Bananas e o novo risco do Mal do Panamá
O retorno de uma doença fúngica, que já fez um estrago no passado, preocupa pesquisadores e produtores do Paraná
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de setembro de 2019
O retorno de uma doença fúngica, que já fez um estrago no passado, preocupa pesquisadores e produtores do Paraná
Victor Lopes - Grupo Folha
Quem olha para o futuro
da produção de bananas no Brasil se depara com um cenário,
digamos, quase apocalíptico. Pode parecer exagero, mas o alerta
vermelho está ligado para o retorno de uma doença fúngica que já
fez um estrago no passado e se espalha pelo mundo novamente de forma
bem agressiva. A murcha de Fusarium – ou Mal do Panamá, da raça
4 - preocupa pesquisadores e produtores de todo o planeta, e o
Paraná, em meio a dois dos principais estados produtores do Brasil
(SP e SC), também pode entrar na rota da doença que recentemente
chegou a América do Sul, pela Colômbia.
A doença, que foi reportada pela primeira vez na Austrália em 1876, dizimou 40 mil hectares de banana entre 1900 e 1960 na América Central, principalmente Panamá e Costa Rica. O ataque do fungo foi tão grande – na época, da raça 1 – que os exportadores foram obrigados a deixar de produzir a Gros Michel, em busca de outras variedades resistentes, partindo para a prata, nanica e caturra (as duas últimas, do subgrupo Cavendish, muito plantado no Brasil e no Paraná).
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Aliás, aqui no País, o Mal do Panamá da raça 1 entrou em 1930 e foi um dos principais responsáveis pela diminuição significativa do volume da banana maçã. “A variedade maçã que na época era bem consumida e muito plantada, principalmente em São Paulo, até hoje sofre com os danos da raça 1, e por isso a redução da variedade no mercado”, relata o pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Fernando Haddad.
A questão é que agora
o fungo da raça 4 tropical ataca as variedades do subgrupo Cavendish
de forma tão assustadora quanto a raça 1 fez no passado, além da
prata e maçã. Ou seja, toda a produção nacional. A nova raça
surgiu na Indonésia e Malásia; em 1996 estava na China, e em 1997 no Norte
da Austrália, e se espalhou por diversos outros países, até que há
alguns meses foi reportada a chegada na Colômbia - por enquanto, o
único país da América do Sul com o fungo.
“O Impacto da doença é realmente muito drástico, destrói os bananais. Temos relatos de diminuição de exportação nos locais onde há a raça 4. Na China, são 150 mil hectares com o patógeno. Temos que fazer de tudo para que o fungo fique contido naquela região (da Colômbia)", alerta Haddad
O fungo penetra via sistema radicular através de ferimentos e é um habitante de solo, onde pode ficar viável por mais de 30 anos. Ele coloniza o rizoma da bananeira, sobe para o pseudocaule através dos feixes do xilema, causando um colapso na planta, que deixa de receber água e nutrientes. O sintoma típico da doença é o amarelecimento das folhas mais velhas, das bordas para as nervuras, depois parte para outras folhas, que murcham, como um guarda-chuva fechado, e morrem. Assim, a produção é interrompida. Vale dizer que o fungo afeta a bananeira, mas nada causa à saúde humana.
“Se o fungo se espalhar pelo Brasil, temos um agravante, pois a raça 1 já afeta nossos bananais de prata e maçã. Se a raça 4 for introduzida, não conseguiremos diferenciar visualmente qual é qual. Temos 500 mil hectares de banana no País, onde a maioria é suscetível à raça 1. Para contingenciamento de uma doença recém-introduzida, é de vital importância que se tome ações muito rápidas para conter o patógeno e talvez não teremos essa agilidade (devido a esse cenário).”
Medidas estão sendo tomadas na Colômbia para que o fungo não se dissemine pelos outros países da América do Sul, o que é bem complexo e gera insegurança nos produtores paranaenses (leia mais nesta edição). “Um plano de contenção para esse fungo tem que estar muito direcionado, com medidas de quarentena para evitar que o fungo disperse. Como principal forma de dispersão desse fungo nós temos insetos, maquinários, plantas daninhas, homem, ferramentas, solo, água, tudo isso tem que ser contido para não levar o fungo para novas áreas.”
Em Novo Itacolomi, produtores não querem “sofrer antes da hora”
“A gente está tentando não sofrer antes da hora, mas se chegar, não sei o que vamos fazer”. É dessa forma que o presidente da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Novo Itacolomi (Cofai), João Rodrigues, fala sobre a chegada do Mal do Panamá, raça 4, numa região importante na produção de banana caturra (nanicão) do Estado, um polo da região Norte.
A cooperativa possui 214 associados que produzem hortaliças, panificados e frutas, entre elas a banana, com média de 140 toneladas por semana vendidas nas Ceasas de Londrina e Maringá. São 35 produtores dedicados à cultura. No município, são mais de 400 hectares. Rodrigues, que produz em média 30 toneladas por hectare/ano salienta que sempre fica ressabiado com as doenças oriundas de outros países.
“Quando o governo no passado quis liberar a banana do Equador para o Brasil (o que acabou não acontecendo) ficamos preocupados com as doenças que têm por lá e não temos por aqui. A gente não sabe o que chega de lá. Agora sabendo que o Mal do Panamá já está na América do Sul...”, comenta, sem saber ao certo que a doença só está na Colômbia.
Rodrigues relata ainda que a cooperativa teve boa produção e rentabilidade nos últimos anos. Ele calcula que no ano passado a sobra entre os cooperados foi de R$ 400 mil. Neste ano, a geada de julho atrapalhou as boas projeções. “Daqui uns 30 a 40 dias, não sabemos como vai ser. Queimou tudo, esse mês ainda acho que produzimos alguma coisa, mas depois do dia 15 de outubro não sei o que vamos fazer. Não dá para saber ao certo, mas se estivesse pelo menos chovendo, poderia soltar mais alguns cachos, mesmo mais fracos.”
Por outro lado, o ponto positivo tem sido as vendas. A caixa da banana da cooperativa de 22 quilos é comercializada atualmente entre R$ 25 e R$ 28, e olha que a qualidade não está essas coisas. O preço normal gira na casa dos R$ 10, sendo em média de R$ 4 o custo de produção. “Hoje, as principais doenças que temos aqui são a sigatoka-amarela (também fungo) e a broca, mas temos melhorado o manejo. Essa semana tivemos aqui uma demonstração de pulverização com um novo equipamento. O principal custo ainda continua sendo a mão de obra.” (V.L.)
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