Transformar a dor em solidariedade foi a forma encontrada pela jovem Pabla Eduarda Ciriaco para manter-se viva. Aos 26 anos, a operadora de caixa tentou suicídio por duas vezes e carrega nos braços as marcas da automutilação. As cicatrizes escondem dores profundas desencadeadas por um abuso sexual sofrido aos 20 anos.

Série de Ilustrações #SetembroAmarelo da artista Bruna Bandeira alerta para o cuidado com a saúde mental e empatia. É publicada diariamente no perfil @imagineedesenhe no Instagram
Série de Ilustrações #SetembroAmarelo da artista Bruna Bandeira alerta para o cuidado com a saúde mental e empatia. É publicada diariamente no perfil @imagineedesenhe no Instagram | Foto: Bruna Bandeira

“É uma tristeza que não dá para descrever. É um vazio imenso, uma dor na alma e muitos passam por isso calados”, relata. Após o episódio de violência, a jovem passou a ficar no quarto, se excluiu do convívio social e desenvolveu distúrbios alimentares.

“Minha família tentou me ajudar, mas eu não deixava. Não gostava de me olhar no espelho. Não gostava de conversar com ninguém. Sentia muita raiva. Eu me culpava muito pelo que aconteceu. Tinha muita vontade de sumir, de desaparecer. Quando tentei me matar foi porque não aguentava mais aquela dor que eu sentia. Quando me feria era para causar uma dor maior para ver se o que eu estava sentindo ia embora. Procurei bebidas, usei drogas e nada disso adiantou, na verdade tudo isso só piora”, afirma.

Aos poucos, amigos e conhecidos conseguiram uma reaproximação. A operadora de caixa passou a fazer parte do projeto religioso Help Força Jovem Universal e dá depoimentos em escolas, palestras e eventos voltados a adolescentes e jovens. Por meio de encenações, cartazes e rodas de conversa, o grupo oferece ajuda a quem já perdeu a esperança.

“Não é que eu tenha esquecido o que me aconteceu, mas consegui superar. Para mim é muito gratificante. Me sinto mais forte quando ajudo uma pessoa. Houve um processo até eu ficar bem. Hoje eu tenho vontade de viver! Mudei totalmente o ponto de vista que eu tinha sobre mim mesma. Procurei tirar forças das minhas fraquezas”, conclui.

Quadrinho da série #setembroAmarelo
Quadrinho da série #setembroAmarelo | Foto: Bruna Bandeira

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A dúvida permanece desde junho do ano passado. Ana Paula Souza perdeu a filha aos 17 anos. A menina estudiosa sonhava em morar fora do país e a mãe já via a possibilidade de um intercâmbio. Ela queria ser médica. O comportamento um pouco mais reservado causava estranheza, mas não impedia o diálogo em casa.

“Nós conversávamos sobre tudo, tudo o que você possa imaginar. Ela gostava muito de ler. Ela fez balé, fez inglês. Queria morar nos Estados Unidos. Tinha muitos projetos, muitos sonhos. Nunca, jamais mencionou que queria morrer”, conta. A menina exemplar arrumava a casa e deixava as tarefas em dia sem a necessidade de cobranças.

Quadrinho da série #setembroAmarelo
Quadrinho da série #setembroAmarelo | Foto: Bruna Bandeira

A mãe se viu sem a filha nos braços de uma forma repentina e buscou ajuda profissional para espantar a vontade de partir. As forças vieram do filho mais novo. “Hoje entendo que ela dava sinais de depressão, mas, infelizmente, só consegui conhecer isso depois da morte da minha filha. Acho absurdo esses assuntos serem tabu. Imaginava que uma pessoa com depressão ficasse trancada em um quarto, sem conseguir dormir, sem querer falar com ninguém, mas há várias formas de se encarar uma doença. Não imaginava que uma menina cheia de projetos e de sonhos pudesse sentir isso. Eu não consegui entender a dor dela. Ela não deixava transparecer”, lamenta Souza. A filha era apaixonada por uma banda coreana. Tempos após a morte, a mãe constatou as letras depressivas.

Hoje, a personalidade forte de Souza esconde as dores de quem tenta, todos os dias, transformar o vazio em apoio para outras famílias. A falta de empatia e o excesso de julgamento fizeram com que ela criasse nas redes sociais o Grupo de Prevenção ao Suicídio. A iniciativa ainda em construção tenta estender a mão a quem também viu familiares ou amigos próximos partirem cedo demais. A longo prazo, ela espera contar com o apoio profissional para conduzir discussões e quebrar o silêncio dos que ainda não se sentem à vontade para partilhar a dor.

Quadrinho da série #setembroAmarelo
Quadrinho da série #setembroAmarelo | Foto: Bruna Bandeira

A realização de terapias individuais e em grupo a ajudou a seguir em frente. “Depois do que ocorreu, soube de muitos casos de adolescentes e jovens que se suicidaram, o que antes eu nem ouvia falar. As pessoas precisam de informação. Para mim, fica esse ponto de interrogação todos os dias. E se eu tivesse feito isso ou aquilo? E se…”

ATENÇÃO AOS SINAIS

Mudanças de comportamento repentinas, tendência ao isolamento, tristeza permanente sem motivo e baixa autoestima são alguns dos sinais de alerta que podem levar ao suicídio. A psicóloga Marianne Bonilha explica que lidar com as emoções tem sido um desafio, principalmente, para crianças e adolescentes. O distanciamento emocional e a fragilidade das relações estão entre os motivos para o aumento expressivo no número de tentativas de suicídio e de autoagressão.

Quadrinho da série #setembroAmarelo
Quadrinho da série #setembroAmarelo | Foto: Bruna Bandeira

A profissional atua no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, referência nos atendimentos de crianças e adolescentes. Embora a maioria dos casos de tentativa de suicídio esteja relacionado a crianças acima dos 12 anos, a psicóloga já chegou a atender um menino de 9 anos que tentou se matar.

“Os pacientes, em geral, apresentam dificuldade para lidar com conflitos do dia a dia, como perdas, rupturas, relações familiares ou de amizade, angústia e medo. As famílias, por outro lado, parecem perceber os sinais de alerta nas crianças e adolescentes, mas não sabem lidar com isso e nem encaminhar a situação”, aponta.

A psicóloga lembra que o início da adolescência por si só já representa um período de luto para as crianças e pode desencadear sentimentos controversos. “É a transformação da identidade infantil para um novo local que elas ainda não sabem como vai ser. São mudanças físicas que vão repercutir emocionalmente. Há uma discrepância ainda entre como o sujeito se sente, como ele se vê e o que ele vê quando se olha no espelho. Além das mudanças físicas provocarem uma certa vivência de despersonalização, as relações sociais também mudam. O entorno começa a cobrar certos comportamentos de maior autonomia e maior responsabilidade. Isso faz parte do processo e a própria criança vai ter que lidar com essas transformações. Mas, para alguns, isso pode ser mais difícil e o luto pode virar uma melancolia ou depressão.”

Quadrinho da série #setembroAmarelo
Quadrinho da série #setembroAmarelo | Foto: Bruna Bandeira

Além do comportamento no dia a dia, os pais precisam estar atentos a desafios virtuais como o da “Baleia Azul”. Grupos fechados nas redes sociais publicam tarefas diárias que precisam ser executadas pelos participantes, entre elas, o suicídio.

“De seis anos para cá, houve um aumento significativo no número de tentativas de suicídio. Os casos acabam sendo uma questão de saúde mental e existe um cuidado de ordem médica que precisa ser adotado. Em muitas situações é necessária a internação hospitalar, por exemplo, quando há auto intoxicação ou automutilação. Os pacientes são atendidos também por profissionais do serviço social, psicólogos e psiquiatras”, detalha. Bonilha dá continuidade ao atendimento após a alta médica. O tratamento dura, no mínimo, 1 ano e meio. No entanto, pacientes crônicos podem ter a necessidade de acompanhamento permanente. Para a psicóloga, mais diálogo e interação podem ajudar crianças e adolescentes a enfrentar as situações do dia a dia. Ao constatar os sinais de alerta, é necessário encaminhar para atendimento médico especializado em unidades básicas de saúde, CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) ou hospitais.

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SOBRE A ARTISTA

Bruna Bandeira (@imagineedesenhe) é ilustradora e pedagoga paulista. Em 2012, criou o projeto Imagine e Desenhe no qual desenvolve quadrinhos com frases que incentivam a empatia, aceitação, autoestima e amor-próprio. Nesse mês ilustra a série #SetembroAmarelo sobre saúde mental no FOLHA Mais.

Quadrinho da série #setembroAmarelo
Quadrinho da série #setembroAmarelo | Foto: Bruna Bandeira

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