Dedo de Prosa | Problemas


Celso Felizardo
Celso Felizardo

 

Dedo de Prosa | Problemas
Marco Jacobsen
 

 

Dedo de Prosa | Problemas
Marco Jacobsen
 

“Bem no fundo no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto. A partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela silêncio perpétuo extinto por lei. Todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais. Mas problemas não se resolvem, Problemas têm família grande e aos domingos saem todos passear: o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas”. 

Os versos da poesia Bem no Fundo, de Paulo Leminski, aqui adaptados em forma de prosa, exprimem com maestria nosso desejo de que todas as situações adversas que nos afligem desaparecessem com a rapidez de um estalar de dedos. Com certeza, você que lê esta crônica agora também carrega sua lista mental de probleminhas a serem resolvidos. Mas Leminiski era bicho da cidade grande, da capital do leite quente pasteurizado. Como estamos em um suplemento rural, caro leitor, vamos nos debruçar sobre as atribulações do homem do campo.

Seguem algumas delas: “Rolê de globo da morte, gaio de pau quebrano, moto estralano, escapamento estorano, cano ficano vermeio, colhedeira passano por cima da semente, engastaiano a boca em estaca de pau, quebrano os dente tudo, rebentano arame, trator trabaiano com óleo de cabana até motor fundir, biela bateno, engrenagem empenano, cano de trator engastaiado, cavalo pulano, vaca entrano por meio de roça”. 

O metafórico diálogo entre Caio e Rodolffo no Big Brother Brasil 21, comparando o clima pesado no reality show - o “fogo no parquinho” -  aos perrengues enfrentados na fazenda, tornou-se meme e foi até usado em publicidade. Brincadeiras à parte, o fato é que só quem mora no campo sabe o quão difícil é a lida na roça. Para as prateleiras do mercado ficarem cheias, é preciso muito trabalho pesado.

Uma das virtudes necessárias ao homem do campo é a paciência. Não é nada fácil acordar e saber que a bomba d’água enguiçou de novo, a vaca perdeu a cria, o arado foi roubado, a geada queimou, a bicheira atacou, a ferrugem apareceu. E tudo fica mais difícil quando o tempo resolve não colaborar: o pasto seca, o gado emagrece, a lavoura se perde.

O Paraná enfrenta uma das maiores secas de sua história e as notícias não são nada animadoras. Os jornais dão conta de que a produção de leite diminui no Paraná em razão das condições climáticas, que a seca ameaça a produtividade das lavouras de milho safrinha no Paraná e Mato Grosso do Sul. O que torna tudo mais grave é que a estiagem já se prolonga por algum tempo. Tanto que algumas regiões do Estado adotam até rodízio no abastecimento de água. 

Mas do que paciência, ao homem do campo é indispensável a tal da resiliência, mais uma dessas palavrinhas que entram na moda e o sujeito da cidade grande enche a boca pra falar, com ar de autoridade: RE-SI-LI-ÊN-CI-A. No sítio, essa tal capacidade de se recuperar de situações adversas não tem nome, não. De tão comum, só é conhecida como sobreviver mesmo. 

À essa altura, depois de tanto papo furado, o leitor deve estar se perguntando: “O BBB acabou já faz um tempo, a estiagem vem desde o ano passado. Por que essa crônica só agora?”. Desculpe se minha crônica soa anacrônica, mas só tive tempo de redigí-la agora. Sabe como é, são muitos problemas: computador travano, internet caino, doença atacano, máscara moiano, boleto chegano, mercado quaiado de gente...


Leia também: https://www.folhadelondrina.com.br/folha-rural/dedo-de-prosa-minha-tia-nene-3071510e.html


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