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m de leitura Atualizado em 05/02/2022, 17:05

Em ano de Copa e eleições, quem ficará com a `amarelinha´?

Presença da camisa da seleção brasileira em manifestações políticas causa polêmica e há até campanha para mudar a cor do uniforme

PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de fevereiro de 2022

Marcos Martins - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

Foto: Isaac Fontana FramePhoto/Folhapress/Imagem Folha
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O desabafo, em agosto do ano passado, do ex-jogador Walter Casagrande, o Casão, sobre o uso político da camisa amarela da seleção brasileira veio somar às milhares de manifestações contrárias ao uso do uniforme em protestos políticos. Agora comentarista de futebol na televisão, Casagrande falou do orgulho de ter vestido a camisa amarela na Copa do Mundo de 1986, no México, lembrou que ela sempre esteve ao lado da "democracia, da justiça e da liberdade". e reclamou do fato dela ter sido "sequestrada" para uso político. 

Copa do Mundo feminina França 2019  - Itália X Brasil Copa do Mundo feminina França 2019  - Itália X Brasil
Copa do Mundo feminina França 2019 - Itália X Brasil |  Foto: Denis Charlet / AFP
  

A presença da camisa amarela em protestos começou em junho de 2013, durante a revolta contra o aumento das passagens de ônibus, embora em uma escala bem menor. Foi a partir de 2015, com as manifestações pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT) que o uso se “popularizou”. “A ideia era mostrar, com o uso do verde e amarelo, uma preocupação com o país, algo totalmente contrário ao que havia acontecido 23 anos antes, quando Fernando Collor pediu que seus apoiadores vestissem verde e amarelo e o Brasil, em peso, saiu vestindo preto nas ruas”, recorda o historiador Mário Gonçalves.

Depois, a camisa da seleção voltou a ser usada em atos considerados antidemocráticos porque atacavam o STF (Supremo Tribunal Federal) e pediam o fechamento da Corte. Em maio de 2020, o jornalista e cineasta João Carlos Assumpção chegou a lançar um movimento para alterar as cores da camisa da outrora seleção canarinho. “Diante do que temos visto de 2016 para cá e da apropriação que um grupo, parte do qual armado e com práticas truculentas, fez das cores do Brasil, o verde e amarelo, essas cores, no momento, não nos representam”, diz o manifesto lançado por Assumpção, que sugere a volta do uso da camisa branca, deixada de lado após a derrota na final da Copa de 1950, no Maracanã, para o Uruguai. “O Brasil de branco, o branco da paz, e com gola azul, como em 1950”, propõe o cineasta.

Na torcida, que Já faz planos para a Copa do Catar, no fim do ano, 
o debate sobre o uso político da camisa amarela  também está em alta Na torcida, que Já faz planos para a Copa do Catar, no fim do ano, 
o debate sobre o uso político da camisa amarela  também está em alta
Na torcida, que Já faz planos para a Copa do Catar, no fim do ano, o debate sobre o uso político da camisa amarela também está em alta |  Foto: Douglas Magno/AFP
  

Na torcida, que aquece os tamborins e já faz planos para a Copa do fim do ano – sim, em 2022 o mundial será disputado entre 21 de novembro e 18 de dezembro, por causa das altas temperaturas registradas durante o mês de julho, no Catar, país sede – o debate também está em alta. “O mundo inteiro está acostumado com a camisa verde e amarela em campo, é tradição. Até o azul passa em alguns jogos, mas branco? Descaracteriza muito”, argumenta o engenheiro civil Otávio Jordão. A dona de casa Sueli Aragão concorda. “Gosto muito de Copa do Mundo, de enfeitar a janela com a bandeira, de reunir a família com todos uniformizados, e as cores são o verde e amarelo. Outra cor fica sem graça, não vai parecer Copa, nem Brasil”, avalia. Na Copa América de 2019, em comemoração aos 100 anos da seleção, o time vestiu branco durante a competição.

Os dois também concordam que o uso político do uniforme foi equivocado. “A seleção representa um país inteiro, não um grupo restrito. Não é à toa que falamos da ‘pátria de chuteiras’. Mas acredito que, como a Copa vai ser realizada depois da eleição, os ânimos vão estar mais acalmados, espero”, acredita Aragão. “Pegar um símbolo do país e usar para desunir é muito feio. Mas acho que o fato de a Copa ser no final do ano vai arrefecer essa briga, e a Copa também é um fator de união. Em 2018 foi assim. Embora o uso da camisa já tivesse sido visto em protestos nos anos anteriores, todo mundo se vestiu de verde e amarelo durante o mundial porque sabia que, naquele mês, naquele momento, a camisa significava a torcida pela seleção e não qualquer outro motivo que não fosse o esportivo”, analisa Jordão.

Já o advogado Celso Antunes ironiza o uso da camisa em protestos contra a corrupção ou de candidatos que dizem levantar tal bandeira. “Tem um CBF lá no brasão, no peito de quem usa. É do Brasil, mas é também da CBF. Então esse pessoal representa os ex-dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol que foram presos justamente por corrupção?”, questiona Antunes. Para ele, 2022 pode marcar o ano em que a camisa voltará a ser exclusivamente da torcida brasileira. “Primeiro porque todo mundo está cansado dessa briga. Segundo, a competição vai acontecer depois da eleição. Terceiro, Copa é Copa, né? É união de torcidas, ainda mais na época do Natal, tempo de paz e de perdão. Tomara que tenhamos um momento bem mais leve no final do ano”, torce o advogado.

A camisa amarela da seleção brasileira começou a marcar presença em protestos políticos a partir de 2013 A camisa amarela da seleção brasileira começou a marcar presença em protestos políticos a partir de 2013
A camisa amarela da seleção brasileira começou a marcar presença em protestos políticos a partir de 2013 |  Foto: Isaac Fontana FramePhoto/Folhapress/Imagem Folha
 

Mesmo com boas expectativas, por enquanto, os entrevistados preferem deixar a camisa na gaveta. Jordão disse que costumava ir pra academia com a camisa em dias de jogo do Brasil pela eliminatória ou alguma outra competição, mas passou a evitar a prática por conta da conotação política.  “Já usei algumas vezes e tem gente que te olha atravessado. Com tudo o que aconteceu no Brasil nos últimos anos, melhor deixar a camisa no armário, lá ela não briga com ninguém”, diverte-se. Já Sueli Aragão diz aconselhar filhos e netos a evitar a roupa. “Infelizmente é o que temos no momento e pode gerar hostilidade desnecessária. Melhor evitar, mas sempre lembrando que verde e amarelo não devem ser cores de A ou B e sim da democracia brasileira”, sugere.

O historiador Mário Gonçalves também faz parte da torcida que quer enterrar de vez a polêmica das cores da camisa da seleção. “Acredito que tudo conspira a favor de um novo momento no final de 2022. Espero que num futuro próximo essa briga de cores se torne só um assunto a ser debatido por nós, historiadores”, propõe.

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. |  Foto: Isaac Fontana - Frame Photo - Folhapress
 

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