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Folha Mais 5m de leitura Atualizado em 01/11/2021, 08:37

Tragédia no set: como são feitas cenas de ação na dramaturgia

Morte da diretora Halyna Hutchins gera comoção e protestos nos Estados Unidos, além de dúvidas sobre uso de armas reais em filmagens

PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de outubro de 2021

Marcos Martins - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

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Imagem ilustrativa da imagem Tragédia no set: como são feitas cenas de ação na dramaturgia
|  Foto: Sam Wasson / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP
 

Elas variam conforme a produção. Podem ter balas que simulam munição real, serem completamente falsas, feitas de madeira ou borracha, ou até de verdade, mas que, por problemas de funcionamento, tornaram-se ineficazes. Reais ou falsas, as armas são itens corriqueiros nos sets de filmagens e nas telas, presentes nas cenas dos filmes de bang-bang e até em comédias românticas, sem falar em novelas e séries. Em geral, o uso balas de festim – uma munição sem o projétil, a parte que é responsável por ferir fatalmente quando é disparada – é o mais conhecido.

Era justamente essa a munição escolhida nas filmagens de “Rust”, no estado americano do Novo México, no último dia 21, quando uma tragédia chocou o mundo. Segundo o relatório da investigação preliminar, o ator Alec Baldwin, protagonista da produção, estava sentado em um banco de igreja no set, ensaiando uma cena em que apontava a arma cenográfica para a lente da câmera, quando disparou em direção à diretora de fotografia Halyna Hutchins. Ela recebeu um tiro no peito, colocou a mão na barriga e disse que não sentia as pernas, de acordo com informações do diretor do filme, Joel Souza, que estava próximo, também foi ferido, mas sem gravidade, e teria ouvido algo como “um chicote” e depois “um estalo forte”. Socorrida, Hutchins morreu horas depois. O incidente não foi gravado porque elenco e equipe ainda estavam se preparando para a cena. Até agora, ninguém foi detido pelo caso e ainda não foram apresentadas acusações.

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|  Foto: David McNew/ AFP
 

“As quatro partes que formam a munição são a espoleta, a cápsula, o propelente e o projétil. A espoleta gera a faísca que queima o propelente, sendo o mais conhecido a pólvora. A cápsula, que faz o isolamento da pólvora, não deixa que entrem ar ou qualquer outra substância dentro. Já o projétil é o que embala e deixa a cápsula fechada, até que o disparo seja feito. Nas balas de festim, não há um projétil, mas elas fazem barulho e fumaça por causa da queima da pólvora. Por isso são usadas em treinamentos e também na cenografia”, explica o especialista em segurança, Ricardo Fonseca.

Segundo Adam Mendoza, xerife do condado de Santa Fé, Baldwin realmente utilizava uma arma carregada com munição de verdade — que não deveria estar no set. Ele declarou que ainda é cedo para comentar as acusações, já que a investigação ainda está em andamento. Mendoza ressaltou que todos os envolvidos têm cooperado com a apuração e que foram recuperados também outros 500 projéteis no local. Há a suspeita de que havia mais balas de verdade no set. “Vamos averiguar como é que lá chegaram e por que estavam lá, porque não deveriam estar”, afirmou o xerife.

As investigações do incidente seguem, ainda sem conclusões: afinal, o que houve no set de “Rust”? A bala era inicialmente de festim e teria sido trocada durante o intervalo das gravações? Há outra explicação? Quem são os responsáveis? A lista de dúvidas é extensa. Apesar das conclusões preliminares dos investigadores quanto às balas de verdade, Dave Halls, assistente de direção, havia dito preliminarmente às autoridades que a arma não tinha munição real. Já Souza comentou não estar certo se a arma teria sido revisada após a pausa da equipe para o almoço. 

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|  Foto: David McNew/ AFP
 

Indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2003 por sua atuação no filme “The Cooler - Quebrando a Banca”, Baldwin, de 63 anos, está em choque, segundo pessoas próximas. Ele foi interrogado pelos investigadores em Santa Fé, está cooperando com a investigação e se pronunciou nas redes sociais. “Não há palavras para expressar meu choque e tristeza em relação ao trágico acidente que tirou a vida de Halyna Hutchins, esposa, mãe e nossa colega profundamente admirada. Estou cooperando totalmente com a investigação policial para resolver como essa tragédia ocorreu e estou em contato com o marido dela, oferecendo meu apoio a ele e sua família. Meu coração está partido por seu marido, seu filho e por todos que conheciam e amavam Halyna”, declarou em sua conta no Twitter.

Agora, as investigações seguem com foco nas pessoas que manusearam a arma antes da tragédia — além de Baldwin, Hannah Gutiérrez Reed, especialista em armas de cinema, e o assistente Halls. Reed teria preparado a arma e a colocado em uma caixa com outras duas pistolas. Após o incidente, a especialista guardou a arma, recolheu as cápsulas deflagradas e entregou o material às autoridades. Já Halls foi quem entregou a arma ao ator, dizendo que não estava carregada. Descrito como um profissional experiente, o assistente tem um agravante: uma reputação negativa por permitir práticas perigosas em gravações anteriores. As autoridades evitaram comentar o perfil de Halls, dizendo ser precipitado lançar qualquer tipo de suspeita e rechaçando qualquer tentativa de acusação.

Produção independente, “Rust” conta a história de um adolescente de 13 anos, procurado após o assassinato acidental de um fazendeiro. Iniciadas em outubro, as gravações deveriam seguir até novembro. Agora, não se sabe quais serão os próximos passos. Além de ator, Baldwin também é coprodutor do filme. Segundo o site “Variety”, o set de filmagem do filme era um lugar “caótico e sem segurança”. A Rust Produção emitiu uma nota informando que “a segurança do elenco e dos trabalhadores era uma grande prioridade”.

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|  Foto: Sam Wasson / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP
 

A morte da diretora de fotografia – uma ucraniana de 42 anos, mãe de um filho de 9 anos e bastante conhecida pela participação em curtas, produções para a TV e filmes, atuando como cineasta, diretora de fotografia, diretora e até atriz – gerou uma forte reação pedindo a proibição de armas de fogo reais nos sets e a melhoria das condições de trabalho das equipes de filmagem nos Estados Unidos. Uma petição no site “change.org”, lançada pelo roteirista e diretor Bandar Albuliwi, já reuniu mais de 20 mil assinaturas até agora. “Não há desculpa para que algo assim aconteça no século 21”, traz o texto do documento. 

Reação também no Senado da Califórnia, onde o democrata Dave Cortese afirmou ser urgente abordar os abusos das leis trabalhistas e as violações de segurança que, segundo ele, ocorrem nos sets de filmagem, como condições desnecessárias de alto risco e o uso de armas de fogo reais. “Pretendo apresentar um projeto de lei que proíbe o uso balas reais em filmagens na Califórnia para evitar esse tipo de violência sem sentido”, antecipou Cortese. Segundo a revista “The Hollywood Reporter”, a direção da série policial “The Rookie” decidiu, no dia seguinte ao incidente, proibir todas as munições reais em seus sets de gravação.

Chocante, a tragédia infelizmente não é inédita. Em 1993, o ator Brandon Lee, então com 28 anos, filho de Bruce Lee, morreu após ser atingido por um disparo de uma arma de fogo que havia sido carregada incorretamente. O rapaz foi alvejado por um tiro na barriga, efetuado pelo ator Michael Massee, durante as gravações do filme “O Corvo”, na Carolina do Norte. A arma cenográfica estava carregada com uma bala de festim, mas também tinha um cartucho com duas balas comuns. Quando o disparo de festim foi efetuado, a outra bala saiu do cano da pistola e atingiu o ator. “Veja que essas tragédias sempre envolvem balas de verdade. A de festim, cenográfica, não traz riscos”, pontua Fonseca.

Lee interpretava o protagonista Eric Draven, um cantor que é assassinado e, em seguida, é ressuscitado por um corvo sobrenatural. Após a morte do ator, as gravações foram concluídas por dublês e amigos de Lee e o filme foi lançado em maio de 1994. Traumatizado com o ocorrido, Massee se afastou da carreira por mais de um ano e jamais quis assistir a edição final do trágico filme. Shannon Lee, irmã de Brandon, comentou sobre o incidente no set de “Rust” no Twitter. “Nossos corações estão com a família de Halyna Hutchins e Joel Souza e todos os envolvidos no incidente Rust. Ninguém deveria ser morto por uma arma durante as filmagens”, escreveu.

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|  Foto: Angela Weiss / AFP
 

E no Brasil, como cenas que envolvem tiros são gravadas? Nas produções da principal emissora do país, a Rede Globo, por exemplo, o avanço da tecnologia foi transformando a rotina de trabalho. Quando Odete Roitman (Beatriz Segall) foi assassinada em “Vale Tudo”, de 1988, deixando no ar o mistério do “quem matou?” por todo o país, os tiros foram de festim. Mesmo expediente quando os personagens Carlão (Francisco Cuoco, “Pecado Capital”, 1975), Juca Pirama e Marlene (Luis Gustavo e Tássia Camargo, “O Salvador da Pátria”, 1989), Júlia Braga (Glória Menezes, “A Próxima Vítima”, 1995), Otacílio Martins Fraga (Paulo José, “Labirinto”, 1998) e Lineu Vasconcelos (Hugo Carvana, “Celebridade”, 2003), entre outros, saíram de cena. Nessa época, quando a técnica era utilizada, as armas eram desmontadas, adaptadas e tinham o cano bloqueado para o disparo de balas letais — algo que nem sempre acontece nos Estados Unidos. 

Hoje, todas as armas são de airsoft. São réplicas idênticas, que funcionam com sistema de gás ou bateria e não possuem munição. Os efeitos de tiros, das cápsulas saindo e o som dos disparos, são criados depois, em pós-produção, com a ajuda da computação gráfica. Isso permite que cenas tensas de tiroteios, como as vistas na novela “Amor de Mãe”, ou de séries como “Arcanjo Renegado” ou “Aruanas”, sejam realizadas em plena segurança. “Esse cuidado, anteriormente com as balas de festim, era fundamental para garantir a integridade das equipes de trabalho. E hoje, com a tecnologia, não se corre riscos por aqui. Causa espanto que em um mercado como o do cinema americano, que realiza milhares de produções e tem à disposição recursos e saídas tecnológicas bastante avançadas, uma tragédia como essa tenha acontecido. Mas aí entra a desigualdade no nível de cada produção. Pelo que li, era de baixo orçamento, com limitações. Em situações assim, infelizmente, a segurança é relegada a segundo plano”, lamenta Fonseca. As investigações seguem por lá, com a expectativa que, desta vez, a tragédia realmente signifique uma mudança nas condições de trabalho nos sets de filmagem.

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