A carinata - ou mostarda-etíope - está chamando cada vez mais atenção no agronegócio. Da mesma família botânica da canola (Brassicaceae, do gênero Brassica), a planta está se consolidando como opção atraente para alternar com as lavouras de soja no inverno. Primeiro porque a rentabilidade pouco empolgante do milho e do trigo estimula a diversificação e, o mais importante, as perspectivas de demanda têm crescido à medida que a legislação vai escalando para adicionar mais mistura de óleo renovável aos combustíveis fósseis. Ela é tóxica para o consumo humano pelo seu alto teor de ácido erúcico - 20 vezes mais que a canola - e muito indicada para a fabricação de um óleo com longas cadeias de carbono e baixa temperatura de congelamento, compatível com o querosene de aviação.

“A integração da carinata no sistema de segunda safra (safrinha), em sucessão imediata à colheita da soja, estabelece um natural hedge financeiro para o produtor rural ao mitigar a volatilidade histórica associada ao trigo”, explica Luiz Gustavo Floss, mestre em Agronomia pela Universidade de Passo Fundo, atual diretor de Relações Institucionais e ex-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Canola.

“O custo operacional de produção, estimado em cerca de uma tonelada por hectare, proporciona uma margem líquida elevada, que pode alcançar R$ 2 mil por hectare. Essa rentabilidade é sustentada por cotações de mercado garantidas em contratos de fomento com preço fixado acima das cotações spot da soja, reduzindo drasticamente o risco de contraparte”, afirma. “Outra vantagem é que a introdução do cultivo transforma áreas de entressafra e pouso em ativos geradores de caixa, diversificando a matriz de receita sem comprometer o calendário da safra principal.”

Rio Grande do Sul é líder

Floss teria motivos para estar desanimado, mas é firme na defesa da oleaginosa. No Rio Grande do Sul, onde ele vive, a cultura está em fase de enchimento de grãos ou maturação, dependendo da região, mas temporais com granizo vão reduzir a produtividade das lavouras, com acamamento das plantas e queda das síliquas, estruturas na qual as sementes se desenvolvem. Segundo dados da Emater/RS-Ascar, as intempéries acometeram a produção quando apenas 5% da área cultivada no estado - cerca de 12 mil hectares - havia sido colhida. O estado lidera a produção brasileira e as estimativas são que a área plantada pode se multiplicar por quase nove vezes em 2027.

Imagem ilustrativa da imagem Depois da cana e do milho, carinata pode ocupar espaço de destaque no futuro da agroenergia
| Foto: Divulgação/Abrascanola

No Paraná, o cultivo ainda é incipiente, apesar de algumas experiências isoladas. “A gente acredita muito que tem um potencial muito interessante no pós-soja no Paraná, principalmente nas regiões mais quentes e com menos chuvas durante a primavera”, avalia Floss. Para ele, a região central e o Oeste do Estado devem se tornar os principais pólos de cultivo, mas as terras altas do Norte do Estado e o Sul também podem ter importância para a produção nacional na próxima década. “A carinata aguenta muito frio, inclusive geada, e também aguenta calor, porque ela foi desenvolvida em regiões de dias muito quentes e áridos. Onde é mais quente, o ciclo é menor, onde é mais frio, menor. Então é fácil de se adaptar a qualquer rotação.”

Outro argumento dos defensores do cultivo da carinata é a saúde do solo. O pesquisador Bruno Galveas Laviola, da Embrapa Agroenergia, em Brasília, lembra que as substâncias naturais da planta têm uma capacidade valiosa: o combate aos nematóides. “Como a soja é muito suscetível a esses vermes de raiz, usar a carinata na rotação de safrinha ajuda a limpar o solo para a safra principal”, informa.

Expansão se concentra em áreas frias

Por enquanto, assim como aconteceu com a canola, os investimentos das multinacionais de sementes que estão induzindo o plantio no Brasil vêm ocorrendo em áreas mais frias, onde se planta trigo, aveia ou centeio. “Mas as pesquisas com canola estão avançadas e, em breve, ela já estará tropicalizada. O mesmo deve acontecer com a carinata quando ela ganhar escala”, prevê Laviola.

O Deral (Departamento de Economia Rural) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento informou em seu último boletim que a canola foi a única cultura de inverno que escapou da quebra pelo excesso de chuvas, justamente pelo aumento exponencial da área plantada. O volume total de grãos de inverno registrou queda de 28% em relação a 2025 - de 3,9 milhões para 2,8 milhões de toneladas. O trigo encolheu 34%, a aveia preta 23%,o triticale 21% e o centeio 15%. Já a canola cresceu 115% na produção para 11,3 mil toneladas, numa área plantada 148% maior, de 6,6 mil hectares (o Deral ainda não distingue a canola da carinata no levantamento).

A canola em rápida expansão no Estado deve ajudar a impulsionar a carinata nas próximas safras. De acordo com os especialistas, a experiência positiva da primeira deve ajudar na propaganda da segunda. Esta expansão deve estimular projetos de industrialização das cooperativas para a produção de óleo. “A capacidade de recebimento e de processamento de matéria-prima do Paraná é inegável e não só das cooperativas. Já temos uma empresa esmagando o grão no Rio Grande do Sul, mas a demanda vai continuar crescendo e outras unidades vão surgir, até mesmo para a produção do biocombustível de aviação. Com certeza, o Paraná vai se destacar neste processo”, afirma o gaúcho.

Matéria-prima para refinarias na Europa

Laviola fala com convicção sobre o potencial do Brasil como fornecedor global de SAF (Sustainable Aviation Fuel), a mistura vegetal que está para a aviação como as baterias de lítio para o mercado de carros. Com as metas internacionais de descarbonização, os especialistas estimam que a demanda poderá alcançar até 400 bilhões de litros de óleo renovável no mundo em meados da próxima década. “Não tem como fugir do Brasil esta solução. Temos abundância de terra e capacidade para dar suporte a esta grande escala. Temos o desafio de estruturar estas instalações industriais, que são semelhantes a refinarias de petróleo. Não se produz SAF e diesel renovável em usinas tradicionais de biodiesel”, pondera. Atualmente, as multinacionais que estimulam a produção de carinata e compram a produção, acabam exportando a matéria-prima para a França e para a Bélgica, onde as maiores refinarias da Europa estão instaladas.

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A aprovação da Lei do Combustível do Futuro é vista como o sinalizador regulatório fundamental. Sancionada em outubro de 2024, a lei é considerada um marco da transição energética no Brasil e institui o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), que tem como objetivo o incentivo à pesquisa, produção, comercialização e uso do SAF na matriz energética brasileira. Pela nova política, os operadores aéreos ficam obrigados a reduzir as emissões de dióxido de carbono entre 1% a partir de 2027, alcançando redução de 10% em 2037.

Mas o mercado externo é ainda mais promissor, em especial a União Europeia. Desde 2025, todos os voos que partem de aeroportos do bloco devem utilizar pelo menos 2% de SAF em sua mistura. Estas cotas vão aumentar a cada cinco anos. Em 2030, a fatia de SAF salta para 6%; em 2035 para 20% e 34% em 2040. Por ser estritamente não alimentar, o óleo da carinata atende com perfeição às exigências de não-concorrência pelo uso da terra (o conceito food versus fuel) estabelecido pelos europeus. O biobunker, que é o combustível renovável para navios de grandes dimensões, também é outro mercado em franco desenvolvimento na Europa e que está monitorando a produção de carinata no mundo.

Rusticidade poupa meio ambiente de defensivos

Além de consolidar uma alternativa financeira na entressafra e conferir benefícios sistêmicos ao solo e ao equilíbrio fitossanitário do ecossistema agrícola, a economia verde também considera ainda um outro ponto para eleger a carinata como candidata a sensação na agroenergia. Apresentando rusticidade agronômica superior à da canola e menor exigência em fertilizantes sintéticos e defensivos agrícolas, a cultura reduz a intensidade de emissões de carbono do sistema produtivo.

No entanto, os especialistas de mercado alertam que antes de se decidir pelo plantio de uma cultura ainda alternativa é necessário mapear o mercado ou garantir a venda com contrato. Eles também apontam que avaliar a rentabilidade em comparação com outras culturas mais tradicionais também ajuda a tomar uma decisão mais segura, assim como se a exigência de manejo se encaixa no perfil da propriedade. O perfil de produtor mais indicado para correr este risco, afirmam, é aquele mais tecnificado, mais capitalizado e com mais histórico de inovação em implementos e recursos tecnológicos.

Do ponto de vista agronômico, os especialistas ouvidos pela FOLHA recomendam quatro ações fundamentais. O planejamento da semeadura antecipada, garantindo as condições adequadas de desenvolvimento no campo; o cuidado na implantação e distribuição de sementes (por serem muito miúdas, a cultura não exige grande quantidade por hectare, mas demanda cuidado especial com a uniformidade de distribuição no solo); observar o ponto exato da colheita e a regulagem precisa da colheitadeira; vedar bem o caminhão e as instalações de armazenagem para não perder os grãos que são muito pequenos e o manejo preventivo de plantas daninhas, considerado o ponto crítico do cultivo. Outra indicação é realizar uma dessecação preventiva antes da semeadura para que a planta se estabeleça em ambiente limpo.

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