Da fixação biológica de nitrogênio na soja ao controle de pragas e doenças, os bioinsumos vêm ampliando espaço na agricultura. A tecnologia, que utiliza produtos ou processos de origem vegetal, animal ou microbiana, já é adotada por grandes produtores e por agricultores familiares.

O conceito de bioinsumos é amplo. “Estamos falando de produtos ou processos de origem vegetal, animal ou até de origem de microrganismos ou origem microbiana que podem ser utilizados na agricultura para, de alguma forma, melhorar a planta e a fertilidade do solo, estimular ou controlar doenças e outras pragas das plantas de uma forma sustentável, utilizando produtos naturais de origem no ecossistema”, explicou o professor Admilton Gonçalves de Oliveira, coordenador do Labim (Laboratório de Biotecnologia Microbiana) e diretor da Agência de Inovação Tecnológica da UEL (Universidade Estadual de Londrina).

Segundo Oliveira, o Brasil está entre os principais usuários e desenvolvedores dessas tecnologias. “Temos uma agricultura extremamente sustentável no Brasil, desde a implementação e utilização das soluções para fixação de nitrogênio, os inoculantes, como também os defensivos biológicos para controle de doenças em plantas”, disse. O país também possui capacidade de transformar a pesquisa acadêmica em produtos comerciais. O Labim, por exemplo, tem quatro soluções biológicas para controle de doenças em plantas licenciadas e um produto já está no mercado.

O pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Soja, André Mateus Prando, lembra que pesquisa com bioinsumos não é recente. “A história da pesquisa vem de bastante tempo. É uma vida inteira de pesquisadores dedicada aos bioinsumos. Eu diria que temos pelo menos 50 anos de pesquisa na Embrapa, além de estudos ainda mais antigos”, afirmou o pesquisador.

Uma das pesquisas mais consolidadas é para fixação biológica de nitrogênio na plantação de soja. Para isso é utilizada na inoculação da soja a bactéria Bradyrhizobium. “Utilizando esse inoculante de forma adequada, é possível substituir totalmente a adubação com fertilizante nitrogenado na forma de ureia ou nitrato de amônio. A utilização do Bradyrhizobium na soja substitui totalmente a adubação nitrogenada na cultura, gerando grande economia e tornando a soja do Brasil tão competitiva”, explicou o pesquisador.

Os resultados podem ser ampliados, caso o produtor faça a coinoculação, com Bradyrhizobium e Azospirillum. “O produtor que faz a inoculação com Bradyrhizobium e acrescenta outra bactéria, o Azospirillum, obtém um ganho médio de receita de R$ 510 por hectare, com aumento de 8% na produtividade, utilizando produtos acessíveis e de baixo custo”, disse Prando. A inoculação ocorre durante a semeadura. “Ela pode ser feita adicionando o produto na semente ou via equipamento diretamente no sulco de semeadura”, explicou o pesquisador.

Segundo Prando, cerca de 85% dos produtores brasileiros utilizam inoculantes na cultura. No Paraná, porém, o índice cai para 70%, conforme levantamento feito pela Embrapa em parceria com extensionistas do IDR-PR (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná).

Imagem ilustrativa da imagem Bioinsumos ganham espaço e mudam manejo das lavouras
| Foto: Criado por IA/ Gemini

Para o professor da UEL, a adoção dos bioinsumos também pode representar um diferencial para a agricultura brasileira no mercado internacional. “A utilização de tecnologias biológicas que não agridem o planeta nem o solo, que trazem benefícios muito importantes ao solo e ao desenvolvimento da planta e que não têm potencial tóxico para animais, seres humanos, traz um potencial competitivo a todos que utilizam e também ao Brasil por ter esse protagonismo”, afirmou Oliveira.

Experiência no campo

Em Sabáudia (Centro-Norte), a produtora rural Cláudia D’Agostini trabalha com soja, milho e trigo e utiliza produtos biológicos há cerca de seis anos como prioridade na propriedade de 170 alqueires.

“Aquilo que a gente consegue ir mais para o lado de biológico para utilizar, a gente vai dando preferência. Tanto na parte de inoculação, coinoculação, algum tipo de produto para solo, um trichoderma (bioestimulante da planta), alguma coisa para doenças de solo”, disse.

D’Agostini explica que a escolha por soluções biológicas é por questões econômicas e preocupação ambiental. “Eu acho que, em primeiro lugar, a gente não pode tomar prejuízo na atividade. Então tem que ser viável. Mas se a gente chegar à conclusão de que é viável, e mesmo custando às vezes um pouquinho mais caro do que um químico, a gente tem a preferência por um biológico por essa questão ambiental.”

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Ela conta que uma experiência com o controle de percevejos mudou a percepção da família sobre os custos. Em uma área, o manejo químico exigiu seis aplicações do produto. Em outra, onde um produto biológico foi utilizado primeiro, foram necessárias três aplicações químicas.

“Num primeiro momento parecia que poderia ser um custo maior, mas a longo prazo se mostrou mais econômico. Então, aí a gente passou a olhar para o biológico com um olhar diferente. Não é só o que ele está me resolvendo ali de praga, é o que ele está me dando de equilíbrio, de residual, para gente conseguir essa questão mesmo de equilíbrio dentro da lavoura para você não precisar ficar fazendo tantas pulverizações.” Cláudia afirma que a assistência técnica é fundamental na escolha dos produtos.

Produção dentro da fazenda exige cuidados

A minuta do decreto para regulamentação da Lei de Bioinsumo, aprovada em 2024, deve ser publicada nos próximos meses. Entre os tópicos previstos pela nova legislação está a produção bioinsumo on-farm, ou seja, dentro da propriedade rural.

Esse ponto ainda gera dúvida no setor. Para o professor da UEL, Admilton Gonçalves de Oliveira, o principal cuidado com a produção on-farm é evitar contaminações durante a multiplicação de microrganismos. “A produção de bioinsumo microbiano exige não só uma qualificação da própria unidade de fabricação, equipamentos, instalação dos equipamentos e local, mas também um grande treinamento”, disse. Ele acrescenta que “é necessária uma equipe técnica altamente treinada para atividades de produção de microrganismos.”

O risco, segundo o professor, está na possibilidade de contaminação. “Uma fabricação de um bioinsumo microbiano sem um cuidado de assepsia, sem um cuidado relacionado a contaminantes, pode gerar um produto com inconformidades. E, nessas inconformidades, o menor dos problemas seria ele não funcionar. A grande preocupação é com as pessoas. Se por acaso houver patógenos humanos, pode causar graves problemas na população e também pode conter patógenos das próprias plantas, podendo causar um grave prejuízo para o agricultor”, alertou.

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| Foto: André Mateus Prando/Embrapa/Divulgação

O pesquisador da Embrapa, André Mateus Prando também ressalta a necessidade de controle. “Existe o risco de o produtor achar que está produzindo um elemento e na verdade estar multiplicando outro que, ao invés de ajudar na produtividade, pode prejudicar a lavoura.”

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