Dedo de Prosa - Algumas lembranças
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de setembro de 2022
Idiméia de Castro 
A tarefa de limpar e lavar a nossa igreja em Sertaneja era de alguns voluntários homens e mulheres e a minha mãe era responsável pelo altar-mor. Quando chegava o dia, ela chamava o Dadá, o Idivar, a Idivanda e eu para ajudá-la. Eu vivia “grudada“ no rádio ouvindo o programa “Campeões da Semana“, do Enzo de Almeida Passos, na Rádio Bandeirantes, de São Paulo.

Ele tocava as músicas mais ouvidas e falava dos discos mais vendidos no momento, os LPs, compactos simples e compactos duplos. Isso mesmo, era o início dos anos 1960, eu ouvia muito programa e novelas de rádio, do Enzo, do Barros de Alencar, do Luciano Musetti (Rádio Difusora), Dirceu Daniel (Rádio Clube), Antônio Belinati (Rádio Londrina), Álvaro Dias e Antenor Ribeiro (Rádio Atalaia).
Tenho até hoje guardado comigo seleção de músicas e filmes importantes da época e com o elenco principal. Filmes clássicos como: "Uma cruz à beira do abismo", "Só ficou a saudade", "Gigantes em luta", "Até os fortes vacilam", "Ben Hur", "Amor, sublime amor", "Candelabro italiano", "O dólar furado", "A princesa e o plebeu", "Juventude transviada", "Assim caminha a humanidade", "A noviça rebelde", todos da Sissi, etc.
Os artistas: Alan Ladd, Alain Delon, Audrey Hepburn, Natalie Wood, Liz Taylor, Sandra Dee, John Saxon, John Gavin, James Dean, Anthony Perkins, Tony Curtis, Rock Hudson, John Wayne, Charlton Heston, Terence Stamp, Romy Schneider, Troy Donahue, etc. Eu assistia à quase todos os filmes e sabia dos artistas. Eu era uma cinéfila; muito longe de ser um Carlos Eduardo L. Jorge.
A mamãe saía com meus irmãos e falava:
- Didi, estamos indo. Não demore.
- É só terminar o programa do Enzo que já vou, mamãe.
Terminava o programa e lá ia eu encontrá-los na igreja. Era ainda época das missas em que o padre rezava de costas para os fieis. O sacrário, no meio; de lado, havia os nichos com algumas imagens de santos e o lugar onde se colocavam os vasos. Nem sei como conseguíamos subir para pegá-los e levar para a mamãe lá na sacristia.
Tínhamos na época 10, 9, 8, 7 anos, éramos crianças. Os vasos eram longos, estreitos e bem leves, acho que de alumínio. Jogávamos a água na pia, as flores murchas no recipiente de lixo. A mamãe lavava os vasos, punha as flores novas e, então, levávamos de volta no altar. Lembro-me de uma toalha marron que minha mãe costurou e bordou em vermelho, com ponto cheio as iniciais JHS ( Jesus, Salvador dos Homens ), para usar na mesa do altar no dia a dia.
Depois do rádio, a televisão. Ah, como gosto desta invenção! Começamos com uma Admiral, preto e branco; depois Telefunken. Sempre alguém subindo no telhado, levando bombril para tirar os chuviscos da tela e deixá-la mais visível. Os da minha época sabem como era. Lá do telhado, perguntava:
- Está boa ?
- Não. Vira mais um pouco a antena. Isso.
- Melhorou ?
- Melhorou. Pode descer.
Depois veio a tevê colorida e sempre melhorando. Foi minha época de ver novelas de rádio e televisão. Hoje, assisto às temporadas de séries policiais, como CSI-Miami, CSI-Nova York, Chicago PD, SWAT, todas do FBI e Internacional e, no momento, iniciei Seal Team.
Vi todos os episódios de Dowton Abbey e Bridgertons, que retratam a sociedade britânica dos séculos 18, 19 e 20. Bom, vocês devem estar se perguntando: e o celular? Bom, não sou apegada, saio muitas vezes sem ele. Uso para registrar momentos especiais com a família, amigos e em minhas viagens. Pego à noite quando não tenho mais serviço, coloco em dia as postagens, vejo mais alguma coisa, ouço algumas músicas, faço minhas orações e vou dormir. Agora, minha irmã entra no quarto, acende a vela em nossa cômoda e vamos rezar a Quaresma de São Miguel Arcanjo com o Padre Alex, de Jacarezinho. Estamos rezando para a nossa família, para os nossos amigos, para o povo brasileiro e para o Brasil.
Idiméia de Castro, leitora da FOLHA


