Depois da cana e do milho, carinata pode ocupar espaço de destaque no futuro da agroenergia
Ascensão da prima da canola no Sul sinaliza que culturas de inverno podem passar por transformação para atender nova demanda de combustível verde na aviação e na navegação
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de outubro de 2026
Ascensão da prima da canola no Sul sinaliza que culturas de inverno podem passar por transformação para atender nova demanda de combustível verde na aviação e na navegação
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

A carinata - ou mostarda-etíope - está chamando cada vez mais atenção no agronegócio. Da mesma família botânica da canola (Brassicaceae, do gênero Brassica), a planta está se consolidando como opção atraente para alternar com as lavouras de soja no inverno. Primeiro porque a rentabilidade pouco empolgante do milho e do trigo estimula a diversificação e, o mais importante, as perspectivas de demanda têm crescido à medida que a legislação vai escalando para adicionar mais mistura de óleo renovável aos combustíveis fósseis. Ela é tóxica para o consumo humano pelo seu alto teor de ácido erúcico - 20 vezes mais que a canola - e muito indicada para a fabricação de um óleo com longas cadeias de carbono e baixa temperatura de congelamento, compatível com o querosene de aviação.
“A integração da carinata no sistema de segunda safra (safrinha), em sucessão imediata à colheita da soja, estabelece um natural hedge financeiro para o produtor rural ao mitigar a volatilidade histórica associada ao trigo”, explica Luiz Gustavo Floss, mestre em Agronomia pela Universidade de Passo Fundo, atual diretor de Relações Institucionais e ex-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Canola.
“O custo operacional de produção, estimado em cerca de uma tonelada por hectare, proporciona uma margem líquida elevada, que pode alcançar R$ 2 mil por hectare. Essa rentabilidade é sustentada por cotações de mercado garantidas em contratos de fomento com preço fixado acima das cotações spot da soja, reduzindo drasticamente o risco de contraparte”, afirma. “Outra vantagem é que a introdução do cultivo transforma áreas de entressafra e pouso em ativos geradores de caixa, diversificando a matriz de receita sem comprometer o calendário da safra principal.”
Rio Grande do Sul é líder
Floss teria motivos para estar desanimado, mas é firme na defesa da oleaginosa. No Rio Grande do Sul, onde ele vive, a cultura está em fase de enchimento de grãos ou maturação, dependendo da região, mas temporais com granizo vão reduzir a produtividade das lavouras, com acamamento das plantas e queda das síliquas, estruturas na qual as sementes se desenvolvem. Segundo dados da Emater/RS-Ascar, as intempéries acometeram a produção quando apenas 5% da área cultivada no estado - cerca de 12 mil hectares - havia sido colhida. O estado lidera a produção brasileira e as estimativas são que a área plantada pode se multiplicar por quase nove vezes em 2027.

No Paraná, o cultivo ainda é incipiente, apesar de algumas experiências isoladas. “A gente acredita muito que tem um potencial muito interessante no pós-soja no Paraná, principalmente nas regiões mais quentes e com menos chuvas durante a primavera”, avalia Floss. Para ele, a região central e o Oeste do Estado devem se tornar os principais pólos de cultivo, mas as terras altas do Norte do Estado e o Sul também podem ter importância para a produção nacional na próxima década. “A carinata aguenta muito frio, inclusive geada, e também aguenta calor, porque ela foi desenvolvida em regiões de dias muito quentes e áridos. Onde é mais quente, o ciclo é menor, onde é mais frio, menor. Então é fácil de se adaptar a qualquer rotação.”
Outro argumento dos defensores do cultivo da carinata é a saúde do solo. O pesquisador Bruno Galveas Laviola, da Embrapa Agroenergia, em Brasília, lembra que as substâncias naturais da planta têm uma capacidade valiosa: o combate aos nematóides. “Como a soja é muito suscetível a esses vermes de raiz, usar a carinata na rotação de safrinha ajuda a limpar o solo para a safra principal”, informa.
Expansão se concentra em áreas frias
Por enquanto, assim como aconteceu com a canola, os investimentos das multinacionais de sementes que estão induzindo o plantio no Brasil vêm ocorrendo em áreas mais frias, onde se planta trigo, aveia ou centeio. “Mas as pesquisas com canola estão avançadas e, em breve, ela já estará tropicalizada. O mesmo deve acontecer com a carinata quando ela ganhar escala”, prevê Laviola.
O Deral (Departamento de Economia Rural) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento informou em seu último boletim que a canola foi a única cultura de inverno que escapou da quebra pelo excesso de chuvas, justamente pelo aumento exponencial da área plantada. O volume total de grãos de inverno registrou queda de 28% em relação a 2025 - de 3,9 milhões para 2,8 milhões de toneladas. O trigo encolheu 34%, a aveia preta 23%,o triticale 21% e o centeio 15%. Já a canola cresceu 115% na produção para 11,3 mil toneladas, numa área plantada 148% maior, de 6,6 mil hectares (o Deral ainda não distingue a canola da carinata no levantamento).
A canola em rápida expansão no Estado deve ajudar a impulsionar a carinata nas próximas safras. De acordo com os especialistas, a experiência positiva da primeira deve ajudar na propaganda da segunda. Esta expansão deve estimular projetos de industrialização das cooperativas para a produção de óleo. “A capacidade de recebimento e de processamento de matéria-prima do Paraná é inegável e não só das cooperativas. Já temos uma empresa esmagando o grão no Rio Grande do Sul, mas a demanda vai continuar crescendo e outras unidades vão surgir, até mesmo para a produção do biocombustível de aviação. Com certeza, o Paraná vai se destacar neste processo”, afirma o gaúcho.
Matéria-prima para refinarias na Europa
Laviola fala com convicção sobre o potencial do Brasil como fornecedor global de SAF (Sustainable Aviation Fuel), a mistura vegetal que está para a aviação como as baterias de lítio para o mercado de carros. Com as metas internacionais de descarbonização, os especialistas estimam que a demanda poderá alcançar até 400 bilhões de litros de óleo renovável no mundo em meados da próxima década. “Não tem como fugir do Brasil esta solução. Temos abundância de terra e capacidade para dar suporte a esta grande escala. Temos o desafio de estruturar estas instalações industriais, que são semelhantes a refinarias de petróleo. Não se produz SAF e diesel renovável em usinas tradicionais de biodiesel”, pondera. Atualmente, as multinacionais que estimulam a produção de carinata e compram a produção, acabam exportando a matéria-prima para a França e para a Bélgica, onde as maiores refinarias da Europa estão instaladas.
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A aprovação da Lei do Combustível do Futuro é vista como o sinalizador regulatório fundamental. Sancionada em outubro de 2024, a lei é considerada um marco da transição energética no Brasil e institui o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), que tem como objetivo o incentivo à pesquisa, produção, comercialização e uso do SAF na matriz energética brasileira. Pela nova política, os operadores aéreos ficam obrigados a reduzir as emissões de dióxido de carbono entre 1% a partir de 2027, alcançando redução de 10% em 2037.
Mas o mercado externo é ainda mais promissor, em especial a União Europeia. Desde 2025, todos os voos que partem de aeroportos do bloco devem utilizar pelo menos 2% de SAF em sua mistura. Estas cotas vão aumentar a cada cinco anos. Em 2030, a fatia de SAF salta para 6%; em 2035 para 20% e 34% em 2040. Por ser estritamente não alimentar, o óleo da carinata atende com perfeição às exigências de não-concorrência pelo uso da terra (o conceito food versus fuel) estabelecido pelos europeus. O biobunker, que é o combustível renovável para navios de grandes dimensões, também é outro mercado em franco desenvolvimento na Europa e que está monitorando a produção de carinata no mundo.
Rusticidade poupa meio ambiente de defensivos
Além de consolidar uma alternativa financeira na entressafra e conferir benefícios sistêmicos ao solo e ao equilíbrio fitossanitário do ecossistema agrícola, a economia verde também considera ainda um outro ponto para eleger a carinata como candidata a sensação na agroenergia. Apresentando rusticidade agronômica superior à da canola e menor exigência em fertilizantes sintéticos e defensivos agrícolas, a cultura reduz a intensidade de emissões de carbono do sistema produtivo.
No entanto, os especialistas de mercado alertam que antes de se decidir pelo plantio de uma cultura ainda alternativa é necessário mapear o mercado ou garantir a venda com contrato. Eles também apontam que avaliar a rentabilidade em comparação com outras culturas mais tradicionais também ajuda a tomar uma decisão mais segura, assim como se a exigência de manejo se encaixa no perfil da propriedade. O perfil de produtor mais indicado para correr este risco, afirmam, é aquele mais tecnificado, mais capitalizado e com mais histórico de inovação em implementos e recursos tecnológicos.
Do ponto de vista agronômico, os especialistas ouvidos pela FOLHA recomendam quatro ações fundamentais. O planejamento da semeadura antecipada, garantindo as condições adequadas de desenvolvimento no campo; o cuidado na implantação e distribuição de sementes (por serem muito miúdas, a cultura não exige grande quantidade por hectare, mas demanda cuidado especial com a uniformidade de distribuição no solo); observar o ponto exato da colheita e a regulagem precisa da colheitadeira; vedar bem o caminhão e as instalações de armazenagem para não perder os grãos que são muito pequenos e o manejo preventivo de plantas daninhas, considerado o ponto crítico do cultivo. Outra indicação é realizar uma dessecação preventiva antes da semeadura para que a planta se estabeleça em ambiente limpo.


