Imunidade de grupo: Luz no fim do caos

Indícios que de regiões do país podem ter alcançado a chamada ‘imunidade de rebanho’ trazem esperança na luta contra a covid-19, mas especialistas pregam cautela

Marcos Martins (especial para a FOLHA)
Marcos Martins (especial para a FOLHA)

Desde que a pandemia do novo coronavírus assolou o mundo, a busca por imunidade passou a ser quase uma obsessão. Enquanto medidas de isolamento social, restrição de funcionamento de diversos setores da economia, uso de máscaras e outras medidas tentam diminuir o ritmo de contágio do vírus e evitar um colapso do sistema de saúde, a luta por um tratamento comprovadamente eficaz ou uma vacina que traga proteção e alívio definitivo à população segue acelerada. Na Europa, o número de novos casos cresceu, chegou ao pico e caiu. A redução foi resultado de ações drásticas, como os severos lockdowns. Na Itália e na Espanha, durante algumas semanas, a polícia chegou a abordar quem estava nas ruas: só era permitido sair para ir ao mercado ou farmácia.  

 

No Brasil, as coisas foram bem diferentes. Em Manaus (AM), por exemplo, os casos dispararam e, mesmo assim, medidas de isolamento não foram eficientes — pontos de aglomeração seguiram sendo registrados por toda a cidade. Durante vários dias, doentes morreram à espera de vagas em UTIs e outros até em casa. Caos também no sistema funerário, com mortos enterrados em valas comuns. As cenas chocantes correram o mundo. Na sequência, o número de casos diminuiu. Um modelo matemático demonstra que a capital amazonense pode ter atingido a chamada imunidade de rebanho, de massa ou comunitária. E talvez esteja ocorrendo em outras cidades, como São Paulo (SP). 




Imunidade de grupo: Luz no fim do caos
  

 

Mas o que é e como acontece a imunidade de grupo? 

 

Imunidade de rebanho trata sobre os benefícios para pessoas não vacinadas de não contágio devido à taxa alta de vacinados em seu convívio. Cientistas alertam: Metodologia em relação à Covid-19 pode custar milhares de vidas 

 

 

Uma maneira de se chegar a isso é vacinar todo mundo, algo impossível no momento. Ou quando a epidemia sai de controle. Aí, muitas pessoas se contaminam, e o vírus não tem mais para onde se disseminar. "Se eu estou infectado e as pessoas do meu círculo de convívio já tiveram a doença, não passo para ninguém. Dessa forma, o número de novos casos vai caindo e uma pandemia arrefece", explica o epidemiologista Celso Rezende. 


Estudos iniciais indicam que será necessário que 60% da população tenha anticorpos para frear a disseminação da Covid-19


 

Estudos iniciais indicavam que a porcentagem da população com anticorpos para a doença deveria ser de aproximadamente 60% para frear a disseminação. Ela foi calculada com base no R0, número de pessoas que um contaminado infecta antes de se curar. Na covid-19, ele gira em torno de 2,5. A equação traz 1 menos 1 sobre R0. O resultado – 0,6 – indica os 60%. “Mas isso vale se tivermos uma população homogênea, e ela nunca é. Há pessoas mais suscetíveis, a idade varia, a interação social é diferente. Por isso, é preciso levar em conta esses fatores para um cálculo mais preciso”, explica Celso. 

 

Foi isso que um estudo feito por matemáticos das Universidades de Nottingham, no Reino Unido, e de Estocolmo, na Suécia, considerou. Os pesquisadores criaram um modelo que categoriza as pessoas em grupos. Quando as diferenças de idade e atividade social são incorporadas ao modelo, o nível de imunidade cai de 60% para 43%. “É uma ideia, ainda é estudo. Deve ser algum número entre 40% e 60% e é um desafio, também, medir quantas pessoas têm anticorpos no conjunto da população”, aponta Fernando Reinach, especialista em Biologia Molecular. 


 

Dilema sobre custo humano 

  

O grande problema da imunidade de rebanho, no caso do coronavírus, é o alto custo em vidas até ser atingido. “O vírus circulou muito por Manaus, as regras de isolamento não foram seguidas, tivemos colapso nos sistemas de saúde e funerário, até a média móvel cair, em casos e óbitos. Se a imunidade de massa foi atingida, foi a um custo humano muito alto. Quantas mortes poderiam ter sido evitadas com políticas públicas mais eficientes?”, questiona Celso Rezende.  


Imunidade de grupo: Luz no fim do caos
Michel Dantas/AFP
 

 

Sobre a possibilidade de uma segunda onda, o epidemiologista afirma que não pode ser descartada. “Por enquanto não há sinalização nesses locais, mas o comportamento do vírus ainda é incerto. Há evidências de queda de anticorpos em quem superou a doença, mas é tudo muito novo. É preciso tempo para uma observação adequada. O problema é que, durante uma pandemia que trouxe tantos impactos sociais e econômicos, como essa que estamos vivendo, a ansiedade por respostas é grande. É um paradoxo: queremos saber tudo rapidamente, mas a ciência precisa de tempo para resultados mais concretos. Uma equação complicada”, admite Celso. 


“É preciso tempo para uma observação adequada. O problema é que, durante uma pandemia que trouxe tantos impactos sociais e econômicos, como essa que estamos vivendo, a ansiedade por respostas é grande.”


Outra resposta esperada com ansiedade é por quanto tempo uma pessoa estaria imune. E, caso exista o risco de reinfecção, todos os cálculos e teorias precisariam ser reformulados. “Num cenário de incerteza assim, o mais indicado é seguir com os cuidados. Usar máscara, lavar as mãos, evitar aglomerações, procurar proteger as pessoas de grupos de risco. Medidas já conhecidas e que, num contexto de indecisão, podem salvar muitas vidas. Mesmo se alcançarmos um status de imunidade de massa, a doença não vai desaparecer sem uma vacina. E ela também não é homogênea entre municípios, bairros e comunidades, depende de vários fatores que não temos controle. Talvez não haja colapso no atendimento, mas muitas pessoas podem ser vítimas ainda. Vale a cautela”, aconselha o epidemiologista. 


Imunidade de grupo: Luz no fim do caos
Folha Arte
 


A Opas (Organização Pan-americana da Saúde), representante da OMS (Organização Mundial da Saúde) na América, afirmou que o continente americano foi responsável por 64% das novas mortes por covid-19 registradas nas últimas semanas e por 60% de todos os novos casos de contaminação pelo novo coronavírus no mundo. O órgão afirmou ainda que não há evidências de que o Brasil tenha atingido a imunidade de rebanho. Marcos Espinal, diretor do departamento de doenças transmissíveis da entidade, explicou que uma pesquisa feita em Manaus encontrou prevalência de anticorpos na população bem menor do que o suficiente para caracterizar a imunidade coletiva. “Não há qualquer evidência de que o Brasil ou partes do país tenham atingido a imunidade de rebanho. No caso de Manaus, estamos longe de chegar a essa conclusão. Ainda vemos uma alta ocupação dos leitos na cidade”, ponderou Marcos. Resta, portanto, seguir se cuidando. E torcendo por um final feliz.


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