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DEDO DE PROSA 5m de leitura Atualizado em 15/01/2022, 09:06

Meu amigo foi embora

A dor de perder uma batalha, após uma luta tão dolorida contra um inimigo tão ínfimo, invisível, de consequências tão rápidas e devastadoras

PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de janeiro de 2022

Estela Maria Frederico Ferreira
AUTOR autor do artigo

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Imagem ilustrativa da imagem Meu amigo foi embora
|  Foto: Marco Jacobsen
 

Muitos amigos e amigas, nestes últimos tempos, foram embora. Mas vou falar deles no singular porque cada um é único; é um pai, é uma mãe, é um filho ou uma filha de alguém. É o meu e o seu irmão, é a nossa irmã. Cada um é um avô ou uma avó carinhosos, cada amigo ou amiga que partiu pode ser também o amor da vida de alguém que ficou solitário e triste.

Nunca me referi à morte como um fim, e sim, como uma nova vida, mas a morte do meu amigo me deixou tão triste e com vontade de chorar muito, para lavar minha alma e extravasar minha dor. A dor de perder um ente querido. A dor de perder uma batalha, após uma luta tão dolorida contra um inimigo tão ínfimo, invisível, de consequências tão rápidas e devastadoras.

Ninguém quer a morte de um amigo porque ela traz dor em toda e qualquer circunstância. Até Jesus chorou pela morte do seu amigo Lázaro, mesmo sendo Deus partícipe da Criação e ciente da Ressurreição. Porque Ele quer que todos tenham vida e a tenham em plenitude. Reconheço que a morte tem seu momento de luto e momento de conformismo . Podemos nos conformar quando acontece um acidente, por irresponsabilidade de alguém ou por uma dessas fatalidades ... ou ainda por uma doença que, no fundo, sabemos que pode levar à morte.

A ida do meu amigo, porém, foi diferente! Ficamos ali, impotentes, na expectativa de sua volta, olhando com olhos de esperança mas de profundo medo, terror até! E ele foi caminhando, acenando para seus afetos, sentindo que talvez não retornasse mais para sua casa. Meu amigo velho já não poderá ver seus netos queridos crescerem; meu velho amigo tinha projetos para a família e para seu trabalho comunitário, também não poderá fazê-lo.

Pensava fazer um curso de música...Não deu tempo. Assim como não deu tempo de realizar tantas e tantas coisinhas bobas e boas , a “vida nossa de cada dia”. Minha amiga pretendia viajar e conhecer coisas novas mas a porta da aventura se fechou para sempre. Meu tio amigo que gostava de reunir a família não fará mais parte das fotos engraçadas. Meu amigo era um sujeito comum, como milhares de outros, não tinha nenhuma importância midiática, mas pensa num cara gente boa! Sincero, autêntico, crítico, tinha que saber ouvi-lo...Bondoso, alegre, simpático, sorridente, elegante, otimista e bravo, se preciso fosse. Mas a gente, entre amigos e familiares, para não perder o camarada, falava assim: é o jeito dele!

Só sei dizer, do fundo do coração, meu amigo era um cara muito, muito bom! Acredito que amizade é afinidade e entre amigos a gente tem isso de sobra, tanto nas palavras como nas atitudes. Depois que meu amigo foi embora comecei a pensar no valor das pequenas coisas como receber uma mensagem da Boa Nova todas as manhãs e essas manhãs serem mais iluminadas ...ou ao se cumprimentar no mercado do bairro com um “tudo bem?” receber um “agora melhor” com um sorriso aberto.

Acredito que todos nós amadurecemos com o passar do tempo mas o tempo que passamos recentemente nos tornou muito mais sensíveis, com mais empatia pelas pessoas, mais compaixão com a dor do outro e tivemos, tantas vezes, que consolar nosso próprio coração.

Todos, acredito que sem exceção, tivemos perdas. E perdas de vidas, que não têm preço, nem substituição, nem solução. Apenas dor, coração sangrando, lágrimas que purificam, tristeza, saudades e lembranças, lembranças e saudades. Meu amigo, minha amiga foi embora, repito muitas vezes. É a Deus que, agora, os confio. Gostaria de encontrar as palavras certas para falar do meu amigo, para que sua memória fosse lembrada, valorizada, cheia de significados, não ficasse apenas no porta-retratos, para aqueles que ficaram e choraram a sua partida. Para mostrar ao mundo que sua existência não foi em vão, mas continuará sorrindo em nós, vivendo em nós e sonhando com nossos sonhos.

Meu amigo, depois que você foi embora, eu agradeci a Deus por você ter partilhado comigo sua vida, suas alegrias e tristezas, suas vitórias e derrotas, festas e desilusões e ser aquele ombro tão amigo, de apoio e conforto. Porque amigo, amigo de verdade, é para essas coisas!

Homenagem a todos que se foram vítimas da Covid- 19 e outras causas. De modo especial meus amigos Francisco Carlos (o França), meu tio Carlos Almeida e meu grande amigo velho, o senhor Júlio Bertoli. E recentemente meu amigo José Capra Verling. 

Estela Maria Frederico Ferreira, leitora da FOLHA 

A opinião do autor não reflete, necessariamente, a opinião da FOLHA 

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