Caruru, planta daninha agressiva, preocupa cadeia da soja
Pesquisadores da Embrapa de Londrina fazem alerta para a ascensão da variação Amaranthuns hybridus, que se soma à já quarentenária Amaranthus palmeri
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de junho de 2026
Pesquisadores da Embrapa de Londrina fazem alerta para a ascensão da variação Amaranthuns hybridus, que se soma à já quarentenária Amaranthus palmeri
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

A safra de soja 2026/2027 no Estado foi de mais de 21,7 milhões de toneladas, com produtividade média de 3,7 toneladas por hectare, um desempenho acima do ciclo anterior. Mas os bons números não funcionam como salvos-condutos para haver relaxamento no controle fitossanitário, avisam os especialistas.
Um personagem que é xará do prato baiano de origem africana (cozido sortido com quiabo, camarão fresco, dendê, castanha de caju e amendoim) está na ribalta da entressafra.
O caruru é a planta daninha agressiva mais vigiada do momento, uma visitante desleal nos territórios da leguminosa oleaginosa que domina os campos agrícolas do Paraná.
Voraz por água, pelos nutrientes do solo e pela vital luz solar, a intrusa provoca estragos em larga escala, uma inimiga capaz de deixar os agricultores mais bem informados com a barba de molho. Quem não ficaria impressionado com uma planta que pode produzir 500 mil sementes e que chega a crescer cinco centímetros em um único dia?
A Embrapa Soja, em Londrina, faz um trabalho de alerta no ambiente agrícola e faz recomendações para evitar a negligência dos produtores nas práticas preventivas. Em um webinar realizado na última semana de maio, os pesquisadores Rafael Romero Mendes e Fernando Adegas destacaram o aumento significativo da infestação do caruru e os riscos para os produtores de quatro estados - além do Paraná, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul também estão sob ameaça. A recusa de algumas cargas de soja com sementes de caruru em portos chineses, mesmo dentro de níveis de contaminação considerados aceitáveis, sinalizam que o rigor dos importadores está em alta e que o manejo eficiente é um grande desafio nas próximas safras.
À FOLHA, Mendes informou que a infestação tem aumentado nas últimas quatro safras com duas espécies, Amaranthus palmeri (gigante) e a Amaranthuns hybridus (roxo).
“A primeira já foi declarada quarentenária, ou seja, com potencial para provocar danos econômicos. Ela não existia no Brasil e foi introduzida em 2015, descoberta no Mato Grosso, quando foi feito um trabalho de contenção já que era considerada muito perigosa por ter provocado grandes prejuízos em lavouras dos Estados Unidos. Na ocasião, o trabalho institucional foi bem feito e a dispersão foi contida, com poucas propriedades afetadas. Contudo, nas últimas duas safras reapareceram focos de infestação no Mato Grosso do Sul, em São Paulo e, mais recentemente, em Santa Catarina, o que sugere que ainda não há controle da disseminação”, explica.
“A variedade hybridus, o caruru roxo, já era conhecido no Brasil, é nativo, mas começou a preocupar muito nas últimas safras por estar resistindo aos herbicidas e ao glifosato. Uma das hipóteses é que estas variedades resistentes sejam oriundas da Argentina e entrado pelo Rio Grande do Sul em sementes de pastagem de inverno contaminadas ou na ração animal. Portanto, ambas as variedades se tornaram muito perigosas”, esclarece. “Com a presença do caruru, o manejo fica mais caro e mais complicado, com o uso dos pré-emergentes, que são herbicidas menos conhecidos pelos agricultores que o glifosato”, afirma o pesquisador da Embrapa.
De acordo com os especialistas, na receita para evitar cenários nos quais o caruru pode causar prejuízos de até 50% na produtividade está uma medida muito simples que é a lavagem bem feita dos maquinários, impedindo que as sementes da planta daninha se espalhem de talhão em talhão, de fazenda para fazenda e até entre diferentes regiões.
A pedido da reportagem, a Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná) comentou o tema. Marcílio Martins Araújo, chefe da divisão de Sanidade de Cultivo Agrícolas e Florestais da agência, afirmou que amostras de carurus estão sendo coletadas em todas as regiões do estado e são analisadas pelo Centro de Diagnóstico Marcos Enrietti (CDME), o laboratório oficial da agência. “Nenhuma delas era do caruru-gigante. Outras variedades sim e com alguma dificuldade de controle em algumas regiões. Existem riscos, mas estamos atentos a todas as notificações dos agricultores”, admitiu a autoridade sanitária. A Adapar pede que os agricultores que auxiliem a vigilância com informações ao perceber qualquer sinal de infestação.
Lucas Pastre Dill, coordenador técnico da Integrada Cooperativa Agroindustrial, disse à FOLHA que “a elevada capacidade de dispersão dessas plantas reforça a necessidade de monitoramento constante”. Segundo ele, toda a área de atuação da cooperativa permanece em “estado de atenção”.
“A estratégia da cooperativa está baseada principalmente na prevenção, no monitoramento frequente das áreas de cultivo e na adoção de práticas de manejo integrado de plantas daninhas. Isso inclui a correta identificação das espécies presentes nas lavouras, o controle ainda nos estágios iniciais de desenvolvimento, a rotação de mecanismos de ação dos herbicidas e a eliminação de possíveis focos de infestação antes da produção e disseminação de sementes”, informou.
“De forma geral, a principal orientação é que o produtor não espere o problema se agravar para agir. O monitoramento frequente das áreas, a adoção de medidas preventivas e o acompanhamento técnico especializado são essenciais para preservar a produtividade das lavouras e evitar o avanço dessas espécies. Em caso de dúvidas ou identificação de plantas suspeitas, a recomendação é sempre procurar um profissional capacitado para definir a estratégia de manejo mais adequada à realidade de cada propriedade”. Entre as recomendações da Integrada ao cooperado estão a aquisição de sementes certificadas disponibilizadas pela cooperativa.


