Cadeia produtiva aponta desafios para soja brasileira
Seminário discutiu as exigências fitossanitárias da China para importar a soja brasileira e os impactos das medidas tarifárias dos Estados Unidos
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de agosto de 2025
Seminário discutiu as exigências fitossanitárias da China para importar a soja brasileira e os impactos das medidas tarifárias dos Estados Unidos
Aline Machado Parodi - Especial para a FOLHA 

Pesquisadores, associações de produtores, cooperativas, indústrias e outros players da cadeia da soja participaram nos dias 19 e 20 de agosto, do 7º Seminário Desafios da Liderança Brasileira no Mercado Mundial da Soja, realizado na Embrapa Soja, em Londrina.
Entre os tópicos em debate estavam a relação Brasil-China, diante das exigências chinesas de maior controle de qualidade da soja brasileira exportada e os possíveis impactos do cenário comercial mundial, com as medidas tarifárias dos Estados Unidos.
A soja é o principal produto de exportação agrícola brasileiro e, do total exportado, em média, aproximadamente 75% tem como destino a China. O Brasil e o país asiático têm uma dependência entre ambos. Em 2024, o Brasil exportou 74 milhões de toneladas para a China.
Este ano, a produção nacional deve fechar em 169 milhões de toneladas, das quais 107 mi estão sendo exportadas e, quase 80% está indo para os chineses.
De acordo com a coordenadora do núcleo de Ásia do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), Larissa Wachholz, a China não se sente confortável com a dependência excessiva de um único fornecedor e lembra que os Estados Unidos desejam aumentar a sua exportação de soja para a China.
Os dois países estão negociando um acordo comercial. Em um primeiro olhar, segundo Alexandre Lima Nepomuceno, chefe geral da Embrapa Soja, o tarifaço dos Estados Unidos ao Brasil pode afetar positivamente as exportações de soja para a China. Mas, lembra que 40% da soja produzida fica no Brasil para a produção de carne e de biodiesel e essa produção pode ter reflexos negativos.
Um exemplo do uso da soja é na produção de tilápia, que é exportada para os Estados Unidos. Com o tarifaço pode haver redução de produção do peixe, em consequência, a redução do consumo de soja. “É um efeito dominó que, às vezes, parece que não vai acontecer. Fora outras coisas. A gente sabe que, por exemplo, os americanos estão negociando com a China para que eles aumentem as importações de soja. Quatro vezes não tem como, porque eles consomem muito internamente. Mas e se aumentar 20% ou 30%?”, questionou o chefe geral da Embrapa Soja.
O vice-presidente da Aprosoja/MS (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul), André Dobashi, acredita que a guerra comercial que os Estados Unidos estão travando com o resto do mundo, por meio das tarifas, pode fortalecer ainda mais a parceria com a China.

“Se os Estados Unidos miram a gente com um tarifaço, automaticamente a gente cai no colo da China”, analisou. Mas, segundo ele, se não houver uma reversão do cenário mundial, isso pode afetar, principalmente, fertilizantes que têm um peso gigante no custo de produção. “Eu acho que os Estados Unidos têm como influenciar nisso, mas também nos defensivos, que de uma maneira ou de outra, a gente também é bastante dependente do mercado externo”, disse o vice-presidente da Aprosoja/MS.
RIGOR FITOSSANITÁRIO
O chefe geral da Embrapa, Alexandre Lima Nepomuceno, enfatizou que a China está cada vez mais exigente sobre a qualidade da soja. “Tem uma série de regras que temos que estar atentos porque eles podem usar como barreiras não tarifárias. A tua soja não é boa, mas eu compro se tu baixar o preço, entendeu? Então, tem isso”, disse, enfatizando a importância de eventos como o Seminário realizado pela Embrapa Soja, para debater esses cenários.
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A presença de pragas quarentenárias e de sementes tratadas nas cargas de soja exportadas têm feito a China notificar o Brasil e pode colocar em risco a valorização dos grãos. O diretor do Dipov (Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal), do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), Hugo Caruso explica que as normas fitossanitários permitem até 1% de impurezas na soja, mas quando se trata de plantas daninhas quarentenárias, elas não podem estar presentes.
“Tivemos inclusive, esse ano, cinco empresas que foram suspensas para exportação de soja, mas conseguimos reverter a situação nos comprometendo que resolveríamos o problema. Por isso, precisamos ter toda a cadeia produtiva ciente das suas responsabilidades para não provocar complicações nas nossas exportações”, alertou Caruso. Ele afirmou que o Dipov vem fazendo fiscalizações nas empresas, auditorias nos exportadores para monitorar a presença dessas pragas. De acordo com Caruso, o governo não descarta medidas mais duras para garantir o processo de exportação.
Outro problema que a China vem reportando é a presença de sementes tratadas nos carregamentos de soja. Isso é proibido lá. Segundo Caruso, isso ocorre porque o produtor não quer perder a semente que sobrou e coloca junto com os grãos que vai comercializar. As sementes tratadas não podem ser utilizadas para consumo.
Ele conta que, no passado, o Brasil já teve cargas rechaçadas pela China por causa disso. “A gente pode voltar a ter cargas rechaçadas ou mesmo destruídas pela presença dessas sementes”, afirmou Caruso. Caso a presença de sementes tratadas se torne algo corriqueiro nos carregamentos para a China, os chineses podem desvalorizar o produto brasileiro ou proibir a exportação a partir de determinado porto, por exemplo, e assim impactando nos custos de exportação.
Além das auditorias e das exigências de maior controle das impurezas, o governo estuda mudanças na regulamentação, de forma que os terminais portuários também possam se registrar e ter um controle efetivo do que entra.
“Estamos criando um painel para monitorar a qualidade da soja que está sendo colocada dentro do navio”, disse Caruso. Ele acredita que a China ainda não tomou medidas mais drásticas por causa da boa relação com o Brasil. A relação é tão boa, segundo ele, que os chineses estão propondo cooperação técnica para melhorarmos a qualidade da soja no Brasil, do ponto de vista de umidade, grãos ardidos, fermentados.




