Em meio a um cenário internacional marcado por tarifas, salvaguardas e novas exigências ambientais, sanitárias e fitossanitárias, a rastreabilidade ganha importância estratégica para o agronegócio brasileiro. O rastreamento se mostra como uma ferramenta para conquistar mercados e agregar valor.

A avaliação foi apresentada durante painel sobre rastreabilidade, no Fórum do Agronegócio 2026, promovido pela Sociedade Rural do Paraná, no dia 3 de setembro, em Londrina, com a participação de Airton Galinari, presidente da Coamo; Mariana Inocente, gerente comercial de exportação do Ramax Group; e Carlos Abud, gerente nacional de originação de grãos da Olam Agri.

Para Galinari, a rastreabilidade deve ser entendida como a identidade do produto. “Cada vez mais a identidade do produto tem valor. Cresce cada vez mais”, afirmou. Segundo ele, produtores e empresas podem optar por vender uma commodity sem identificação, normalmente destinada a mercados menos remunerados, ou investir em rastreabilidade para acessar compradores dispostos a pagar por atributos adicionais.

O problema é que comprovar essa identidade tem custo. Há despesas com logística, instalações, tecnologia da informação, certificação e controle de toda a cadeia. Por isso, os participantes defenderam que o mercado remunere o diferencial.

Na pecuária, o desafio é ainda maior devido à fragmentação da cadeia. Um bovino pode nascer em uma propriedade, ser recriado em outra, passar por uma terceira fazenda e somente depois chegar ao confinamento e ao frigorífico.

Mariana Inocente disse que o Brasil começou a estruturar a rastreabilidade bovina no início dos anos 2000, com o Sisbov (Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos), inicialmente direcionado aos produtores interessados em exportar para a Europa, pois os países europeus exigiam a adesão ao programa.

O país agora trabalha para ampliar a identificação individual do rebanho por meio do Programa Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), com horizonte até 2032. Inocente afirma que a dificuldade está justamente em integrar as diferentes etapas da cadeia. “A cadeia pecuária é muito fragmentada. Ela começa numa fazenda de cria, depois vai para uma de recria e depois para a engorda.”

A dimensão do rebanho brasileiro também representa um desafio. “Hoje o Brasil tem, em média, 200 milhões de cabeças. Quando falamos de países que têm essa rastreabilidade de ponta a ponta, estamos falando de um Uruguai que tem 11 milhões de cabeças e de uma Austrália com cerca de 40 milhões”, disse Inocente.

Para ela, a implantação de um sistema nacional poderá mudar esse cenário, mas o produtor precisará de apoio financeiro. “Às nossas autoridades políticas, eu peço que consigam subsidiar o produtor, porque custa para você rastrear. E o produtor hoje vive com margens extremamente espremidas”, argumentou.

Grãos já avançam na rastreabilidade

Na cadeia de grãos, a rastreabilidade já é utilizada por empresas e cooperativas para atender mercados específicos. Carlos Abud afirmou que as exigências internacionais tendem a crescer, mas lembrou que boa parte dos controles exigidos já é praticada no Brasil. “A questão da rastreabilidade não tem volta. O mundo está em transformação, as pessoas exigem mais”, afirmou Abud.

Ele citou as exigências relacionadas ao desmatamento e à origem da soja. Na compra dos grãos são verificadas as informações do CAR (Cadastro Ambiental Rural), registros ambientais e eventuais denúncias relacionadas a trabalho escravo. Para Abud, o Brasil precisa melhorar a comunicação sobre o que já faz. “Eu acho que falta a gente sentar na mesa e falar: ‘Tudo o que vocês querem, a gente já faz’”, comentou.

Ele também considera que as exigências precisam vir acompanhadas de remuneração. A experiência da soja convencional, segundo ele, mostra o risco de criar um sistema caro sem manter o prêmio ao produtor. “A Europa, no começo dos anos 2000, pagava muito bem pela soja convencional, não transgênica. Chegamos a ver de 50 a 60 dólares por tonelada de prêmio. Parando de pagar por isso, acabou a soja convencional”, recordou.

Abud avalia que a mesma lógica vale para a rastreabilidade. “Se o mercado quer a rastreabilidade, ele vai ter que remunerar, porque custa caro”, disse.

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O presidente da Coamo, Airton Galinari, explicou que a cooperativa já tem uma cadeia estruturada para atender os clientes internacionais. A cooperativa mantém há mais de 20 anos programas voltados a mercados europeus, com informações sobre a origem da soja utilizada na produção de farelo. “Quando vai um navio nosso para a Europa, vai um link desse navio junto com o link da carga. O nosso cliente acessa esse link e tem a relação de todos os produtores que produziram a soja que foi usada para produzir o farelo daquele navio”, relatou.

O sistema permite consultar informações das propriedades, imagens de satélite e certificações relacionadas a aspectos ambientais e trabalhistas. “Uma empresa certificadora internacional garante que ali não houve desmatamento, não houve sobreposição de área indígena e quilombola, não houve trabalho infantil, não houve trabalho escravo. Tudo isso a gente consegue comprovar”, afirmou Galinari.

Tecnologia aproxima produtor e comprador

Na pecuária, a tecnologia também começa a aproximar o comprador estrangeiro da origem do animal. Mariana Inocente contou que o Ramax utiliza brincos com tecnologia blockchain em seu confinamento em Juara (MT), com capacidade para 50 mil cabeças. “Temos um sistema de brinco em blockchain que é inviolável. Então, o chinês, do celular dele, consegue acompanhar o boi que ele comprou aqui no Brasil”, disse.

A empresa, porém, ainda não consegue controlar toda a trajetória anterior do animal. “Hoje conseguimos garantir a rastreabilidade do confinamento em diante para a exportação até o final. Mas só conseguimos rastrear a partir do confinamento justamente porque ainda não existe esse programa que integra toda a cadeia de rastreabilidade”, explicou a gerente comercial.

Para Inocente, o país tem tecnologia e capacidade para cumprir as novas exigências, mas precisa transformar isso em estratégia comercial. “Eu acho que o Brasil está no caminho certo para se tornar 100% rastreável e sustentável. Mas nós precisamos de políticas públicas que valorizem o produtor que adota a sustentabilidade e a rastreabilidade.”

Ela também defendeu uma atuação mais efetiva do governo na comunicação internacional, com o Ministério da Agricultura vendendo melhor a imagem do Brasil.

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