Na sala fechada, o telefone toca. Do outro lado da linha, alguém se encoraja para iniciar a conversa com um desconhecido. A cena se repete, em média, 12 mil vezes por dia em todo o país. São pessoas que recorrem ao telefone gratuito 188 do CVV (Centro de Valorização da Vida) apenas para serem ouvidas quando não encontram nos relacionamentos diários a confiança necessária para revelar angústias guardadas a sete chaves.

“As ligações mais difíceis são daquelas pessoas que estão prestes a cometer o suicídio. É a vida delas que está em jogo na linha telefônica. O importante sempre é demonstrar empatia. Não interessa o que a outra pessoa está falando. Se ela está xingando, você diz ‘eu te entendo. Tem hora que dá vontade de xingar mesmo’. Demonstrar empatia é a melhor forma de começar a conversar com uma pessoa para tentar fazê-la retomar o equilíbrio que ela perdeu em algum momento”, explica José Milanez, voluntário há quase 4 anos no CVV em Londrina.

No mês de setembro, o Centro de Valorização da Vida e diversas entidades e associações em todo o país se unem para promover campanhas de prevenção ao suicídio. O tema silenciado durante anos e ainda considerado tabu traz à tona índices alarmantes. A cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio no mundo, conforme dados divulgados na última segunda-feira (9) pela OMS (Organização Mundial de Saúde). O órgão estima que 800 mil pessoas atentem contra a própria vida no período de um ano. O estudo, que considera estatísticas de 2016, aponta ainda que a causa de morte é a segunda entre jovens de 15 a 29 anos, sendo que acidentes de trânsito ocupam a primeira posição nessa faixa etária.

Milanez, professor aposentado, se interessou pelo atendimento no CVV após acompanhar colegas de profissão que desenvolveram sintomas de depressão. Segundo ele, aproximadamente, 70% dos telefonemas para o serviço gratuito partem de pessoas que apresentam indícios da doença. “Já fiquei por duas horas em uma ligação. Tem gente que não tem mais com quem conversar ou até tem, mas, no ambiente familiar, ninguém suporta mais falar com a pessoa. Quem está ao lado já se cansou de ouvir e é no CVV que ela encontra alguém para desabafar ou reclamar”, conta.

Em uma manhã de quinta-feira, o voluntário atendeu 15 ligações em um intervalo de três horas. No entanto, o diálogo com quem está do outro lado da linha nem sempre ocorre. Muitos dos que procuram ajuda se desencorajam ao ouvir a voz do atendente e desligam o telefone. “Insistimos alguns minutos para ver se a pessoa consegue falar. Você percebe quando a pessoa está com uma respiração pesada. Você percebe que ela está em uma situação muito difícil.”

Imagem ilustrativa da imagem #SetembroAmarelo  - Um Alerta pela Vida

MAIS EMPATIA, MENOS JULGAMENTO

No início do mês, o influencer Carlinhos Maia esteve entre os assuntos mais comentados do Twitter depois de publicar um vídeo no Instagram em que chamou de ‘imbecis’ adolescentes que enviaram mensagens a ele confessando o desejo de se matar. No dia seguinte à publicação, Maia informou que havia sido mal interpretado e que o vídeo havia sido editado e retirado do contexto original.

Polêmicas à parte, o fato é que a morte de jovens têm chamado a atenção das autoridades. No Paraná, dados preliminares divulgados pela Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) apontam que dos 893 casos de suicídio registrados no ano passado, 225 vitimaram jovens entre 15 e 29 anos, o que corresponde a 25% do total.

“As pessoas, de uma forma geral, não estão acostumadas a ouvir. Todos nós aprendemos a falar, a nos comunicar. Só que não somos uma sociedade de ouvintes atentos. Isso prejudica muito as relações. A solução para isso é aprender, é ter empatia pelo outro. Nós não somos uma sociedade empática. É só você observar as redes sociais que apresentam movimentos de agressão contínuos seja de agressão direta [com insultos] ou de afirmação na tentativa reforçar que um é melhor que o outro”, analisa o voluntário do CVV em Londrina, José Milanez.

Aproximadamente, 40 pessoas realizam os atendimentos no CVV em Londrina. Os conteúdos das ligações são sigilosos e quem entra em contato tem a opção de não se identificar. Os voluntários passam por um curso inicial de formação, além de treinamentos contínuos. Conforme o porta-voz do CVV em Londrina, Aparecido Beltrami, os atendentes são capacitados para ouvir, sem emitir julgamentos, comparações ou exemplos.

“O nosso trabalho não funciona como uma terapia. A pessoa joga o sentimento dela, nós ouvimos e, empaticamente, tentamos devolver o que ela precisa. Uma coisa é certa. Toda a ajuda que a pessoa precisa está nela e não no voluntário. Somos apenas facilitadores dessa solução. Quando a pessoa está depressiva, ela se fecha em uma bolha e não consegue encontrar respostas que estão nela mesma. Quando quem liga nos dá abertura, orientamos a procurar um especialista”, conta Beltrami.

Com o aumento no número de casos e de busca por ajuda, o serviço tem intensificado a realização de palestras e de atividades para orientar sobre os sinais de quem está prestes a cometer suicídio. O foco dos trabalhos, no entanto, está nas escolas em razão do aumento dos indicadores na faixa etária entre adolescentes e jovens.

Sobre a campanha, Beltrami explica que há várias teorias relacionadas à escolha pela cor amarela. O porta-voz do CVV em Londrina prefere apenas frisar que a cor representa o estado de atenção e de alerta para o problema mundial. Já a delicadeza do girassol, flor escolhida por algumas entidades (incluindo o CVV) para simbolizar a campanha, reforça a busca constante pela luz e pela vida.

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