Geopolítica muda regras do jogo e impõe desafios ao agro brasileiro
Liderança nas exportações dependerá menos do aumento da produção e mais de tecnologia, rastreabilidade e agregação de valor
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sábado, 08 de agosto de 2026
Liderança nas exportações dependerá menos do aumento da produção e mais de tecnologia, rastreabilidade e agregação de valor
Aline Machado Parodi - Especial para a FOLHA 

A crescente tensão geopolítica internacional, as mudanças nas estratégias comerciais da China, as novas exigências da União Europeia e os gargalos estruturais do Brasil devem redesenhar os rumos do agronegócio brasileiro nos próximos anos. Especialistas avaliam que a competitividade do agronegócio brasileiro dependerá cada vez menos do volume produzido e sim da capacidade de agregar valor, investir em tecnologia e reduzir vulnerabilidades.
O novo cenário mundial foi tema das discussões no VIII Seminário Desafios da Liderança Brasileira no Mercado Mundial de Soja, realizado nos dias 4 e 5 de agosto, na Embrapa Soja, em Londrina. Para o chefe da Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Marcelo Morandi, a geopolítica deixou de ser assunto restrito à diplomacia e passou a influenciar diretamente as decisões tomadas dentro da porteira.
Morandi apresentou uma análise de alguns impactos sobre a agricultura no Brasil, focados em dois parceiros de mercado: a China e a União Europeia. A China representa mais de 50% das exportações brasileiras. A União Europeia, apesar de ter um volume pequeno, em torno de 10%, tem um valor agregado alto, com cerca de 40% de valor maior.
Embora continuem fundamentais para o agronegócio brasileiro, os dois mercados caminham em direções diferentes. A União Europeia amplia as exigências relacionadas à sustentabilidade e à rastreabilidade, enquanto a China passa por uma mudança estratégica que busca diminuir sua dependência externa sem abrir mão da segurança alimentar.
Segundo Morandi, o atual plano quinquenal chinês, válido até 2030, representa uma mudança de paradigma. O país continua necessitando importar grandes volumes de alimentos, mas quer reduzir a vulnerabilidade diante das crises internacionais e ampliar seu domínio sobre tecnologia, logística e produção. Entre as mudanças esperadas estão protocolos mais rígidos de rastreabilidade e sustentabilidade.
"Isso já está em curso. O plano quinquenal chinês atual vai até 2030. Nesses cinco anos, eles querem reduzir a dependência de sementes e a importação de proteína vegetal”, disse Morandi. Segundo ele, o Brasil precisa se preparar para atender essas exigências sem se tornar excessivamente dependente do mercado chinês.
A estratégia chinesa vai além da produção agrícola. Envolve investimentos em biotecnologia, infraestrutura logística, inteligência artificial e controle das cadeias globais de abastecimento. Para Morandi, a China deixou de ser apenas a "fábrica do mundo" para se tornar protagonista em inovação e influência tecnológica.
Com o crescimento da classe média chinesa, a exigência de alimentos de melhor qualidade tem feito com que a China pressione os países fornecedores a terem uma maior transparência e controle sobre a origem dos produtos. Essa transformação, segundo Morandi, exige uma mudança de postura também do Brasil.
"Temos que ser parceiros tecnológicos também. Temos que reduzir a nossa dependência, porque hoje temos os recursos naturais e a competência de produzir grãos, soja, carne e outros produtos em agricultura tropical."
Ele avalia que o Brasil não pode limitar sua relação comercial ao fornecimento de commodities enquanto importa tecnologia e conhecimento. A cooperação entre os dois países precisa avançar para pesquisa, inovação e desenvolvimento de soluções conjuntas. "Não podemos ser simplesmente o parceiro que vende enquanto eles compram”, disse.
Agregar valor passa a ser prioridade
Se a China continua sendo o principal destino da produção brasileira, a União Europeia permanece estratégica por remunerar melhor produtos industrializados e de maior valor agregado.
"O grande desafio do Brasil é entregar o que o cliente quer e receber por isso. A armadilha que devemos evitar é eles colocarem muitas exigências e pagarem preço de commodity."
Para Morandi, o acordo entre Mercosul e União Europeia abre espaço para ampliar esse tipo de comércio, mas também exige avanços internos. Rastreabilidade, comunicação da sustentabilidade da produção, melhoria logística e redução da dependência de insumos importados precisam fazer parte da agenda do agro brasileiro.
Segundo ele, o Brasil já possui diferenciais competitivos importantes, como disponibilidade de recursos naturais, conhecimento em agricultura tropical e produção sustentável. O desafio agora é transformar essas vantagens em valor econômico.
"Sabemos fazer agricultura tropical com competência e temos os recursos naturais”, afirmou o chefe da Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa.
O pesquisador também aponta novos mercados para a produção brasileira. Países da Ásia Central, Oriente Médio e África apresentam crescimento populacional e aumento da demanda por alimentos. No caso africano, ele afirma que a oportunidade vai além das exportações.
"Podemos ser o fornecedor tecnológico deles: biotecnologia, sementes, máquinas e métodos de produção”, enfatizou.
Competitividade depende da infraestrutura
As novas exigências dos mercados internacionais são desafios externos que o país precisa resolver. Mas, internamente, o setor também tem seus desafios históricos que travam o crescimento do agro brasileiro.
O vice-presidente da Aprosoja Mato Grosso do Sul e presidente da Câmara Setorial da Cadeia da Soja do Ministério da Agricultura, produtor rural André Dobashi, afirma que o produtor brasileiro já está preparado para atender aos protocolos exigidos pelos mercados, mas esbarra na falta de infraestrutura.
"O produtor está preparado da porteira para dentro. Da porteira para fora, ele precisa se preparar muito mais e não depende só dele”, disse.
Segundo ele, logística, armazenagem, crédito e transporte continuam reduzindo a competitividade brasileira. "Hoje nós temos um Custo Brasil extremamente alto. Quando eu falo Custo Brasil é seguro, crédito, portos e aeroportos, ferrovias, rodovias”, afirmou.
Para Dobashi, manter a liderança brasileira dependerá menos do crescimento da produção e mais da capacidade de oferecer produtos industrializados e confiáveis. "O Brasil precisa entender que a China é mais do que um comprador, mas é um parceiro estratégico”, disse.
O país, na avaliação do produtor, precisa ampliar a exportação de produtos processados, agregando renda antes do embarque. "O que a gente precisa é não deixar a produção de lado, mas continuar produzindo agora com mais responsabilidade, com mais sustentabilidade e, principalmente, produzindo outras coisas para a China, mais do que grão”, ressaltou.
Ele alerta que a concorrência internacional cresce rapidamente. Estados Unidos, Paraguai e Argentina avançam em produtividade e logística, pressionando os preços internacionais e reduzindo a margem do produtor brasileiro.
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Para Dobashi, a solução passa por políticas estruturantes e planejamento de longo prazo. "O problema do país é um problema estrutural de longo prazo e o brasileiro tem uma mania muito ruim de pensar no imediatismo. Diferente da China, em que qualquer coisa que a gente conversa é de 10, 20, 30 anos, o Brasil pensa no amanhã”, comentou.
Ele defende a construção de novas parcerias internacionais para financiar infraestrutura logística e armazenagem, fortalecendo a competitividade do agronegócio brasileiro.
Fertilizantes expõem vulnerabilidade estratégica do Brasil
Os conflitos no Oriente Médio e as ameaças ao fechamento do Estreito de Ormuz voltaram a evidenciar um dos principais pontos de vulnerabilidade da agricultura brasileira: a forte dependência de fertilizantes importados.
Segundo Marcelo Morandi, chefe da Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa, o Brasil sente os reflexos principalmente nos fertilizantes nitrogenados e nos combustíveis. O conflito entre Estados Unidos e Irã coloca em risco a importação de fósforo, pois parte do fósforo utilizado no Brasil depende do enxofre produzido pelo Irã.
"Somos grandes importadores de fósforo, especialmente do Marrocos. Para ter fósforo, você precisa de enxofre, e o Irã é o principal produtor de enxofre", explicou.
Ele lembra que a opção feita anos atrás de reduzir a produção nacional de fertilizantes favoreceu a competitividade naquele momento, mas aumentou a dependência externa. "Tomamos a decisão de reduzir a produção local e importar porque era mais fácil e barato. Isso hoje já não é mais realidade”, explicou.
Morandi defende a retomada da produção nacional e a diversificação das fontes de abastecimento. Entre os produtores rurais, a preocupação é imediata. Além da alta no preço dos combustíveis, a guerra entre Estados Unidos e Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz, compromete o recebimento dos fertilizantes.
"Os fertilizantes especificamente, além de estarem em um preço mais alto, a gente está com um risco de recebimento mais alto também”, disse o produtor rural André Dobashi, vice-presidente da Aprosoja Mato Grosso do Sul e presidente da Câmara Setorial da Cadeia da Soja do Ministério da Agricultura.
Segundo ele, produtores que ainda não adquiriram os insumos para a próxima safra perderam o melhor momento de compra. "O produtor que ainda não fez a compra do fertilizante já passou da hora, ele já perdeu o melhor timing”, explicou Dobashi.
A recomendação é antecipar as negociações, utilizar operação de barter (comprar agora e pagar no futuro com a produção) e evitar decisões baseadas apenas nas oscilações do mercado internacional, enquanto persistem as incertezas geopolíticas.


