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Londrina

Folha Rural

m de leitura Atualizado em 01/08/2022, 10:54

Enfezamento do milho provoca perdas de até 60% de lavouras no Oeste

Doença é causada por duas bactérias, fitoplasma e espiroplasma, e pelo vírus da risca do milho; controle é feito de maneira preventiva

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de agosto de 2022

Lucas Catanho - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

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Doença transmitida pela cigarrinha se tornou mais frequente nos últimos cinco anos no Estado do Paraná: plantas bem nutridas e bem conduzidas são menos prejudicadas pela infecção, diz pesquisadora Doença transmitida pela cigarrinha se tornou mais frequente nos últimos cinco anos no Estado do Paraná: plantas bem nutridas e bem conduzidas são menos prejudicadas pela infecção, diz pesquisadora
Doença transmitida pela cigarrinha se tornou mais frequente nos últimos cinco anos no Estado do Paraná: plantas bem nutridas e bem conduzidas são menos prejudicadas pela infecção, diz pesquisadora |  Foto: Gilson Abreu/AEN
 

Doença causada por duas bactérias e por um vírus transmitidos pela cigarrinha, o enfezamento do milho está sendo responsável pela perda de até 60% da produção em lavouras do Oeste e do Noroeste do Estado, regiões mais atingidas segundo levantamento realizado pelo IDR (Instituto de Desenvolvimento Rural) Paraná.

Michele Regina Lopes da Silva, pesquisadora da área de proteção de plantas do IDR, explica que no passado a doença era relatada somente na safrinha, porém hoje passou a ser um problema também para as safras do grão.

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“Anteriormente, a doença ocorria aqui no Paraná na forma de surtos esporádicos. Contudo, a partir de 2017 os relatos passaram a ser frequentes, principalmente na região oeste. Desde então, a doença tem ocorrido de forma contínua em todas as regiões produtoras de milho do Estado.”

Segundo a pesquisadora, a expansão da fronteira agrícola do milho resultou na ocorrência da doença. “A cultura se mantém no campo o ano inteiro por causa da segunda e terceira safras. Com isso, houve a formação das pontes verdes que perpetuam a doença no campo. Além disso, o melhoramento genético sempre priorizou a produção e não a sanidade das plantas”, explica.

A DOENÇA

O enfezamento do milho é uma doença causada por duas bactérias, fitoplasma e espiroplasma, e pelo vírus da risca do milho. As plantas podem apresentar infecções individuais ou mistas, sendo que a transmissão dessas pragas ocorre pela cigarrinha. O inseto se contamina ao se alimentar de plantas de milho doentes. Uma vez infectada, a cigarrinha permanece capaz de transmitir os patógenos por toda sua vida.

O ciclo de vida da cigarrinha pode variar de 20 a 40 dias, dependendo das condições ambientais.

“Quanto maior o calor e a umidade, maior a quantidade de ciclos do inseto dentro da mesma lavoura. A cigarrinha pode se alimentar e se abrigar em outras plantas, porém, até o momento, os estudos revelam que ela só completa seu ciclo reprodutivo em plantas de milho. Assim, o enfezamento só ocorre em plantas de milho, mas a cigarrinha pode usar plantas como sorgo, trigo e braquiária como alojamento.”

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O enfezamento do milho é uma doença que afeta a fisiologia, a nutrição e o desenvolvimento da planta. As folhas do terço superior das plantas podem ficar avermelhadas a partir das extremidades, com manchas amareladas ou com pontilhamentos, e depois evoluem para seca.

“O colmo e as raízes ficam mais fracos pela dificuldade de circulação de água e de nutrientes, podendo levar ao tombamento da planta. Ocorre também o encurtamento entre os internódios [regiões do caule] da planta, levando à redução do porte. As espigas ficam deformadas e pode ocorrer o multiespigamento na mesma planta, porém sem a formação de espigas viáveis”, detalha.

As perdas na espiga podem variar de 5% a 15% em plantas com sintomas leves e moderados e de 20% a 100% em plantas com sintomas altos e severos.

PREJUÍZO

O produtor rural Fernando Zanzarini Garcia ainda está calculando os prejuízos na produção de milho em sua propriedade que fica em Luiziana, município da região noroeste do Paraná. Enquanto no ano passado ele conseguiu colher 78 toneladas do grão cultivadas em 60 hectares, neste ano o volume não deve chegar a 30 toneladas.

Fernando Garcia diz que além da doença, outra dificuldade foi o custo da produção Fernando Garcia diz que além da doença, outra dificuldade foi o custo da produção
Fernando Garcia diz que além da doença, outra dificuldade foi o custo da produção |  Foto: Arquivo pessoal - Divulgação
 

E as dificuldades não se resumem à sanidade das plantas. “Além do enfezamento que atingiu de 60% a 62% da área cultivada, o mercado registrou neste ano um grande aumento no preço dos insumos agrícolas, impactando o custo de produção”, destaca.

Diante desse difícil quadro, Fernando ainda compara o preço da saca de 60 kg de milho neste ano, em torno de R$ 70, cotação abaixo da obtida no ano passado, que chegou a ultrapassar R$ 90.

“Se não aparecerem defensivos mais eficientes, vai ficar complicado produzir milho”, completa o agricultor Ronaldo Adriano Pemper que, assim como Fernando, tem sua propriedade em Luiziana e foi prejudicado pelo enfezamento do milho.

Ele começou a perceber a ação da cigarrinha em maio e estima que, até agora, a praga já foi responsável por afetar metade da sua produção. “No ano passado eu colhi 60 toneladas. Neste ano vai ficar em torno de 30 toneladas. 2022 será pior também porque os preços do milho estão mais baixos e os custos aumentaram”, lista.

Em julho do ano passado, Ronaldo diz ter vendido a saca de 60 kg de milho a R$ 82. Em julho de 2022, o preço caiu para R$ 73. Toda a produção do agricultor é comercializada para a cooperativa Coamo.

Ronaldo Pemper estima que a cigarrinha vai afetar metade da produção de milho de sua propriedade, em Luiziana Ronaldo Pemper estima que a cigarrinha vai afetar metade da produção de milho de sua propriedade, em Luiziana
Ronaldo Pemper estima que a cigarrinha vai afetar metade da produção de milho de sua propriedade, em Luiziana |  Foto: Arquivo pessoal - Divulgação
 

PREVENÇÃO

Michele Regina Lopes da Silva, pesquisadora da área de proteção de plantas do IDR, explica que não existe medida curativa para o enfezamento. “Ações pontuais, como apenas a aplicação massiva de inseticidas químicos, não resolvem o problema e ainda podem agravá-lo. O controle da doença é preventivo e deve ser realizado por meio do manejo integrado, que envolve ações desde a semeadura até a colheita.”

Entre as ações preventivas, a técnica destaca evitar semear lavouras novas perto de lavouras adultas; utilizar sementes certificadas e tratadas com produtos registrados e cultivares mais tolerantes à doença.

Ao longo do cultivo, uma das dicas é fazer a rotação de princípio ativo dos inseticidas para evitar a seleção de cigarrinhas resistentes e a morte de insetos inimigos naturais das pragas e da cigarrinha.

“Além disso, é importante manter as boas práticas culturais, pois alguns estudos têm relatado que plantas bem nutridas e bem conduzidas são menos prejudicadas pela infecção e pelo desenvolvimento da doença.”

A técnica acrescenta que existem vários produtos biológicos registrados na Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná) formulados a partir de fungos que podem auxiliar no controle da cigarrinha na safra e na entressafra.

“O produtor precisa quebrar o paradigma de que o uso do controle biológico não funciona. Esse tipo de controle exige que os produtos sejam guardados de maneira adequada e aplicados em épocas mais úmidas e temperaturas mais amenas, para que o fungo possa colonizar as cigarrinhas. É melhor ter eficiência no controle da população da praga do que pressa”, explica.

Pesquisa acompanha evolução da doença no Pr

 

O IDR montou, na safra 2020/2021, uma equipe composta por pesquisadores e por extensionistas para iniciar um projeto previsto para três anos. O objetivo é verificar e acompanhar a distribuição da doença e do inseto vetor no Estado, identificar os patógenos prevalentes e testar a suscetibilidade à doença de cultivares de milho mais semeadas no Estado.

No primeiro ano, foram coletadas amostras de plantas de milho em quatro diferentes pontos de coleta em 50 municípios. As amostras foram enviadas para o laboratório de bacteriologia, de virologia e de entomologia no IDR em Londrina.

“Dessa primeira coleta pudemos concluir que a cigarrinha está presente em todas as regiões produtoras de milho, que os três patógenos foram detectados em plantas semeadas e em plantas espontâneas e também em plantas com ou sem sintomas.”

A partir de 2021, a equipe de extensão passou a coletar amostras de plantas na safra e na safrinha nos municípios produtores. “Os três patógenos continuam presentes em todas as regiões, mas o vírus da risca tem sido o patógeno prevalente.”

Além disso, ensaios em rede foram montados para testar a suscetibilidade ao enfezamento de 10 cultivares de milho mais cultivadas no Estado.

“Os ensaios foram instalados em campos experimentais no IDR Paraná, na Embrapa Milho e Sorgo e nas cooperativas parceiras Coamo, Cocamar, Copacol e Integrada. Os experimentos estão em fase de avaliação. Até o momento foram avaliados somente os sintomas da doença nas plantas, sendo que os resultados mais conclusivos devem ser obtidos após a avaliação da produção.”

Pelo que se tem observado, a técnica do IDR destaca que o enfezamento do milho seguirá sendo um problema constante até que os produtores cumpram com as ações preconizadas no manejo integrado da doença. “Teremos que aprender a conviver, conforme já ocorre com outras doenças e pragas”, conclui

EDITAL 

Termina em 8 de agosto o prazo de inscrição para chamada pública referente à Rede Paranaense de Apoio à Agropesquisa e Formação Aplicada (Complexo de Enfezamento do Milho - CEM). A iniciativa é da Fundação Araucária, Seti (Superintendência Geral de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) e o Senar-Pr (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). O resultado final será divulgado no dia 17

Os eixos temáticos dessa chamada são monitoramento de cigarrinhas (Dalbulus maidis) e patógenos do complexo de enfezamento do milho, avaliações das reações de cultivares de milho (híbridos e variedades) e avaliações da eficácia da aplicação de inseticidas sintéticos e biológicos no controle de Dalbulus maidis

O edital disponibilizará recursos financeiros de até R$ 4 milhões. O prazo de execução das propostas apoiadas será de até 38 meses, sendo que o prazo de execução das bolsas vinculadas aos projetos deverão ser de até 36 meses, contados a partir da assinatura do instrumento de convênio. Os itens financiáveis são bolsas de pesquisa (de iniciação científica a pós-doutorado) e despesas inerentes ao projeto de pesquisa, como participação em simpósios.

Para a sistematização dos resultados e realização do seminário final poderá haver, excepcionalmente, prorrogação por até seis meses do prazo de execução, desde que o proponente solicite autorização prévia para a Fundação Araucária.