Despesa com fertilizantes cresce 7% entre produtores brasileiros
Cenário de guerra envolvendo Rússia, Ucrânia, EUA e Irã justifica aumento dos preços
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de setembro de 2026
Cenário de guerra envolvendo Rússia, Ucrânia, EUA e Irã justifica aumento dos preços
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 

Entre janeiro e julho deste ano, a despesa com fertilizantes pelos produtores brasileiros alcançou R$ 44,8 bilhões, um crescimento de 7,3% em comparação ao mesmo período do ano passado. Os dados são da Secex (Secretaria de Comércio Exterior), ligada ao MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Em contrapartida, o Brasil importou 22,4 milhões de toneladas de fertilizantes no mesmo período, redução de 7,4% em comparação ao mesmo período de 2025.
Ana Paula Kowalski, coordenadora do Departamento Técnico, Econômico e Legal do Sistema Faep, explica que as guerras entre Rússia e Ucrânia e, mais recentemente, entre Estados Unidos e Irã são as grandes causas do aumento dos preços dos fertilizantes.
“O conflito no Oriente Médio afeta principalmente os valores dos fertilizantes nitrogenados, derivados diretos do petróleo, e dos fertilizantes fosfatados, cujo processo de produção depende da utilização de enxofre, que também é um derivado de petróleo.”
Ela explica que a Rússia tem relevante participação no mercado desses dois nutrientes e também de potássio, e as tensões mais recentes com ataques a navios no Mar Negro contribuem para altas nesses mercados.
VULNERABILIDADE
As estatísticas apontam que o Brasil é especialmente vulnerável a essas oscilações porque importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que utiliza.
Rússia, China, Canadá e Marrocos estão entre os principais fornecedores, mas parte importante da ureia e de matérias-primas industriais depende das rotas do Oriente Médio.
Em 2025, o Brasil havia consumido o recorde de 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes. Para este ano, as projeções indicam uma retração, provocada menos pela necessidade agronômica e mais pela dificuldade financeira dos produtores para manter o mesmo volume de compras.
Para o produtor tentar driblar esse cenário, a técnica do Sistema Faep recomenda, além de acompanhar o mercado, optar por fontes alternativas e suplementares, como fertilizantes orgânicos ou organominerais.
“No entanto, o uso desses fertilizantes exige adaptações técnicas nas recomendações, o que exige a busca por novos conhecimentos”, pondera.
A técnica acrescenta que o uso de inoculantes e de biofertilizantes também se apresenta como solução que pode otimizar o aproveitamento de nutrientes pelas plantas e a disponibilidade deles no solo.
“Mas infelizmente o que observamos em parte dos cenários é que o produtor pode reduzir seu pacote tecnológico, aplicando menos fertilizante do que a exigência nutricional das culturas e apostando nas reservas do solo.”
CUSTO
A técnica do Sistema Faep pontua que os fertilizantes são, em geral, o maior custo das culturas. No caso da soja, correspondem a cerca de 15% do custo total. Já para trigo, milho e feijão, a média é de 25% do custo total.
“Quando considerado o custo operacional, que corresponde somente ao desembolso para conduzir a lavoura ano a ano, os valores chegam a 25% para a oleaginosa e 35% para as demais culturas citadas”, conclui.
Com propriedade em Londrina, o produtor rural Conrado Mayr de Araujo utiliza fertilizante em três culturas: soja (fosfatados e potássio), milho e trigo (formulados NPK e nitrogenados).
“Para driblar os custos dos fertilizantes, fazemos agricultura de precisão e procuramos realizar anualmente análises de solo. Isso mostra nossa real necessidade de fertilizantes dentro de uma perspectiva de equilíbrio dos nutrientes do solo para as plantas”, destaca o produtor.
Segundo o agricultor, hoje o custo com fertilizantes representa 43% dos investimentos na cultura do milho, 37% na plantação de trigo e 33% na soja.
Na soja, por exemplo, Conrado optou por usar uma fonte de fósforo reativo natural neste ano. “É uma opção mais barata, que vai fornecer o fósforo para a cultura e para o sistema, o que proporciona uma economia de 40%.”
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No milho e no trigo, são utilizados fertilizantes que proporcionam alto rendimento às lavouras, com bastante nitrogênio na base e quantidades equilibradas de fósforo e potássio para as culturas. É realizada ainda uma complementação do nitrogênio por cobertura, com sulfato de amônio.
“Esse ano vamos trabalhar com a manutenção dos níveis de nutrientes, mas sempre pensando em maximizar o potencial produtivo”, conclui.


