|
  • Bitcoin
  • Dólar
  • Euro
Londrina

Folha Mais 5m de leitura Atualizado em 09/08/2021, 12:27

Esgotamento de recursos naturais do planeta ameaça presente e futuro da população

PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de agosto de 2021

Marcos Martins - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

menu flutuante

O dia 29 de julho pareceu ser uma data absolutamente normal para muita gente. Tente lembrar o que você fez nesse dia. Alguns tiveram uma rotina básica, como o trabalho, os estudos, tarefas domésticas, lazer e afins. Quem estava ligado nas Olimpíadas viu a ginasta Rebeca Andrade brilhar ao conquistar a medalha de prata, enquanto Mayra Aguiar emocionou o país garantindo um bronze. No vôlei, as meninas brasileiras sapecaram um 3x0 nas japonesas. Já para o cinema, um dia triste: a Cinemateca de São Paulo ardeu em chamas, dando fim a um rico acervo histórico que nos fará falta.

Em Londrina, o 29 de julho fez os casacos saírem do armário: o Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná) registrou a menor temperatura em 20 anos. A mínima de 0,5 °C, com sensação térmica de -1,1°C, ficou atrás apenas do ano de 2000, quando a mínima foi de -1,3 °C. O evento é simbólico: enquanto o país viveu uma onda extrema de frio e registrou neve no Rio Grande do Sul, vários países registraram recordes de calor e de volume de chuvas no Hemisfério Norte. No Canadá, os termômetros na cidade de Lytton mediram 49,6 ºC , marca que superou em 4,6º C a temperatura mais alta registrada no país até então. Chuvas muito acima dos padrões inundaram cidades na Alemanha e na China. Os eventos acentuados, nos três países, provocaram centenas de mortes.

Imagem ilustrativa da imagem Esgotamento de recursos naturais do planeta ameaça presente e futuro da população
|  Foto: iStock
 

A queima de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, além do aumento do desmatamento nas últimas décadas, forçam um aumento na quantidade de gases causadores do efeito estufa na atmosfera. Eles dificultam a dispersão do calor dos raios solares que atingem o planeta, elevando a temperatura média no globo. Como consequência, a evaporação da água acelera, facilitando a ocorrência de temporais. Tudo está diretamente ligado ao tal “aquecimento global”, que tanto se fala e alguns negam – até postando bobagens em redes sociais, que ironizam o aquecimento só porque está frio por aqui. Isso ocorre porque a temperatura média do planeta, quando sobe, acelera a circulação de ar entre a América do Sul e a Antártida, favorecendo eventos como o frio extremo que atingiu o Brasil.

Complementando a desconsideração com o meio ambiente, o consumo dos recursos naturais do planeta também evolui em progressão geométrica. Desde 1961, a GFN (Global Footprint Network), organização americana que pesquisa a forma como o mundo gerencia seus recursos naturais e responde às mudanças climáticas, calcula e anuncia anualmente o chamado “Dia da Sobrecarga da Terra”. Ele consiste em uma data mundial que marca o momento em que a humanidade consumiu todos os recursos naturais que o planeta é capaz de renovar durante um ano. Para chegar ao resultado, divide-se a biocapacidade do planeta – quantidade de recursos ecológicos que a Terra pode regenerar no ano – pela “Pegada Ecológica” da humanidade, ou seja, a quantidade de recursos naturais necessários para sustentar os padrões de consumo da população mundial, que inclui a pegada de carbono, que são as emissões de gases de efeito estufa da geração de energia, as áreas construídas para habitação, os produtos florestais para manufatura de madeira e papel, além de agricultura e pecuária para produção de alimentos e pesca.

Segundo a GFN, atualmente são utilizados os recursos de 1,7 planeta, o equivalente a mais de 74% a mais da capacidade de renovação da Terra. É como se o mundo entrasse no “cheque especial”, ou seja, temos de acionar uma espécie de “reserva planetária”, que seria destinada à população futura, para suprir a nossa demanda atual. “É um dado preocupante porque, ano a ano, essa data ocorre cada vez mais cedo”, alerta a ambientalista Soraia Marques. Para efeito de comparação, em 1987, o Dia da Sobrecarga foi alcançado somente em 19 de dezembro. Oito anos depois, em 21 de novembro. Passadas duas décadas, em 2015, alcançamos a data em 13 de agosto. Este ano, atingimos o dia em 29 de julho – justamente quando o Brasil encarou o frio extremo. “A população mundial precisa olhar isso com seriedade, mas a realidade é que poucos entendem a gravidade do problema. Estamos esticando demais a corda”, lamenta Marques.

De fato, o assunto é complexo para a população em geral. E o descaso de governantes que ignoram ou relevam o problema, somada à falta de políticas públicas de educação e conscientização, criam um cenário desolador. “Nunca tinha ouvido falar disso e acho que, apesar de algumas pequenas ações, como separar o lixo e tentar economizar água, eu poderia fazer mais, só não sei como”, admite o advogado Nelson Rocha. A dona de casa Sirleia Gonçalves faz coro. “Difícil de entender, né? São termos e conceitos muito complicados. Confesso que acho um assunto chato”, reconhece Gonçalves. Optar por produtos e empresas aliadas ao desenvolvimento sustentável, evitar o desperdício de recursos ambientais e reduzir as emissões de carbono, além de apoiar o desenvolvimento e disseminação de tecnologias para a redução dos impactos ambientais, são ações fundamentais para que o Dia da Sobrecarga da Terra seja postergado anualmente. De quebra, é possível mitigar os impactos da crise climática.

“Se houver um esforço conjunto global, é possível melhorar. A prova disso foi durante a pandemia, quando a exploração de recursos e a poluição diminuíram com as orientações de isolamento social”, destaca Marques. Em 2020, com a chegada da pandemia, o Dia da Sobrecarga atrasou para 22 de agosto, quase um mês de diferença em relação a 2019. O dado foi reflexo de isolamento social e desaceleração econômica, que derrubaram as emissões de CO² provenientes da combustão de combustíveis fósseis e também as taxas de extração de madeira. A redução da pegada de carbono global foi de 14,5%. Já a de produtos florestais chegou a 8,4% — redução que poderia ter sido ainda maior, caso o desmatamento no período, sobretudo na floresta amazônica, tivesse sido barrado. Só que a “alegria” durou pouco. Com a produção e o consumo dando sinais de recuperação, voltamos a piorar em 2021. E é preciso lamentar também que o “fôlego” que o planeta ganhou veio a um custo muito alto: uma pandemia que tirou a vida de milhões de pessoas.

“O movimento para que a economia global se recupere deve vir com força e agredir ainda mais o planeta. Se os impactos negativos dessa retomada não forem analisados e mitigados com uma proposta robusta de crescimento sustentável, que leve em conta os aspectos socioambientais e envolva todas as potências mundiais, podemos chegar a um colapso ambiental”, observa a ambientalista. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), a população mundial deve aumentar em cerca de 2 bilhões de pessoas até 2050. Agências econômicas calculam que o PIB mundial vai mais que dobrar nos próximos 30 anos. Junto com a economia, portanto, é preciso considerar a ecologia. “Os conceitos e ações devem estar diretamente ligados, em harmonia, para que a humanidade não chegue a situações de dificuldade extrema”, pontua Marques.

E como contribuir com um planeta melhor? O movimento #MoveTheDate, lançado pela GFN, traz algumas sugestões para convidar a população a refletir sobre hábitos que podem ajudar, como a redução do consumo de carne vermelha e do desperdício de alimentos, a aposta em energias renováveis e a manutenção da biodiversidade ao plantar uma árvore, cultivar um jardim ou ser voluntário em uma organização de conservação natural. “São pequenas ações individuais que, em larga escala, fazem a diferença”, observa a ambientalista Soraia Marques. Porém, o advogado Nelson Rocha cobra mais protagonismo do poder público. “Como pedir para alguém que sequer tem onde morar ou o que comer para pensar na natureza? Essa pessoa provavelmente vai estar preocupada com a própria sobrevivência antes de mais nada. Os governantes precisam ter um olhar macro que contemple todas as realidades dos habitantes de um país, principalmente em um tão desigual como o nosso”, adverte Rocha. Ou seja, o caminho ainda é longo. Resta saber de que jeito chegaremos ao futuro.

O papel de cada um

Além do cálculo global, o Dia da Sobrecarga da Terra é também avaliado individualmente em cada país

Se toda humanidade consumisse do mesmo modo que a população do Brasil, será que o planeta estaria melhor ou pior? E se a comparação fosse feita com o consumo da Alemanha ou do Catar? O cálculo do Dia da Sobrecarga da Terra é global, levando em consideração o planeta como um todo, mas há também o cálculo de cada país. No Brasil, o Dia da Sobrecarga da Terra ocorreu em 27 de julho, indicando que consumimos 1,5 planeta por ano. A nossa pegada ecológica é semelhante à média global. Ocupamos a 13ª posição de maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, mas possuímos como contraste uma boa posição em biocapacidade, devido à Floresta Amazônica. Temos ainda um dos maiores setores de energias renováveis do mundo, com grande parte da eletricidade proveniente de hidrelétricas. Como pontos negativos, os índices de desmatamento e de queimadas crescem muito em biomas como Amazônia, Pantanal e Cerrado, emitindo altos volumes de gases do efeito estufa. Confira outros exemplos, melhores e piores que o Brasil.

Catar

Dia da Sobrecarga da Terra: 9 de fevereiro → consome 9,21 planetas por ano

Estados Unidos

14 de março → consome 5 planetas por ano

Alemanha

5 de abril → consome 2,93 planetas por ano

México

11 de agosto → consome 1,65 planeta por ano

Indonésia

18 de dezembro → consome 1,06 planeta por ano

LEIA TAMBÉM:

Abismo digital - No país que se destaca por cultura digital, há quem nem saiba o que é a internet

instagram

ÚLTIMOS POSTS NO INSTAGRAM