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m de leitura Atualizado em 10/07/2021, 23:36

Lixo (quase) Zero: uma reflexão sobre o consumo

Pequenas mudanças fazem a diferença quando a questão é a redução de resíduos e impacto ambiental

PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de julho de 2021

Alice Resende - Estagiária*
AUTOR autor do artigo

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Você conhece o efeito borboleta? É uma expressão utilizada na Teoria do Caos para fazer referência a uma das características mais marcantes dos sistemas caóticos: a sensibilidade das condições iniciais de um evento. A explicação prática é uma alegoria, apelidada de Efeito Borboleta na qual o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear uma sequência de fenômenos meteorológicos que provocam um tornado no Texas. Ou seja, uma pequena ação, pode gerar um grande efeito. E como isso se relaciona ao estilo de vida lixo zero? Quem adota esse estilo de vida também está pensando e fazer microrevoluções que vão gerar um impacto maior no mundo e no meio ambiente.  

“São as pessoas que fizeram as grandes mudanças na história e são elas que vão continuar mudando o mundo”, afirma Mariana Moraes, uma comunicadora paulista que trabalha com o terceiro setor e sustentabilidade há 15 anos e é uma das fundadoras do Verdes Marias (@verdesmarias), um movimento que "busca inspirar pessoas a ingressarem numa vida mais sustentável, por meio de microrrevoluções em suas vidas" como a descrição em sua página diz. Ela, com outras duas Marias - Maria Carolina Moraes e Maria Clara Moraes. Juntas as três irmãs mantém um site e alguns perfis nas redes sociais com o objetivo de ensinar como ter um estilo de vida que consuma o mínimo de lixo possível e maneiras de reciclar e reutilizar seus resíduos. “A gente sentiu que tem que fazer uma mudança e a mudança tem que vir pelo exemplo”, explica. “Ser lixo zero é um desafio muito grande porque o sistema não ajuda”, diz Moraes. Para ela, quanto mais pessoas demostrarem que preferem um estilo de vida sustentável, mais chances do sistema se adequar a esse desejo de consumo.

As imãs Mariana Moraes, Maria Clara Moraes e Maria Carolina Moraes participam de um movimento para ensinar e incentivar pessoas a terem vidas mais "verdes" As imãs Mariana Moraes, Maria Clara Moraes e Maria Carolina Moraes participam de um movimento para ensinar e incentivar pessoas a terem vidas mais "verdes"
As imãs Mariana Moraes, Maria Clara Moraes e Maria Carolina Moraes participam de um movimento para ensinar e incentivar pessoas a terem vidas mais "verdes" |  Foto: Divulgação
 

De acordo com o Instituto Lixo Zero Brasil esse estilo de vida consiste no máximo aproveitamento e correto encaminhamento dos resíduos recicláveis e orgânicos e a redução – ou mesmo o fim – do encaminhamento destes materiais para os aterros sanitários e/ou para a incineração. E a ZWIA (Zero Waste International Alliance) complementa: “é uma meta ética, econômica, eficiente e visionária para guiar as pessoas a mudar seus modos de vidas e práticas de forma a incentivar os ciclos naturais sustentáveis, onde todos os materiais são projetados para permitir sua recuperação e uso pós-consumo.”

JULHO SEM PLÁSTICO

A geração exorbitante de lixo mobilizou o movimento Julho Sem Plástico. Ele começou em 2011 com a instituição australiana Earth Carers Waste Education pedindo para que as pessoas evitassem o uso de plásticos descartáveis durante o mês de julho. O objetivo é reduzir o impacto e a poluição que esses materiais causam ao meio ambiente. Esse movimento ganhou força ao redor do mundo e atualmente é uma maneira de pessoas e instituições que se importam com a natureza fazerem algo sobre a geração de plástico. 

Foi se conscientizando e aprendendo sobre a quantidade de lixo produzida no mundo que a jornalista e confeiteira londrinense Mariana Guerin começou a usar potes de vidro e ecobags personalizadas na venda de suas bolachas caseiras (@bolachinhasdamari). Ela adotou ainda o estímulo de 'cashback' (dinheiro de volta) para incentivar seus clientes a retornar os potes de vidro. Com o crédito, o consumidor pode optar por um desconto na próxima compra ou usar para adquirir a ecobag. “Investir em embalagens mais ecológicas é caro, mas é um investimento de longo prazo se pensarmos o tanto de lixo que podemos reciclar e até evitar de produzir. Requer mudança de modo de vida", conta.

Mariana também salienta a questão de o microempreendedor ter um impacto alto no custo com essas mudanças, mas para ela foi uma forma de agregar valor ao seu produto e mostrar um pouco do que acredita. E os clientes dela adoraram a ideia.  Até porque agora as bolachas vêm com mais qualidade, como explica Guerin: “Os produtos são melhores armazenados que nos saquinhos que nem sempre eram fechados corretamente, prejudicando a qualidade das bolachinhas. E para mim, reciclar é também divertido.” 

Imagem ilustrativa da imagem Lixo (quase) Zero: uma reflexão sobre o consumo Imagem ilustrativa da imagem Lixo (quase) Zero: uma reflexão sobre o consumo
 

CONSUMO CONSCIENTE E ZERO DESPERDÍCIO NA MODA

Repensar a produção de lixo é imprescindível quando os resultados de pesquisas como a  "The New Plastics Economy – Rethinking the future of plastics" (A Nova Economia do Plástico - Repensando o Futuro do Plástico, em livre tradução) - elaborada pela Fundação Ellen MacArthur em 2016  em parceria com a McKinsey e divulgada no Fórum Global de Economia no mesmo ano- apontam que se nossos hábitos não mudarem o oceano terá mais plástico do que peixes até 2050. 

“O equivalente a um caminhão de roupas é enviado para o aterro ou à incineração a cada segundo, enquanto menos de 1% das fibras têxteis usadas na produção de roupas são recicladas e destinadas para a produção de novas peças”, a assertiva é da gerente de comunicação para a América Latina da Fundação Ellen MacArthur, Victoria Almeida. A  indústria têxtil é uma grande geradora de resíduos que poderiam ser melhor aproveitados. 

Noutro relatório feito pela entidade em 2017 - ''New Textiles Economy: Redesigning fashion’s future" (Nova economia têxtil: redesenhando o futuro da moda, em livre tradução) -  foi constatado que um volume enorme de material têxtil é desperdiçado anualmente durante a confecção de roupas, que acabam sendo usadas poucas vezes e na hora do descarte são enviadas aos aterros sanitários.

A modista Glória Audi Ribeiro idealizadora da marca de roupas londrinense Fuá (@fuabrasil) é adepta do estimulo consciente e o zero desperdício e adota as práticas em sua confecção. Para por em prática o zero desperdício, Audi desenvolveu em seu ateliê um método para gerar o mínimo de resíduo e reaproveitar todas as sobras de tecidos. Desde roupas novas feitas com retalhos até estofados de almofadas feitos com fiapos. 

Glória Audi desenvolveu em seu ateliê um método para gerar o mínimo de resíduos e reaproveitar todas as sobras de tecidos Glória Audi desenvolveu em seu ateliê um método para gerar o mínimo de resíduos e reaproveitar todas as sobras de tecidos
Glória Audi desenvolveu em seu ateliê um método para gerar o mínimo de resíduos e reaproveitar todas as sobras de tecidos |  Foto: Isaac Fontana/Divulgação
 

Assim como Audi, a designer de moda londrinense Rafaela Molter Corrêa Brazão, dona do ateliê Amati (@atelie.amati), onde confecciona lingeries autorais, partiu do desejo de criar algo que fosse além do produto em si e começou a fazer peças seguindo o conceito "upcycling", onde novos produtos são criados com matéria prima de algo que seria descartado. E ela concorda que devemos repensar nosso consumo: “Por que não ter menos, mas com qualidade melhor, produzidos de forma mais justa, que durará mais tempo? Deveríamos conhecer melhor de onde vem e para onde vai nossa roupa, valorizar marcas que contêm essas informações.” 

Mesmo que muitas pessoas possam associar as sobras das confecções e resíduos têxteis com produtos de baixa qualidade, as peças de alto valor produzidas por Glória Audi e Rafaela Molter mostram que é um equívoco pensar assim, pequenos retalhos de seda, ainda é seda e poderia ser lixo mas se torna uma peça especial. E depois de uma enquete em suas redes sociais Rafaela percebeu que 80% das pessoas só não compram produtos "upcycling" por falta de informações sobre o assunto. Glória acredita que se as instituições repensarem sua geração de resíduos por si só já seria um grande passo, e aos poucos ela está dando os passos dela. 

Rafaela Molter partiu do desejo de criar algo que fosse além do produto em si e adotou o conceito "upcycling" Rafaela Molter partiu do desejo de criar algo que fosse além do produto em si e adotou o conceito "upcycling"
Rafaela Molter partiu do desejo de criar algo que fosse além do produto em si e adotou o conceito "upcycling" |  Foto: Gustavo Carneiro
 

POR ONDE COMEÇAR E O QUE FAZER?

A comunicadora Mariana Moraes argumenta que ninguém precisa mudar todos seus hábitos do dia para noite e dá dicas de como iniciar uma vida de lixo - quase - zero.

Comece pesquisando sobre um tema que te interessa, como por exemplo moda ou maquiagem, aprenda sobre o assunto e entenda como pode adotar hábitos sustentáveis a partir dele. Então vá procurando informações sobre outras atitudes que pode melhorar no dia a dia que são simples e fazem a diferença. Para as mulheres uma forma fácil de iniciar é trocando seus absorventes descartáveis convencionais por coletores menstruais, calcinhas absorventes ou absorventes de pano. E para todos uma atitude simples é levar sacolas de pano para as compras em vez de utilizar as de plástico. Conforme for se acostumando com as mudanças vá acrescentando novas. É melhor mil pessoas fazendo o que podem do que uma pessoa fazendo tudo perfeito”,  ensina. 

Adotar esse estilo de vida “é um convite ao autoconhecimento”. Uma oportunidade para prestar atenção na destinação do lixo, compreendendo mais o trabalho de catadores de lixo e de cooperativas de reciclagem. Além de provocar o olhar sobre o próprio lixo  e planejar como  reduzir, reutilizar e reciclar, revendo marcas que consome, quantidade e qualidade. E, aproveite que estamos no Julho Sem Plástico e repense também seu consumo e geração de resíduos; comece a cobrar as empresas e governos de diminuírem seus resíduos também. 

*Supervisão da editora Patrícia Maria Alves

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