“Ela não tem medo de voar, cumprimenta a tripulação, senta e já coloca o cinto", diz Mariana Lemes, mãe de  Manuelly, 5
“Ela não tem medo de voar, cumprimenta a tripulação, senta e já coloca o cinto", diz Mariana Lemes, mãe de Manuelly, 5 | Foto: Arquivo Pessoal

Século 21 e a conciliação maternidade-trabalho continua sendo desafiador para muitas mulheres. Deixar um filho pequeno aos cuidados de outra pessoa (mesmo que esta seja tão responsável quanto) ainda desemboca em julgamentos, além da própria culpa em estar fazendo algo que lhe parece errado. Para uma comissária de voo, esse processo é ainda mais intenso. Ficar dias fora a trabalho exigiu coragem e muito apoio, mas hoje Mariana Pedroso Lemes, 35, comissária de voo da Azul Linhas Aéreas, vê na sua decisão um ato de amor tal qual ao de uma mãe que também precisou de coragem e apoio ao abandonar o emprego para cuidar do filho.

A escala soma 120 horas fora. Em casa, um bebê a ficar cinco noites sem a mãe. Quem sofre mais? “Hoje eu vejo que era mais difícil para mim do que para ela. É tudo fase, adaptação”, enxerga ela sob um aspecto positivo. Mas nem sempre foi assim. “Meu primeiro voo longo após a maternidade foi uma chave de quatro noites fora e eu lembro como se fosse hoje: eu descendo as escadas, fechando as malas, chorando, minha mãe falando que estava tudo bem”, comenta. Os pais da comissária saíam de Londrina a Campinas, cidade da base de Lemes, a cada 15 dias para dar suporte à família. “Eu brinco que eles (pai e mãe) têm quase a mesma hora de voo que eu”, ri.

Com essa ajuda e com tecnologia, ela recebia uma espécie de relatório do que a filha Manuelly, hoje com 5 anos, fazia. Foi assim, que o pai e avós contribuíram para que a profissional continuasse. “É que você acha que ninguém é capaz de cuidar do seu filho como você. Primeiro você acha que não vai aguentar, parece que tem que abrir mão de uma coisa que você ama fazer, mas depois vai percebendo que é uma questão de costume e adaptação”, conta.

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Lemes explica que existe uma regulamentação para as mães que trabalham na aviação. Durante a gravidez, elas não são autorizadas a voar, e no retorno da licença-maternidade, existe a escala amamentação, que é um período em que a mãe trabalha em voos que permitem retorno no mesmo dia. Nesse período e nos próximos que vieram, quando começou a ficar longe com frequência, foi preciso muito apoio. “Sozinha a gente não consegue, tem que ser humilde, senão não vai aguentar e vai querer desistir. Quanto tempo a gente passa estudando e se dedicando para estar nessa profissão? Pensei: 'não vou largar isso, preciso trabalhar porque eu amo minha filha e quero o melhor para ela'”, relata.

QUE VIAGEM!

Se para Lemes, deixar um bebê pequeno era doloroso, para Manuelly tudo não passou de uma brincadeira de criança. “Ela não tem medo de voar, cumprimenta a tripulação, senta e já coloca o cinto. Em casa, ela coloca meu sapato, pega a mala e dá tchau, falando que está indo trabalhar”, ri da brincadeira infantil. Reflexo de uma mãe que está feliz e consegue transmitir isso à filha. “Se você não está em um ambiente legal, isso dificulta e aí não vai aguentar mesmo, mas eu estou fazendo algo que amo.”

Além de ter mais contato com os avós, a mãe também conta que a filha tem hoje oportunidade de viver experiências únicas. “Eu sempre volto trazendo coisas diferentes de um lugar, ensinando sobre o local que fui. Ela também pode viajar, eu vejo comissários que têm filhos maiores, eles ficam felizes que podem viajar, acompanhar a mãe, conhecer vários lugares. Viajar é conhecimento que ninguém te tira, assim como o estudo, é algo seu e vai guardar para o resto da vida”, indica.

Ao mesmo tempo, ela entende que essa é uma escolha muito particular, por isso respeita a decisão de outras mães. Em uma análise própria, apesar das dificuldades, vê sua decisão como acertada. “Se eu estivesse parado quando achei que não daria conta, talvez não estivesse feliz, porque a Manu vai crescer e vai ter a profissão dela, e eu que parei minha vida só por achar que seria menos mãe que as outras? Isso não te torna menos mãe, não é menos amor. Ainda bem que não desisti, que não mudei de profissão, que não abri mão do que eu gosto, isso fez bem para nós duas”.

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