Manejo com uso uso racional dos insumos agrícolas visa oferecer uma fruta mais saudável ao consumidor final
Manejo com uso uso racional dos insumos agrícolas visa oferecer uma fruta mais saudável ao consumidor final | Foto: Gina Mardones

Os produtores de morango estavam aflitos, na contagem regressiva para a chegada do inverno. Dias mais curtos, temperaturas em queda– características climáticas fundamentais para alavancar as floradas e, claro, a produção, principalmente a partir agora de julho. É bem verdade que as variedades que o pessoal aposta, vindas diretas do Chile, são para dias neutros, ou seja, produção o ano inteiro, mas os veranicos estavam atrapalhando essa constância no primeiro semestre. Quem por aí estava vendo bandejas de morango com frequência nos supermercados?

Bem, independentemente do cenário climático que agora parece melhor para a produção (veja o gráfico), a empolgação com os morangos na região de Londrina e cidades próximas é bem interessante nos últimos dois anos. Pequenos produtores que apostavam em outras atividades viram na cultura uma forma de rentabilizar em pequenos espaços – não da forma comum, plantada no solo a céu aberto e aplicação pesada de defensivos – mas em estufas (ambiente protegido), com morango em bancadas elevadas, semi-hidropônicos, às vezes apostando no orgânico ou mesmo adubação química tradicional.

“No Paraná, morango, abacaxi, limão e a goiaba apresentam ascendência contínua nas áreas de produção, diferentemente de outras frutas, com decréscimo nos volumes. O morango tem vivenciado uma mudança no sistema de produção com a adoção do cultivo fora do solo e em ambiente protegido, além do manejo via a PIF (produção integrada de frutas), cujo enfoque no uso racional dos insumos agrícolas busca um produto mais saudável ao consumidor final”, avalia o engenheiro agrônomo especialista em frutas do Deral (Departamento de Economia Rural), Paulo Andrade. A reportagem da FOLHA encontrou esses pequenos agricultores que não pensaram duas vezes em investir nas estufas dentro da propriedade.

O engenheiro agrônomo e extensionista da Emater, Felipe Furlan, atende produtores de morango nas cidades de Pitangueiras e Rolândia. Ele explica que nos últimos tempos está recebendo novos projetos de quem busca capitar recursos pelo Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) para montar a estrutura e comprar as mudas. “O pessoal viu a rentabilidade em estufa e resolveu apostar em novas estruturas. Geralmente, priorizando a produção orgânica ou ecológica, sem usar defensivos. O cultivo protegido em estufa vem como alternativa para quem não tem grande área e ainda possibilita o trabalho com outras culturas, além de ficarem livres de (algumas) influências climáticas.”

De todas as propriedades para as quais presta assistência, Furlan relata que em apenas uma delas o trabalho é direto na terra. A maioria prefere o morango elevado por motivos simples: menor incidência de doenças, melhoras na ergonomia e ainda a possibilidade do fruto não entrar em contato com o solo. “O retorno é promissor e as linhas de investimento parcelam em dez anos. Tudo indica que nossa safra será maior, não pelo aumento da produtividade, mas sim devido a essas novas estufas e projetos.”

No cultivo em estufa, segundo o extensionista, a incidência de doenças é menor, mas claro que há desafios. Um dos principais é o ácaro, que acaba tendo solução no controle biológico por meio do ácaro predador. “Outro cuidado é com a fertirrigação (adubo de forma líquida distribuído pelas mangueiras de irrigação), em que é necessário atenção na condutividade elétrica e o ph. O ph da fruta é muito sensível e precisa girar em torno de 5,5”, explica.

A família Navarro viu retorno nos morangos e para este ano, investiu em mais uma estufa com expectativa de dobrar a produção
A família Navarro viu retorno nos morangos e para este ano, investiu em mais uma estufa com expectativa de dobrar a produção | Foto: Gina Mardones

Há dois anos, o casal Ewandro e Rosicleia Navarro, de Rolândia, conversaram com a FOLHA sobre uma mudança na propriedade: apostariam nos morangos semi-hidropônicos, no slab, em busca de uma atividade melhor remunerada e mais prazerosa que a avicultura. Nesta safra, a reportagem volta ao local porque o casal é um exemplo claro sobre o movimento recente dos morangos no Estado: este ano apostou numa nova estrutura de estufa e deve mais que dobrar a produção.

A primeira estufa, com 5,5 mil plantas, está produzindo em torno de 600 gramas/ano por planta. Com isso, a produção média gira em torno de 3,3 toneladas por safra. Em 2019, com um investimento de mais R$ 50 mil junto a Pronaf, mais nove mil pés foram plantados há cerca de 20 dias e – seguindo a mesma produtividade – devem acrescentar 5,4 toneladas de morangos nos próximos anos. Os Morangos Ecológicos Navarro utilizam a adubação convencional, mas com uso zero de agrotóxicos.

“Começamos com uma estufa pequena, conhecendo a produção vimos que tem espaço para crescer. A procura é muito grande, não é tão comum na região, e por isso resolvemos investir numa nova estufa. O frango era a principal renda até aqui, mas agora o morango foi uma aposta que virou realidade. Estamos com bastante esperança”, ressalta a produtora.

O maior receio da família neste momento é justamente não conseguir comercializar toda a nova produção, agora em novos patamares de volume. As mudas vieram do Chile e correspondem a um terço do investimento, além da estrutura das estufas e as bancadas elevadas. “Hoje entregamos direto ao consumidor, recebendo-os na propriedade, além de padarias e confeitarias. Agora, acredito que teremos de participar de feiras, eventos agropecuários. Ainda estamos estudando porque vamos ter que ir atrás para vender todo esse morango.” O quilo do produto fresco sai por R$ 20, enquanto o congelado é vendido por R$ 15.

Com uma bagagem de dois anos, o casal aprendeu bastante sobre o manejo ecológico dos morangos. Rosicleia explica que no controle biológico é preciso trabalhar de forma preventiva, sempre muito atento ao dia a dia da cultura, e, claro, uso de produtos alternativos, que não deixam de ser eficientes. “Usamos vinagre de maçã como isca, além de leite, óleo de neem e o ácaro-predador para combater o ácaro-rajado. A nossa expectativa é que ao longo dos anos esses produtos barateiem.”

Hoje, além do ácaro, a produtora cita problemas com o percevejo da soja e a vaquinha, mas tudo controlável. Ela também cita os picos de calor que prejudicaram bastante a cultura. “Atrasou a florada e acredito que teremos uma produção um pouco menor este ano. Mas vamos começar a contabilizar agora quando o volume de produção aumenta.”

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