“A língua é o que vai permitir essa ligação (do ítalo-descendente) com o passado”, diz Angélica Ferreira
“A língua é o que vai permitir essa ligação (do ítalo-descendente) com o passado”, diz Angélica Ferreira | Foto: Marcos Zanutto

“Mamma Mia!”. As interjeições italianas são tão famosas que é quase impossível repeti-las sem pensar no sotaque e gestos. Entre os descendentes, o idioma é ainda mais presente, traz à memória as conversas em família sobre a mesa farta do domingo. Por afeto ou por desejo de conhecimento, a língua italiana é o elo para quem quer compreender a cultura do país.

Unindo diversos interesses, a empresária e artista plástica Cibele Pugliesi, 48, buscou escola para aprender o idioma. “Sou de origem italiana, sempre quis buscar nacionalidade italiana e eu também gostaria de estudar, fazer cursos de arte lá. E claro, por turismo. A Itália é o berço da cultura, acho que todo mundo tem um interesse natural até pela questão histórica”, afirma.

Cibele Pugliesi: “Todo mundo tem um interesse natural pela história da Itália”
Cibele Pugliesi: “Todo mundo tem um interesse natural pela história da Itália” | Foto: Marcos Zanutto

A estudante está no segundo período do curso e como bisneta de italianos acabou encontrando identificação nas aulas. “Eu estava perguntando os palavrões, porque quem é descendente escuta muito”, ri. Isso é comum para a professora e proprietária do Corso Itália, Angélica Ferreira. “Existe muito da herança familiar e às vezes eles repetem aquilo sem saber que é um xingamento”, acrescenta em tom divertido. Naquele dia, no curso, Pugliesi descobriu o significado de alguns. “O que eu peguei foi nada, ouvi um ou outro, bem pouco”, brinca.

AFETO

Essa identidade com a língua não é raro de encontrar na escola. Ferreira explica que boa parte dos alunos é descendente que quer entender a cultura dos antepassados. “Eles têm orgulho da ascendência e querem manter viva ou mesmo resgatar a origem, as memórias, os hábitos dos pais e dos avós. E se deparam: ‘ah! por isso que a nona falava assim?'. Isso é lindo!, você se reconhece como parte da língua”, defende a professora. “Todo ítalo-descendente que vai para a Itália vai conhecer a região de onde os avós saíram, ele vai buscar a raiz. A língua é o que vai permitir essa ligação com o passado, fazer com que estabeleça esse elo”, acrescenta.

Os interessados pelas artes também procuram o idioma. A Itália é muito rica em cultura e possui várias escolas, museus e universidades que atraem artistas do mundo todo. Outro aspecto que levam interessados pela língua é o religioso. “O Vaticano encontra-se no coração de Roma, e sendo o Brasil de origem tradicional católica, seminaristas, padres e freiras buscam a língua como uma via de acesso à religião”, conta a professora.

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Estudantes de moda, arquitetura, design, história da arte, direito e teologia também são atraídos para desenvolverem suas pesquisas acadêmicas na Europa ou aqui. Ferreira também salienta que atualmente o governo italiano exige a proficiência na língua de origem para quem deseja tirar a cidadania por matrimônio e isso acaba atraindo novos alunos para a escola, além dos turistas que querem experimentar o passeio de uma forma mais abrangente.

INFLUÊNCIA

Considerando a influência dos imigrantes no desenvolvimento de algumas cidades brasileiras, não é preciso ir longe para que o idioma surja. Pugliesi, que nunca foi para a Itália, já começou a ter nova percepção de mundo. “Você vai em um shopping e vê uma placa. Fui tomar sorvete, peguei o menu e eu nunca tinha percebido que tinham palavras italianas. Você começa a ver, conhecer melhor, tua percepção é maior”, afirma.

Apesar disso, a professora comenta ter poucos descendentes interessados na região. “Diante do grande número que temos aqui na cidade de Londrina, acho que tem pouca procura”, afirma, comparando com outras cidades onde já atuou, mas também vê sob o aspecto do mercado. “O italiano não é uma língua comercial, não tem como disputar espaço com inglês e espanhol, todas as pessoas que procuram o italiano já têm essa segunda língua”, afirma. Isso porque talvez tenham ensinado que todos os caminhos levam a Roma e seja fácil chegar lá, mas sabendo o idioma a caminhada pode ser mais curta.

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