No mercado de trabalho do agronegócio, recorde de pessoas empregadas convive com sensação de falta de mão de obra
Enquanto boletim trimestral aponta 28,4 milhões de trabalhadores ligados ao setor, o maior contingente de todos os tempos, estudo que ouviu empregadores aponta que a escassez de mão de obra é a principal preocupação da atividade
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sábado, 24 de outubro de 2026
Enquanto boletim trimestral aponta 28,4 milhões de trabalhadores ligados ao setor, o maior contingente de todos os tempos, estudo que ouviu empregadores aponta que a escassez de mão de obra é a principal preocupação da atividade
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

O produtor rural e engenheiro agrônomo Fernando Gebara, 65 anos, arrenda 2,5 mil hectares de lavouras de soja, milho e trigo nos municípios de Ventania, Nova Fátima e Cornélio Procópio - município onde reside e também tem uma empresa de produtos veterinários. Filho de um vendedor de adubos, Gebara observa há 30 anos o mercado de trabalho no agronegócio e pode falar com alguma autoridade sobre dois fenômenos que marcam este primeiro terço do século XXI na agricultura brasileira.

Enquanto da porteira para fora, o agronegócio se consolida como um grande empregador, com destaque para ocupações de nível superior e com salários ascendentes, da porteira para dentro, a realidade é outra, com evasão de jovens, dificuldade na sucessão familiar e falta de mão de obra qualificada para lidar com a tecnologia que avança rapidamente nas lavouras.

Conforme os dados do boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro, elaborado em conjunto pelo Cepea/Esalq/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) e pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), o número de pessoas ocupadas no agronegócio alcançou o recorde histórico de 28,4 milhões no segundo trimestre de 2026. O contingente representa um avanço de 0,7% em relação ao mesmo período de 2025 e equivale a 26% do total de trabalhadores ocupados no Brasil.
O crescimento interanual do emprego no agronegócio foi sustentado prioritariamente pelo segmento primário (dentro da porteira), que registrou alta de 2,7%, adicionando 210,2 mil pessoas ao setor (totalizando 7,92 milhões), impulsionado pelas safras de café (+19,1%), soja (+13,8%) e produção florestal (+15,3%).
Os agrosserviços também cresceram (+1,1%, ou 113,5 mil trabalhadores). O boletim destaca ainda que a população ocupada no agro com ensino superior cresceu 5,4% no comparativo interanual (+254,5 mil pessoas), ao passo que os trabalhadores sem instrução recuaram 3,3%. A participação feminina também avançou, atingindo 38,2% do total do contingente (com alta de 0,7% no ano, somando 10,84 milhões de mulheres). O rendimento médio no setor subiu para R$2.972 (alta real de 3,7% ante o mesmo período de 2025). No total, a massa salarial do agro alcançou quase R$72 bilhões.
Mas esta aparente bonança no mercado de trabalho do setor está em descompasso com a visão dos empregadores. Em agosto, um estudo realizado também pela parceria do Cepea com a CNA, intitulado “Mercado de Trabalho na Agropecuária: Evidências sobre Escassez de Mão de Obra e Produtividade”, revelou que 44,5% dos produtores rurais consideram que a escassez de mão de obra é o desafio “número 1” da atividade. De acordo com o levantamento, os desdobramentos da falta de trabalhadores incluem migração para atividades com menor demanda de trabalhadores, atrasos nas operações de campo, planos de expansão engavetados e investimentos forçados em mecanização.
Uma diferença crucial

A pesquisadora e coordenadora técnica do Cepea, Nicole Rennó de Castro, doutora em Economia Aplicada pela Esalq/USP, não entende as duas situações como um paradoxo. “O recorde de ocupações não é atribuído ao emprego dentro da porteira. O que tem crescido, na verdade, é a geração de empregos fora da porteira”, esclarece. “O agronegócio engloba agroindústrias e agrosserviços, indo muito além do trabalho de campo. À medida que um país se desenvolve, é natural que a agropecuária reduza seu contingente de trabalhadores dentro da porteira. No entanto, mesmo com menos pessoas no campo, a produção agropecuária continua batendo recordes de produtividade ano a ano”, prossegue. “Essa alta produção estimula o sistema agroalimentar fora das fazendas. Por isso, o recorde de ocupações no agronegócio é impulsionado pelos empregos gerados fora da porteira, especialmente na grande rede de agrosserviços como transporte, comércio, armazenagem, consultorias, serviços bancários e jurídicos, e não pelo emprego direto no campo, que segue em tendência de redução.”
Gebara ilustra com sua experiência como produtor as dificuldades que as fazendas enfrentam. Para ele, o maior obstáculo não é apenas encontrar trabalhadores para a lida. “Da porteira para fora, tem gente com formação ruim, mas tem. O problema é dentro da fazenda. O maquinário de hoje tem muita tecnologia embarcada e falta formação técnica. A gente pensa em treinar quem tem experiência e quer ficar no campo. Mas vai treinar onde? Não tem faculdade para isso, nem curso técnico. O painel de um trator é cheio de comando e quem dirige mal sabe escrever. Não é possível preparar alguém de 30, 40 anos para isso”, relata.
“Não é fácil apontar caminhos nesta questão de tornar o meio rural mais atrativo para os trabalhadores. Não é uma questão puramente setorial do agro, mas sim um desafio estrutural de âmbito nacional para o qual ainda não existe uma solução única ou simples. O que podemos dizer é que a agropecuária não voltará a contar com a abundância de mão de obra barata”, afirma a coordenadora do Cepea.
Criar a própria perspectiva
O economista e professor da UniCesumar, Luiz Paloschi, lembra que para resolver um problema, cria-se outro. “Sem conseguir braços para a operação, a mecanização ganha impulso, o que exige profissionais mais qualificados. Há uma necessidade de articulação maior entre o setor produtivo, as instituições de ensino e o setor público para traçar estratégias que melhorem as condições de trabalho e de qualidade de vida no meio rural. O jovem que nasceu e cresceu no campo sai para estudar numa cidade maior e, muitas vezes, sem perspectivas, não quer retornar. É preciso mostrar para esses jovens que ele pode levar conhecimento técnico e qualificado para a propriedade e criar esta perspectiva”, opina.

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“Sindicatos e sociedades rurais deveriam investir pesado em centros de treinamentos regionais com infraestrutura completa, com escolas de formação rural e alojamento para evitar o inconveniente de deslocamentos diários”, sugere Gebara. O produtor e agrônomo também acredita que os fazendeiros deveriam mudar até o padrão das habitações destinadas aos funcionários para tornar a fixação mais atraente. “Casa com suíte, ar-condicionado, internet. É preciso mudar a mentalidade, oferecer participação nos lucros, por exemplo”, defende.
Tecnologia e desperdício
A professora Rennó de Castro concorda que as propriedades devem continuar melhorando o pacote de benefícios. “Melhoria no ambiente de trabalho e um plano de carreira aumentam o interesse dos trabalhadores, apesar de aumentar os custos de um setor já descapitalizado”, lembrou. Em relação à mecanização e à automação, ela pondera que a falta de mão de obra qualificada para operar máquinas modernas tem provocado a subutilização destes recursos e desperdício de investimentos.
Entre 2021 e 2025, os salários na agropecuária registraram um aumento real de 35,2%, enquanto o conjunto da economia brasileira teve um crescimento salarial de 24,8%. No Sul, a diferença foi quase o dobro, crescimento no agro de 58% contra 31% nos outros setores. Mas para o professor Luiz Paloschi, o constante aumento da produtividade por hora trabalhada (houve um salto de 515% entre 1995 e 2024) absorve esta alta e não ameaça a competitividade brasileira no mercado internacional. Ele lembrou que ainda existe uma defasagem salarial em comparação com outros setores. Os dados do Cepea indicam que o rendimento mensal do empregado no agro equivale a cerca de 90% da média nacional.


