Uma pessoa com maior tendência a ser workaholic pode se estender e não separar os momentos de trabalho e lazer
Uma pessoa com maior tendência a ser workaholic pode se estender e não separar os momentos de trabalho e lazer | Foto: Shutterstock



Se a flexibilidade e o conforto atraem, a falta de acompanhamento e de limite pode afastar a ideia do home office como uma boa proposta. Para poder aproveitar os benefícios da situação, é preciso desenvolver habilidades para não trabalhar demais, nem produzir menos.
A empresa que adotar o regime de trabalho remoto precisa ter estrutura e processos de controle. "Antes, tínhamos a gestão à vista. Os líderes olhavam as pessoas trabalhando e exerciam a cobrança. O home office implica que a empresa tenha essa estrutura para cobrar mais por entrega do que por tarefa diária", explica Adeildo Nascimento, diretor da ABRH-PR (Associação Brasileira de Recursos Humanos do Paraná).
Outro ponto é que na escolha de colaboradores para a função remota é preciso considerar, além das "hard skills", aquelas competências técnicas avaliadas por meio de currículo, diplomas e certificados, também as "soft skills", que são as habilidades relacionadas ao modelo mental da pessoa.
O diretor aponta as duas principais habilidades dessa última categoria: autorresponsabilidade e disciplina. "Tem que ser uma pessoa que se comprometa com a entrega, que não precise de supervisão direta e que tenha disciplina, porque em casa, várias coisas vão distraí-la", afirma.

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CUSTO FIXO
Se o profissional tiver esses dois requisitos básicos, a tendência, acredita Nascimento, é de que aumente a produtividade. "Pode aumentar, mas se manter já é uma vantagem, porque a empresa não vai precisar de tanto espaço, gasta menos com transporte para os funcionários e em termos de custo fixo também. Muitas empresas estão abolindo os escritórios regionais e adotando esse tipo de trabalho", aponta. Ao mesmo tempo, é recomendável a realização periódica de reuniões para a troca de informação e integração do time.
Já do ponto de vista do profissional, é importante entender que nem todas as carreiras permitem esse modelo. Algumas ocupações exigem que o colaborador esteja in loco e mesmo para aquelas funções suscetíveis ao modelo, é preciso se atentar às habilidades apontadas para não sofrer com o trabalho. "Uma pessoa com maior tendência a ser workaholic pode se estender e não separar os momentos de trabalho e lazer, a disciplina também vale para isso", indica Nascimento.

CRIAR HÁBITOS
A notícia boa é que qualquer pessoa pode desenvolver o modelo mental para trabalhar remotamente. "É criar hábitos. Colocar uma pessoa que possa ajudar, separar um cômodo da casa, preparar um ambiente diferente, até que se desenvolva as habilidades. Há pessoas que levantam cedo, colocam a mesma roupa que usariam se fossem trabalhar na empresa até que se adquira autorresponsabilidade e disciplina", exemplifica.
Criar hábitos, cenários e ter uma pessoa que cobre até que desenvolva esse plano mental pode ser uma estratégia, pois, segundo o diretor da associação, essa é a nova forma de enxergar o mundo. "A gente está passando por uma transição social e de mercado de trabalho. Antes, o trabalho era para onde a gente ia exercer nossas funções. Hoje, com a tecnologia, o trabalho não é mais aonde eu vou, mas o que eu levo comigo e que posso executar a qualquer momento", argumenta Nascimento.

No cômodo ao lado

A artista visual Natanaele Bilmaia, 27: "Eu costumo ter meus horários para iniciar, almoçar e finalizar"
A artista visual Natanaele Bilmaia, 27: "Eu costumo ter meus horários para iniciar, almoçar e finalizar" | Foto: Gina Mardones



Acordar bem cedo, fazer a higiene matinal, escolher a roupa mais bem passada, distribuir o gel nos cabelos, alinhar a gravata, tomar um café reforçado para enfrentar o dia, pegar a maleta e... atravessar o corredor. Ali, no cômodo ao lado, está o trabalho de quem optou pelo home office. Profissional remoto revela que trabalhar em casa exige a mesma disciplina de quem se desloca até o escritório.

Natanaele Bilmaia, 27, que o diga. A artista visual já foi colaboradora em empresa, já abriu o próprio escritório e atualmente atua sozinha na própria casa. "Foi uma necessidade e não uma opção", explica. Como abriu um escritório de design estratégico, o estúdio Meraki, a ideia é que tivesse um local próprio, mas sozinha, se viu com um gasto que não podia pagar. "Montei um espacinho em casa mesmo e continuei com a empresa atendendo meus clientes."

O problema é que Bilmaia mora com a avó e a casa está sempre cheia, até mesmo com a visita diária dos pais da artista. "A maior dificuldade que eu tive foi que meus pais não entendiam muito. Qualquer favor que eles precisassem, pediam para mim, e era ruim ficar parando. Agora eles já sabem", relata. Em um cômodo separado para o trabalho, montou sua mesa com computador, telefone e impressora, as ferramentas que precisa para executar seu trabalho.

Com o espaço organizado, a artista encontrou o método para manter a disciplina. "Tenho amigos que dizem que não conseguem, mas tem que encarar isso como uma empresa. Eu costumo ter meus horários para iniciar, almoçar e finalizar. Tem que ter essa disciplina para trabalhar oito horas por dia", afirma. Apesar da flexibilidade para trabalhar a qualquer horário, prefere começar cedo e acompanhar o horário comercial. "Eu dependo de fornecedor e eu não consigo falar com cliente depois das 18h, tenho que trabalhar no horário comercial."

A flexibilidade é uma vantagem, mas fácil para se tornar um empecilho. "Nem sempre consigo encerrar no horário. Quando você está em uma empresa, você fica naquele horário, o máximo que pode acontecer é fazer uma hora extra, mas quando se está em casa, o cliente não quer saber se você teve imprevisto", argumenta. Com isso, já se viu trabalhando 10 horas por dia e finais de semana por conta da demanda. "Com prazo apertado não tem dia, horário, feriado, não para para ver jogo da Copa. É preciso se policiar", orienta.

Com a experiência e organização, hoje consegue controlar o volume de trabalho para não ficar o tempo todo trabalhando dentro de casa. Nisso, conseguiu ver a vantagem da elasticidade de horários e também na redução de custos, já que evita gastar com transporte e com alimentação fora. Além disso, aponta o conforto como ponto positivo. "Eu trabalho com roupas mais soltinhas, mas de pijama não. Se eu não levantar, lavar o rosto, tomar um banho, aí eu fico com preguiça. No máximo uma pantufa", brinca.

O lado negativo é quando precisa atender um cliente. "Eu não tenho onde receber e eu acho péssimo ter que encontrá-los em um café, mas são poucos, a maioria prefere que eu vá até eles", afirma. O ponto que pega mesmo é a falta de relacionamento com outras pessoas. "Sinto falta de ouvir outras ideias, opiniões. Se eu pudesse, voltaria para uma sala comercial para ter esse contato", defende.

O coworking seria uma alternativa, mas Bilmaia já fez alguns testes e percebeu que não supre a demanda de interação que ela precisa. "O custo é menor do que o de um escritório pessoal, mas as pessoas que estão lá são de outras áreas. A maioria está sozinha, com a sua empresa. Eu sinto falta é de uma equipe de trabalho, pedir ideias, propostas, trocar informação", aponta.

Enquanto não compensar montar seu escritório próprio, com uma equipe, vai trabalhando no quarto que estava sobrando na casa. "Eu só penso em sair do home office se for para ter um lugar para receber clientes e trocar ideias com uma equipe". Por enquanto, trabalhar no cômodo ao lado ainda é a melhor opção.

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