcançou 3,2 toneladas por hectare contra as 2,1 toneladas do ano passado, compensando o forte encolhimento da área plantada - baixa de 282 mil hectares (o equivalente a cinco vezes o município de Apucarana) em relação a 2024. A estimativa é que a safra alcance 2,7 milhões de toneladas, 15% maior que a do ano passado.
Em novembro, quando a colheita paranaense praticamente se encerra, a situação de excedente deve piorar, com as safras gaúcha e argentina atingindo seus ápices, liquidando qualquer chance de recuperação na cotação, de acordo com os especialistas.
PERDA DA LIDERANÇA
No Rio Grande do Sul, a previsão é que a safra alcance 3,7 milhões, consolidando o Estado como líder nacional, retirando do Paraná um status conquistado no fim dos anos 1970, quando a cultura também passou a fazer parte da paisagem agrícola do Norte do Estado - em 1980, a área plantada atingiu 1,4 milhão de hectares.
Em média, nos últimos dois triênios, entre 2020-2025, a produção gaúcha foi superior à paranaense e os analistas acreditam que este será o “novo normal” no mapa do trigo brasileiro.
A silenciosa crise da triticultura do Estado se traduz também em dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Entre janeiro e setembro, o Brasil importou 5,249 milhões de toneladas do grão, o maior volume para o período desde 2007. Dados dos embarques de setembro mostram que 87,3% do produto importado advém da Argentina e que o valor médio da tonelada é o mais baixo desde novembro de 2020.
Alcir Chiari, gerente de comercialização da Integrada Cooperativa Agroindustrial, observa que um outro fator está tirando o protagonismo do plantio do trigo no inverno paranaense: a ascensão da cevada, cultura que em 2025 teve a maior área plantada da história no Estado, com mais de 100 mil hectares. “O produtor foi buscar alternativas mais cômodas, normalmente o milho safrinha. Mas também está havendo um certo movimento para o plantio da cevada em algumas regiões tradicionais de trigo como as terras altas de Mauá da Serra. Isso está ocorrendo por conta de um investimento muito grande de cooperativas da região de Ponta Grossa voltadas à maltaria”, explica o especialista. As projeções em setembro estimavam que a safra de cevada seria 43% maior em comparação ao ano passado, alcançando cerca de 450 mil toneladas.
O APOGEU DA CEVADA
Além das importações recordes, do milho safrinha e da cevada, a mudança de perfil da produção gaúcha é parte importante para entender o momento delicado do ex-líder nacional.
“O trigo do Paraná sempre foi avaliado melhor que o do Rio Grande do Sul. Um grão para pão, ou do tipo melhorador, que é usado em pães de forma misturado com o trigo brando, que tradicionalmente era fornecido pela produção gaúcha”, conta Alcir Chiari. “Mas o Rio Grande do Sul passou a plantar variedades melhores, que também atendem o mercado moageiro. E como os solos gaúchos precisam de menos fertilizantes, um fator crucial no custo de produção, os preços ficaram mais atraentes para a demanda do mercado interno, inclusive para os moinhos do Paraná. Acredito que esta situação deve persistir nos próximos anos.”
Na indústria moageira, o Estado permanece como líder, com 30% da produção nacional, com 60 plantas industriais. A metade da produção paranaense é destinada a outros estados. O Paraná consome 4 milhões de toneladas, com estimativa de déficit de 1,4 milhão de toneladas em 2025.
SILOS GARANTIRIAM RENTABILIDADE
A FOLHA conversou com a líder do Moinho Globo, de Sertanópolis, um gigante capaz de processar mil toneladas de grãos por dia. Na análise de Paloma Venturelli, o fornecimento de trigo na região Norte do Estado está cada vez mais frágil, especialmente nos últimos três anos. “As safras têm sido aquém do esperado por fatores climáticos, o que impacta financeiramente os produtores. Por outro lado, a gente percebe que outras culturas mais rentáveis como cevada e aveia têm contratos com preços mínimos garantidos. Há também uma grande demanda pelo milho segunda safra. Estas culturas por estes motivos estão ocupando as áreas tradicionais de trigo”, avalia a CEO. “São culturas mais baratas no manejo, opções mais seguras diante da fragilidade do trigo em relação ao clima. Obviamente, a rentabilidade do trigo poderia ser melhor se houvesse mais espaço de armazenagem”, avalia.
Paloma diz que o setor moageiro está muito preocupado com a situação da triticultura na região e no Estado. “Muitos países tratam o trigo como uma cultura estratégica da segurança alimentar. Então existem políticas como preço mínimo, prêmio, seguro que poderiam garantir a autossuficiência nacional, mas a realidade é oposta”, lamenta. Para a indústria, conta Paloma, a operação com matéria-prima importada não é vantajosa. A executiva lembra que, além das questões tributárias, a compra de trigo estrangeiro acrescenta custos adicionais como o desembaraço portuário e o frete e também causa instabilidade porque é impactada pelas variações cambiais. “Contudo, restringir a importação não é um caminho porque temos um grande déficit e, sem importação, haverá desabastecimento no mercado”.
CLAMOR POR POLÍTICA AGRÍCOLA
Produtores de trigo como Antonio Sampaio, ex-presidente da Sociedade Rural, criticam o comportamento do setor moageiro. Para ele, a falta de uma política agrícola para a cultura abre espaço para ações orquestradas dos moinhos, que fazem a importação no período da safra e derrubam os preços. “Quando a indústria vai comprar, o preço cai. Quando a safra é boa, eles antecipam a importação e se abastecem. O produtor, pressionado pelas contas a pagar, acaba entregando barato. Isso é muito antigo. Falta uma política agrícola que regule estas importações. Permitir a compra do produto estrangeiro antes da safra é um absurdo, um crime contra os produtores”, afirma. “Eles não estão errados, estão trabalhando pelos interesses das suas empresas e do seu capital. E também porque os produtores são desorganizados, não se mobilizam para evitar este absurdo”.
Ele conta que sua margem “é pífia”. Na lavoura da sua fazenda em Arapongas, o trigo ocupou nesta safra apenas um terço da área, o resto foi ocupado por cobertura. “Eu planto trigo por tradição. É uma lavoura de alto risco. Não são poucas as safras nas quais você perde tudo, ou por falta de chuva ou por geada. Se chover nos dias da colheita, o grão estraga”, descreve. “É um investimento alto. O adubo subiu, os defensivos subiram, o óleo diesel subiu. Como você acha que se sente um produtor que já teve problemas de produtividade por causa da geada e que no ano passado vendeu a saca a R$ 80, R$ 90 e este ano vai vender com preço 30% menor?”, questiona.
EQUIPAMENTOS E ‘PALHADA’
“Outro aspecto importante é que a opção pelo milho tem muito a ver com a condução da lavoura, que é menos trabalhosa. Quem continua plantando trigo é aquele produtor que tem um maquinário mais simples, que tem aquelas semeadeiras antigas, que não quer fazer um investimento maior. Aquele que tem equipamento mais moderno tende a optar pelo milho”, pondera Chiari.
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Outro aspecto importante que dá uma certa resiliência à cultura, de acordo com Godinho, são os ganhos indiretos do plantio. Naturalmente, o trigo suprime ervas daninhas, preparando um campo mais “limpo” para a temporada de verão, além da palhada que enriquece o solo com matéria orgânica. “Normalmente, a produtividade da soja após o trigo é melhor do que a de outras culturas”, afirma o agrônomo do Deral.
‘PATINHO FEIO’ DA TECNOLOGIA AGRÍCOLA
Valdemir Calzavara, líder da Resultagro Broker e Consultoria, ressalta que a cultura se ressente de um baixo investimento em tecnologia e melhoramento genético, o que concorre para uma rentabilidade menor para o produtor. Ele lembra que os resultados atuais da triticultura paranaense alcançam apenas 65% do potencial agronômico. “Enquanto soja e milho receberam, nas últimas décadas, massivos aportes em pesquisa, desenvolvimento e programas de biotecnologia, o trigo ficou à margem desse avanço. Para reduzir custos e tentar viabilizar a cultura, muitos produtores de trigo precisam "salvar sementes" (produzir e guardar a própria semente) de cultivares antigas, com menor potencial de rendimento e baixa tolerância a doenças e oscilações climáticas”, analisa Calzavara, advertindo ainda que o ganho de produtividade é um fator importante para elevar a rentabilidade num cenário persistente de custos elevados de produção.




