O produtor rural e engenheiro agrônomo Fernando Gebara, 65 anos, arrenda 2,5 mil hectares de lavouras de soja, milho e trigo nos municípios de Ventania, Nova Fátima e Cornélio Procópio - município onde reside e também tem uma empresa de produtos veterinários. Filho de um vendedor de adubos, Gebara observa há 30 anos o mercado de trabalho no agronegócio e pode falar com alguma autoridade sobre dois fenômenos que marcam este primeiro terço do século XXI na agricultura brasileira.

Imagem ilustrativa da imagem No mercado de trabalho do agronegócio, recorde de pessoas empregadas convive com sensação de falta de mão de obra
| Foto: Elpidio Costa Junior/getty images

Enquanto da porteira para fora, o agronegócio se consolida como um grande empregador, com destaque para ocupações de nível superior e com salários ascendentes, da porteira para dentro, a realidade é outra, com evasão de jovens, dificuldade na sucessão familiar e falta de mão de obra qualificada para lidar com a tecnologia que avança rapidamente nas lavouras.

Imagem ilustrativa da imagem No mercado de trabalho do agronegócio, recorde de pessoas empregadas convive com sensação de falta de mão de obra
| Foto: Arquivo Pessoal

Conforme os dados do boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro, elaborado em conjunto pelo Cepea/Esalq/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) e pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), o número de pessoas ocupadas no agronegócio alcançou o recorde histórico de 28,4 milhões no segundo trimestre de 2026. O contingente representa um avanço de 0,7% em relação ao mesmo período de 2025 e equivale a 26% do total de trabalhadores ocupados no Brasil.

O crescimento interanual do emprego no agronegócio foi sustentado prioritariamente pelo segmento primário (dentro da porteira), que registrou alta de 2,7%, adicionando 210,2 mil pessoas ao setor (totalizando 7,92 milhões), impulsionado pelas safras de café (+19,1%), soja (+13,8%) e produção florestal (+15,3%).

Os agrosserviços também cresceram (+1,1%, ou 113,5 mil trabalhadores). O boletim destaca ainda que a população ocupada no agro com ensino superior cresceu 5,4% no comparativo interanual (+254,5 mil pessoas), ao passo que os trabalhadores sem instrução recuaram 3,3%. A participação feminina também avançou, atingindo 38,2% do total do contingente (com alta de 0,7% no ano, somando 10,84 milhões de mulheres). O rendimento médio no setor subiu para R$2.972 (alta real de 3,7% ante o mesmo período de 2025). No total, a massa salarial do agro alcançou quase R$72 bilhões.

Mas esta aparente bonança no mercado de trabalho do setor está em descompasso com a visão dos empregadores. Em agosto, um estudo realizado também pela parceria do Cepea com a CNA, intitulado “Mercado de Trabalho na Agropecuária: Evidências sobre Escassez de Mão de Obra e Produtividade”, revelou que 44,5% dos produtores rurais consideram que a escassez de mão de obra é o desafio “número 1” da atividade. De acordo com o levantamento, os desdobramentos da falta de trabalhadores incluem migração para atividades com menor demanda de trabalhadores, atrasos nas operações de campo, planos de expansão engavetados e investimentos forçados em mecanização.

Uma diferença crucial

“O recorde de ocupações não é atribuído ao emprego dentro da porteira. O que tem crescido, na verdade, é a geração de empregos fora da porteira”, esclarece Nicole Castro
“O recorde de ocupações não é atribuído ao emprego dentro da porteira. O que tem crescido, na verdade, é a geração de empregos fora da porteira”, esclarece Nicole Castro | Foto: Arquivo Pessoal

A pesquisadora e coordenadora técnica do Cepea, Nicole Rennó de Castro, doutora em Economia Aplicada pela Esalq/USP, não entende as duas situações como um paradoxo. “O recorde de ocupações não é atribuído ao emprego dentro da porteira. O que tem crescido, na verdade, é a geração de empregos fora da porteira”, esclarece. “O agronegócio engloba agroindústrias e agrosserviços, indo muito além do trabalho de campo. À medida que um país se desenvolve, é natural que a agropecuária reduza seu contingente de trabalhadores dentro da porteira. No entanto, mesmo com menos pessoas no campo, a produção agropecuária continua batendo recordes de produtividade ano a ano”, prossegue. “Essa alta produção estimula o sistema agroalimentar fora das fazendas. Por isso, o recorde de ocupações no agronegócio é impulsionado pelos empregos gerados fora da porteira, especialmente na grande rede de agrosserviços como transporte, comércio, armazenagem, consultorias, serviços bancários e jurídicos, e não pelo emprego direto no campo, que segue em tendência de redução.”

Gebara ilustra com sua experiência como produtor as dificuldades que as fazendas enfrentam. Para ele, o maior obstáculo não é apenas encontrar trabalhadores para a lida. “Da porteira para fora, tem gente com formação ruim, mas tem. O problema é dentro da fazenda. O maquinário de hoje tem muita tecnologia embarcada e falta formação técnica. A gente pensa em treinar quem tem experiência e quer ficar no campo. Mas vai treinar onde? Não tem faculdade para isso, nem curso técnico. O painel de um trator é cheio de comando e quem dirige mal sabe escrever. Não é possível preparar alguém de 30, 40 anos para isso”, relata.

“Não é fácil apontar caminhos nesta questão de tornar o meio rural mais atrativo para os trabalhadores. Não é uma questão puramente setorial do agro, mas sim um desafio estrutural de âmbito nacional para o qual ainda não existe uma solução única ou simples. O que podemos dizer é que a agropecuária não voltará a contar com a abundância de mão de obra barata”, afirma a coordenadora do Cepea.

Criar a própria perspectiva

O economista e professor da UniCesumar, Luiz Paloschi, lembra que para resolver um problema, cria-se outro. “Sem conseguir braços para a operação, a mecanização ganha impulso, o que exige profissionais mais qualificados. Há uma necessidade de articulação maior entre o setor produtivo, as instituições de ensino e o setor público para traçar estratégias que melhorem as condições de trabalho e de qualidade de vida no meio rural. O jovem que nasceu e cresceu no campo sai para estudar numa cidade maior e, muitas vezes, sem perspectivas, não quer retornar. É preciso mostrar para esses jovens que ele pode levar conhecimento técnico e qualificado para a propriedade e criar esta perspectiva”, opina.

O economista e professor da UniCesumar, Luiz Paloschi, diz que, “sem conseguir braços para a operação, a mecanização ganha impulso, o que exige profissionais mais qualificados”
O economista e professor da UniCesumar, Luiz Paloschi, diz que, “sem conseguir braços para a operação, a mecanização ganha impulso, o que exige profissionais mais qualificados” | Foto: Arquivo Pessoal

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“Sindicatos e sociedades rurais deveriam investir pesado em centros de treinamentos regionais com infraestrutura completa, com escolas de formação rural e alojamento para evitar o inconveniente de deslocamentos diários”, sugere Gebara. O produtor e agrônomo também acredita que os fazendeiros deveriam mudar até o padrão das habitações destinadas aos funcionários para tornar a fixação mais atraente. “Casa com suíte, ar-condicionado, internet. É preciso mudar a mentalidade, oferecer participação nos lucros, por exemplo”, defende.

Tecnologia e desperdício

A professora Rennó de Castro concorda que as propriedades devem continuar melhorando o pacote de benefícios. “Melhoria no ambiente de trabalho e um plano de carreira aumentam o interesse dos trabalhadores, apesar de aumentar os custos de um setor já descapitalizado”, lembrou. Em relação à mecanização e à automação, ela pondera que a falta de mão de obra qualificada para operar máquinas modernas tem provocado a subutilização destes recursos e desperdício de investimentos.

Entre 2021 e 2025, os salários na agropecuária registraram um aumento real de 35,2%, enquanto o conjunto da economia brasileira teve um crescimento salarial de 24,8%. No Sul, a diferença foi quase o dobro, crescimento no agro de 58% contra 31% nos outros setores. Mas para o professor Luiz Paloschi, o constante aumento da produtividade por hora trabalhada (houve um salto de 515% entre 1995 e 2024) absorve esta alta e não ameaça a competitividade brasileira no mercado internacional. Ele lembrou que ainda existe uma defasagem salarial em comparação com outros setores. Os dados do Cepea indicam que o rendimento mensal do empregado no agro equivale a cerca de 90% da média nacional.

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