O Paraná há muito tempo não abria concurso para o magistério de 5ª à 8ª séries e 2º grau, hoje ensinos fundamental e médio. Trabalhávamos como professores suplementaristas e, após muitos anos e seguindo alguns critérios, fomos efetivados através de um decreto do governo do Estado. A escolha de vagas foi em Curitiba e muitos ônibus com professores saíram do interior para a capital.

Não me lembro onde foi a escolha, mas era uma sala enorme, parecendo um anfiteatro e, em uma das paredes, um grande mapa do Paraná. À frente, as mesas com o pessoal da secretaria e dos núcleos que iria nos atender. Fomos separados por disciplina; cada professor tinha em mãos a relação de vagas. Acompanhávamos atentos, torcendo para que nossa vaga não fosse preenchida. De vez em quando, professores perguntavam:

- Alguém sabe onde fica Ampere? E Ventania?

- Barracão, quem conhece?

- Pessoal, onde fica Uniflor? Tem vaga lá.

Como não obtivessem respostas, os professores corriam para ver no mapa a localização e a distância das cidades. Eu, acompanhando atenta, riscava as vagas preenchidas perto de Londrina, Cambé, Ibiporã, Rolândia, Cornélio, Apucarana, etc. Quando estava perto de ser chamada, a vaga era de uma escola em Ivaiporã. Corri até o mapa, vi a distância e perguntei:

- Gente, quantos quilômetros têm de Londrina a Ivaiporã?

- Quase 200, respondeu uma professora.

Teria que dormir dois dias lá. A vaga era na Escola Estadual “Presidente Kennedy“; gostei do nome e preenchi a vaga. Alguns professores não escolheram por ser muito longe de sua cidade, principalmente mães de família. Nós que trabalharíamos em Ivaiporã, reunimo-nos e fomos tomar posse lá no núcleo da cidade. Depois de ter assinado, perguntei ao rapaz que tinha me atendido se a escola “Presidente Kennedy“ ficava na cidade. Ele riu como que “tirando sarro” e respondeu:

- Professora, ela fica em Ariranha, distrito de Ivaiporã; até lá dá uns 22 km de terra, só tem um ônibus que não tem um horário muito certinho. Daí você tem que ir de táxi, esperar a lotação para não ter que pagar sozinha. Ah, nos dias de chuva, não tem condução nenhuma para Ariranha.

Não, eu não estava escutando aquilo... Meu Deus!! Minhas colegas pegaram também escolas em outros distritos. Mas tudo bem, temos que trabalhar mesmo. Meu pai me levou pra assumir a vaga em Ariranha. Era uma pequena escola, limpinha; a diretora era a Izaíra e a secretária era a Lena, minhas amigas até hoje. Também combinei pousar duas noites e tomar as refeições na casa da Lena, onde dona Dita, sua mãe, tratava-me muito bem.

Trabalhava até quarta de manhã em Londrina. À tarde viajava para Ariranha, voltava na sexta depois do almoço e dava a última aula no “Evaristo da Veiga” para completar as 40 horas. Chegava na sexta, os professores se encontravam no ônibus, cansados, mas felizes de volta para casa. O ônibus era o Expresso Nordeste, um “pinga-pinga” que parava em todas as rodoviárias, de Mauá da Serra, Faxinal, Cruzmaltina, Lidianópolis, Jardim Alegre e Ivaiporã. Chegava bem tarde, muitas vezes perdia o ônibus para Ararinha, então ficava na lanchonete esperando o táxi. Quando estava com a lotação completa, o motorista vinha e falava:

- Professora, já podemos ir.

Muitas vezes passava mal na viagem de Londrina a Ivaiporã, então descia do ônibus e corria para a farmácia para tomar injeção ou tomar algum remédio. Outras vezes, eu aguentava e a dona Dita fazia chá ou outro remédio caseiro para eu melhorar e dar as cinco aulas à noite. E quando chovia demais por lá, eles telefonavam para eu não ir. E assim foi o ano todo.

Compensou todo o sacrifício, porque conheci pessoas generosas, simples de Ariranha; meus alunos eram a maioria do sítio, da roça, puros, simples, dedicados, com aquela vontade de aprender, de querer ser alguém na vida. Nunca eu voltava de mãos vazias; trazia frutas, verduras e legumes para casa. Pessoal maravilhoso de Ariranha e agradeço a Deus por tudo que conheci e aprendi lá.

Também tenho que dizer que naquele ano, acho que 1983, muitos professores se acidentaram nas estradas do Paraná. E, no ano seguinte, houve o concurso de remoção e aqui estava eu tomando exercício na Escola Estadual do Conjunto Habitacional “João Paz“ de Londrina.

Idiméia de Castro, leitora da FOLHA.

mockup