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Folha Mais 5m de leitura Atualizado em 22/10/2021, 18:36

Poeira que dá a volta por cima

Nuvens de sedimentos surpreendem cidades brasileiras e acendem mais alertas sobre alterações no clima

PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de outubro de 2021

Marcos Martins - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

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A tarde de domingo, 26 de setembro, virou noite nas cidades paulistas de Presidente Prudente, Franca, Jales, Araçatuba, Barretos, Araçatuba e outras próximas da região. Duas semanas depois, Tupã, Catanduva e Araçatuba também tiveram o céu encoberto. Em todos os casos, o que causou a escuridão foi uma gigante nuvem de poeira que assustou moradores e causou mortes e destruição. Um homem de 42 anos morreu após ser atingido por escombros da queda de um muro em Tupã. Já em Araçatuba, uma equipe que usava tratores e caminhões-pipa para controlar um incêndio em uma fazenda foi surpreendida pelas rajadas de vento. Além da poeira, a nuvem avançou com fumaça e fogo. Três pessoas não conseguiram se abrigar e acabaram morrendo.

Um homem desapareceu nas águas do Rio Paraná, em Presidente Epitácio, depois que sua embarcação virou durante a tempestade. O vento e a nuvem de poeira viraram dezenas de barcos, mas os demais ocupantes se salvaram. Já em Presidente Prudente, a nuvem levou à interdição de quatro casas pela Defesa Civil devido ao risco de desabamento. A Secretaria Municipal de Educação suspendeu as aulas presenciais por causa dos estragos causados pela tempestade nos prédios escolares.

Para piorar, 12 cidades da região estavam com o abastecimento de água prejudicado por causa da falta de energia, segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Redes de comunicação por internet e telefonia também foram afetadas e a prefeitura de Osvaldo Cruz decretou situação de emergência em decorrência dos estragos.

Domingo à tarde na cidade de Franca (SP) virou noite com nuvem de poeira após longo período de estiagem
Domingo à tarde na cidade de Franca (SP) virou noite com nuvem de poeira após longo período de estiagem |  Foto: Igor do Vale/Folhapress
 

O fenômeno é conhecido como “haboob”. Em árabe significa “destruidor” ou “que vagueia”. É um tipo de tempestade intensa de areia levada por uma corrente atmosférica, frequentemente comum em regiões áridas —  secas e com baixa umidade. Quando temporais de chuva com ventos fortes entram em contato com o solo muito seco, encontram resquícios de queimada, poeira e vegetação seca. A combinação gera um “rolo compressor” gigante de sujeira e pode alcançar até 10 quilômetros de altura e a 100 quilômetros de largura. Com grande quantidade de sedimentos, a nuvem deixa o dia escuro e praticamente impossibilita a visão, por ser muito densa. Em seu momento mais forte, os ventos podem chegar de 35 a 100 quilômetros por hora, vindo com pouco ou nenhum aviso.

Vídeos gravados por pessoas que foram surpreendidas pelas nuvens no interior paulista registram o medo e a apreensão. O som se confunde com uma chuva de granizo, mas os estragos são mais graves. Quem viu de longe, também ficou assustado. “Ficamos olhando pela janela, sem entender o que estava acontecendo e preocupados se aquilo viria para o nosso lado. Foram minutos sem saber o que fazer ou o que pensar, parecia o fim do mundo chegando”, recorda o empresário Rogério Matias, de Presidente Prudente, que estava em casa, com a família, no momento em que a cidade foi atravessada pelo fenômeno. 

Segundo o meteorologista Afonso Rodrigues, o acontecimento ocorre com regularidade, mas desta vez teve uma maior extensão, por isso a grande repercussão. “São áreas de regiões planas, com solos preparados para o cultivo agrícola, e que estão sofrendo com uma forte estiagem. Em dias muito quentes, quando uma tempestade se forma, o encontro do ar frio com o ar quente acaba criando uma zona turbulenta, que levanta o material para a atmosfera. Como esse ar é muito frio, ele entra por baixo do ar quente e vai próximo ao chão, levantando toda a poeira para a atmosfera”, explica. Rodrigues detalha ainda a cor que chama a atenção nos vídeos. “Existe aquele tom laranja exatamente por causa da poeira, mas caso ela não estivesse ali, teríamos visto aquela cor azul escura do céu, quando vem chuva. Ou o que as pessoas dizem popularmente, que o “céu está preto”, algo bastante comum quando uma forte tempestade se aproxima”, complementa.

Com o dia virando noite em um rastro de destruição, a associação com mudanças climáticas, e as mais diversas agressões ao meio ambiente, voltou à tona. Mas, de acordo com o meteorologista, ela não é tão direta. “O evento em si é algo normal, mas a degradação do meio ambiente, com desmatamentos, excesso de queimadas e outras agressões causam mudanças climáticas que impactam no regime de chuvas do Brasil. Com isso, a quantidade de chuvas durante primavera e verão estão cada vez menores e mais atrasadas, reduzindo a umidade, facilitando queimadas, acumulando mais sedimentos no solo e elevando as temperaturas. Como reação, poderemos ver mais acontecimentos como esse, de nuvens de poeira, repetindo-se em diversas regiões do país”, analisa Rodrigues. Isso mostra a necessidade de preservação do meio ambiente. “Toda ação tem uma reação. Se a ação do homem é degradar, a natureza, para se reacomodar, tem seus instrumentos, suas intercorrências. Vimos isso com a pandemia, vemos isso com esse episódio. São várias coisas se acumulando e causando prejuízos”, aponta Rodrigues.

Após alguns dias de chuva, as temperaturas voltaram a subir. Será que temos risco de novas nuvens de poeira? Para Rodrigues, o risco é alto para os estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, pelo menos até o fim do ano. “A primavera já é uma época propícia para isso, e com essa temporada ainda muito mais seca, as condições se complicam. Vai depender do volume de chuvas que teremos, mas não dá para prever. Como são eventos que dependem das condições do solo, da quantidade de sedimentos, matéria seca e restos de queimada, pode haver a repetição do fenômeno nas áreas com mais risco, principalmente regiões agrícolas que estão muito secas”, aponta.

Enquanto a dúvida mantém o clima de apreensão, o empresário Rogério Matias não tira os olhos da janela. “Ficou meio um trauma, estamos assustados e qualquer vento mais forte a gente corre olhar para fora, com medo de ver aquela cena novamente. E com medo de chegar mais perto, de causar estragos, ferimentos. Vai demorar para esquecermos aquele domingo e essa incerteza de poder ou não se repetir só piora as coisas”, lamenta.

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