O que é Saúde Única e o que isso tem a ver com a Covid-19?

Projeto de extensão “Educa Saúde Única” da UEL procura conscientizar a população sobre a importância da preservação dos animais e do meio ambiente para a saúde humana

Ana Júlia Gabas -  Estagiária*
Ana Júlia Gabas - Estagiária*

 

A saúde dos humanos está interligada com a dos animais e do planeta. Qualquer desequilíbrio que ocorra nesse tripé, gera impacto
A saúde dos humanos está interligada com a dos animais e do planeta. Qualquer desequilíbrio que ocorra nesse tripé, gera impacto | iStock
 

O projeto de extensão Educa Saúde Única foi criado com o intuito de informar a população sobre a Saúde Única e trazer conteúdos científicos de um modo mais acessível à comunidade por meio das redes sociais e outras tecnologias. Desenvolvido inicialmente na área da medicina veterinária da UEL (Universidade Estadual de Londrina), o projeto, hoje, integra outros centros como serviço social, fisioterapia, farmácia, biologia, medicina e ainda, colaboradores externos. 


Mas afinal, o que é Saúde Única?

“É a indissociabilidade da saúde humana, animal e ambiental” define a coordenadora do projeto, professora da área de parasitologia e epidemiologia e mestre e doutora em ciência animal Eloiza Teles Caldart. Em outras palavras, a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas e, qualquer desequilíbrio que ocorra nesse tripé, gera um impacto. Dois desses impactos já são bem conhecidos e sentidos na pele por todos nós: o aquecimento global e as epidemias ou pandemias de doenças

infecciosas.

 

O que é Saúde Única e o que isso tem a ver com a Covid-19?
Divulgação
 


Um estudo publicado em agosto de 2021 pelo Projeto MapBiomas fez uma análise das imagens de satélite entre 1985 e 2020 do território brasileiro. Essas imagens mostravam onde era área urbana, onde era região hidrográfica, onde tinha vegetação e onde tinha queimada. Comparando essas imagens de 1985 para cá, viu-se que o Brasil já queimou o equivalente a um quinto do território nacional: 1.672.142 km², ou 19,6%. Além disso, 60% de toda essa área já foi queimada mais de uma vez, o que dificulta a regeneração do ambiente e “quanto mais vezes esse ambiente queima, mais dificuldade ele tem de se regenerar”, explica a professora. 


Segundo o estudo, apesar de a grande maioria das queimadas ocorrerem em anos de seca extrema, o desmatamento também possui impacto no aumento da área queimada nesse período. Ao desmatar e, consequentemente, ao alterar o ambiente, o homem interfere no tripé da Saúde Única e acaba gerando um impacto em cadeia, como explica Caldart: “Quanto mais a gente desmatar, vai chegar uma hora que ao invés dessas árvores eliminarem mais oxigênio do que gás carbônico, elas vão começar a eliminar mais gás carbônico do que oxigênio” – contribuindo para o efeito estufa. “A gente também vai ter uma redução na produção agropecuária, porque se a árvore é responsável pela chuva e não tem árvore, vai faltar água, se faltar água não tem ração para o animal”.


E onde se encaixa a pandemia de covid-19 nisso tudo?

Spillover, ou simplesmente “transbordamento”, é o termo científico usado para explicar um evento no qual um patógeno (um agente produtor de doenças) consegue se adaptar e salta de uma espécie de hospedeiro para o outro, e é exatamente isso que ocorre nas zoonoses. As doenças zoonóticas são transmitidas dos animais para os seres humanos, como a leptospirose, raiva, zika, Sars… Estima-se que mais de 60% das doenças infecciosas humanas conhecidas são derivadas de zoonoses, e uma delas está causando um estrago tremendo em escala mundial, a Covid-19 que, de acordo com testes laboratoriais, a Sars-CoV-2, cepa causadora da Covid-19, tem provável origem em morcegos. 

O que mostra o estudo “Interfaces à transmissão e spillover do coronavírus entre florestas e cidades” publicado por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) é que os períodos de epidemias ou pandemias são causados pela alteração do meio ambiente. Ao desmatar as florestas, o ser humano invade o ambiente dos animais, os hospedeiros naturais - macacos, pássaros, morcegos - que fogem ou são extintos. Os vírus, que não se dão por vencidos, se adaptam e vão procurar um novo hospedeiro, que pode ser nós, os humanos, como explica Caldart: “O vírus é de um determinado animal silvestre, só que eles têm uma capacidade de mutação muito grande, e dessa forma, em algum momento essa mutação, que era para ser ao acaso, se adapta ao ser humano”. É uma questão de Saúde Única, já que, mais uma vez, seu tripé foi alterado, impactando as três partes.


A importância da extensão alinhada a pesquisa

A professora  Eloiza Teles Caldart afirma que, no momento, o projeto de extensão Educa Saúde Única  já conta com mais de 50 membros, desde professores a alunos e pós-graduandos. Os extensionistas são divididos em três grupos para criar conteúdo para as redes sociais: vídeos, entrevistas com especialistas, lives, podcasts e posts narrados. Antes de ser postado, tudo isso é planejado e checado com dois meses de antecedência, para que se aprofundem no tema, desenvolvam os conteúdos para diferentes plataformas e, por fim, passe pela curadoria dos professores e especialistas.

Para a estudante de medicina veterinária e participante do projeto Emelly Selmer de Moura, utilizar as redes sociais para divulgar conteúdos sobre Saúde Única é um ótimo negócio, por conta da acessibilidade: “é importante produzir conteúdos de linguagem simples e de fácil compreensão”. 


Segundo Caldart, em uma universidade existem três pilares: ensino, pesquisa e extensão. A pesquisa é de extrema importância para entender os fenômenos sociais, econômicos e ambientais que ocorrem no Brasil afora, mas é pela extensão que essas informações são levadas à população, como reforça a coordenadora do Educa Saúde Única. Por isso, segundo ela, o projeto está se expandindo: “Como a gente está em redes sociais, tem um público que é mais restrito, então, agora, queremos expandir para as UBS (Unidades Básicas de Saúde), por meio de grupos no WhatssApp”. Além disso, outras atividades já estão programadas para quando houver o retorno presencial: visitas em escolas e palestras em empresas, tudo a fim de alertar e conscientizar a população. 

“Eu acredito que o projeto é muito importante para a sociedade, principalmente na nossa situação atual. A Saúde Única faz parte do nosso cotidiano, principalmente quando falamos de zoonoses, que representam uma grande parte das doenças atuais. Não podemos, como seres humanos, ter uma saúde plena, se negligenciamos a saúde animal e ambiental”, acrescenta a estudante Emelly Selmer de Moura. 

Serviço

Estudantes da UEL que têm interesse em participar do projeto podem se inscrever pelo  link https://forms.gle/wU6TiH1jngPHWANc9

Confira os diferentes canais de divulgação – @EducaSaúdeÚnicaUEL, Canal Saúde Única, Spotify.


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