Derrubada de estátuas abre discussão sobre homenageados com passado duvidoso


Marcos Martins / Especial para a FOLHA
Marcos Martins / Especial para a FOLHA

Em 1895, no sudoeste da Inglaterra, a cidade de Bristol ergueu uma estátua em homenagem a Edward Colston. Comerciante britânico, era tido como um benfeitor por parte da comunidade branca local. Membro do parlamento inglês, financiou a construção de escolas, igrejas e hospitais. No início do último mês de junho, 125 anos depois, os protestos anti-racistas que ganharam o mundo — uma reação à morte do segurança George Floyd, nos Estados Unidos — trouxeram à tona mais detalhes da biografia de Colston: ele era também um dos maiores traficantes de escravos da Europa.


Derrubada de estátuas abre discussão sobre homenageados com passado duvidoso
AFP
 


Acionista da Royal Adventures into Africa, foi responsável por transportar mais de 80 mil africanos para a América — cerca de 20 mil morreram ainda durante a travessia. A estátua foi derrubada por manifestantes e jogada em um rio. O prefeito de Bristol, Marvin Rees, que é negro, disse não apoiar “danos criminais”, mas compreendeu a ação. “Não posso fingir, como filho de um migrante jamaicano, que a presença da estátua de um comerciante de escravos não fosse uma afronta pessoal a mim e a pessoas como eu”, observou. A escultura será recuperada e provavelmente levada a um dos museus locais. A Associação de Proteção do Patrimônio Histórico da Inglaterra condenou o ato, mas também concordou que a estátua era “um símbolo de injustiça” e defendeu que ela não seja reinstalada.




Manifestantes próximos à estatua de Robert E. Lee em Richmond, Virginia, Estados Unidos.
Manifestantes próximos à estatua de Robert E. Lee em Richmond, Virginia, Estados Unidos. | AFP
 


O episódio reabriu o debate sobre a homenagem que bustos, estátuas e outros monumentos rendem à personagens com passado contestável. Em Londres, o prefeito Sadiq Kahn anunciou um levantamento para revisar monumentos e nomes de ruas com referências às eras imperiais. O historiador britânico David Olusoga defendeu a ideia de que “estátuas deveriam pertencer a museus de história e não servirem de símbolo de adoração”. Já o jornalista e escritor brasileiro Laurentino Gomes, autor dos livros “1808”, “1822”, “1889” e o recente “Escravidão”, afirmou nas redes sociais ser contra a derrubada da estátua do bandeirante Borba Gato, que fica no bairro de Santo Amaro, em São Paulo.


“Sou contra. Estátuas, prédios, palácios e outros monumentos são parte do patrimônio histórico. Devem ser preservados como objetos de estudo e reflexão”, pontuou. Após uma série de tuítes recordando o passado assassino de Borba Gato, ele concluiu: “Com 10 metros de altura e 20 toneladas de peso, a estátua é feia que dói. Ainda assim, deve lá ficar. Mas ao passar por ela, as pessoas devem saber quem foi o personagem e como foi parar no panteão dos heróis nacionais”.


Estatua do general confederado Albert Pike é derrubada em Washington (D.C.), Estados Unidos.
Estatua do general confederado Albert Pike é derrubada em Washington (D.C.), Estados Unidos. | AFP
 


As homenagens aos bandeirantes, aliás, são alvos constantes de controvérsia. Nos séculos XVI e XVII, além de explorar territórios, os sertanistas capturaram e escravizaram índios e negros encontrados pelo caminho. Também mataram outros milhares em confrontos sangrentos, dissipando diversas etnias. Estupraram e traficaram mulheres indígenas, além de roubar minas de metais preciosos nos arredores das aldeias. Ainda assim, ruas, praças, bairros, monumentos e nomes de espaços públicos fazem referência aos bandeirantes.


Para a historiadora Raquel Neves, retirar uma estátua ou trocar um nome de logradouro é importante para ressignificar o passado. “É um reexame coletivo sobre as razões que levaram a sociedade daquela época a criar um monumento e questionar se aquelas razões ainda seguem válidas hoje”, avalia. “A história não é algo inerte, nossas interpretações sobre o passado estão sempre em constante transformação, caminhando conforme a transformação da sociedade. Nossas opiniões sobre o passado também podem ser analisadas. Retirar uma estátua, portanto, é fazer história tanto quanto colocá-la ou escolher preservá-la”, complementa.


Saint-Louis, Senegal - a escultura do general francês e administrador colonial Louis Faidherbe.
Saint-Louis, Senegal - a escultura do general francês e administrador colonial Louis Faidherbe. | AFP
 


A filósofa Laura Soares defende a retirada das estátuas. “Não podemos cultuar assassinos. É preciso um processo de ruptura radical com homenagens à símbolos que torturaram negros e indígenas, que foram os verdadeiros construtores desse país. Não é apagar a história, mas retirar o reconhecimento de quem nunca deveria ter recebido”, opina. Para o historiador Marcelo Andrade, uma saída pode ser a identificação melhor dos símbolos. “Uma possibilidade são os monumentos ganharem placas explicativas, códigos QR com links para textos que tragam toda a história por trás daquele personagem, porque foram colocados ali, por quem são contestados e por quais motivos. Elementos que possibilitem um posicionamento do observador, um estímulo ao debate. Tão crucial quanto derrubar estátuas é informar as pessoas quem foram essas personalidades do nosso passado", argumenta. Já a historiadora Beatriz Sampaio é contra qualquer mudança. “Manter os símbolos é garantir uma lembrança do que se passou naquela cidade em outros tempos, relembrar personagens e acontecimentos. O debate é válido, mas acho a retirada de uma estátua ou a troca de nome de uma rua ou bairro exagerada demais. É preciso se preservar o patrimônio histórico e buscar explicar e entender o contexto em que tais homenagens foram concedidas. Vamos aprender, nem que seja com os erros desses personagens”, avalia.


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Ruas de bairro de Londrina homenageiam bandeirantes


Símbolos controversos


Conheça alguns monumentos, estátuas e logradouros que já foram contestados por motivos diversos


Busto de Flávio Suplicy de Lacerda — Curitiba


Estudantes da UFPR derrubaram, em 2014, o busto do ex-reitor e ministro da Educação pós-golpe militar de 1964, Flávio Suplicy de Lacerda, que ficava no pátio da Reitoria, em Curitiba. O objeto foi arrastado pelas ruas. De acordo com os estudantes da época, o ato serviu para lembrar os 50 anos do golpe.


Levante Popular da Juventude (2014)
Levante Popular da Juventude (2014) | Hellen Lima/LPJ
 


Elevado Costa e Silva — São Paulo


Uma lei de 2016 alterou o nome do Elevado Costa e Silva, o Minhocão, para Elevado Presidente João Goulart, nome do ex-presidente deposto no golpe militar de 1964. A medida foi resultado de um programa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, para alterar nomes de mais de 40 vias de São Paulo que homenageiam pessoas vinculadas à repressão do Regime Militar (1964-1985) — Artur da Costa e Silva foi um dos presidentes da República do período. O programa recebeu o nome de “Ruas de Memória”.


Estátua de Borba Gato — São Paulo


Estátua do Borba Gato em Santo Amaro, São Paulo (SP)
Estátua do Borba Gato em Santo Amaro, São Paulo (SP) | Folhapress
 


Inaugurada em 1957 no bairro de Santo Amaro, na capital paulista, a escultura de 13 metros de altura, que homenageia o bandeirante, já sofreu vários atos de vandalismo. É considerada uma das mais polêmicas da cidade e divide opiniões. Para alguns, marca um período de extrema violência dos bandeirantes aos antigos moradores da região, e consideram um erro um bandeirante ser homenageado e ser visto como um “herói”. Para outros, o monumento tem valor artístico histórico e cultural, pois representa a exploração e formação de São Paulo. E há ainda quem critique o visual da obra. Recentemente, o humorista Marcelo Adnet ironizou em uma rede social. “Sem essa estátua jamais imaginaríamos que bandeirantes usavam colete de ladrilho”.


Monumento às Bandeiras — São Paulo


Outra obra em homenagem aos bandeirantes. Feita pelo escultor Victor Brecheret, foi inaugurada no ano de 1953, fazendo parte das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo. Grupos indígenas já se posicionaram contra o monumento em diversos protestos.


Derrubada de estátuas abre discussão sobre homenageados com passado duvidoso
Wikipedia Commons
 


Cristo Libertador — Colorado, Londrina e Ibiporã


Escultura de Henrique de Aragão, foi esculpida em 1975 para uma igreja da cidade de Colorado. Alguns anos depois, começou a ser criticada pelos fiéis, ao descobrirem que o Cristo estava nu. Foi retirada do altar pelo padre que sucedeu aquele que havia encomendado a obra. Doada em 1987 ao Museu Histórico da Universidade Estadual de Londrina (UEL), teve algumas de suas partes cortadas. Restaurada, ficou alguns anos na rotatória do antigo CCH (Centro de Ciências Humanas) até pedirem a retirada, sob o argumento de que uma instituição laica não deveria expor imagens sacras. Em 2014, foi novamente restaurada e afixada no Centro Socioeducativo, Turístico e Cultural de Ibiporã.


 


Monumento Campos Gerais — Ponta Grossa


Inaugurado em 2004 como uma homenagem às formações rochosas da cidade, era composta por uma haste de oito metros, sustentando uma escultura que se inspirava nos arenitos de Vila Velha. A forma total buscava lembrar um pinheiro ou uma araucária, mas não foi exatamente o que aconteceu — recebeu o apelido de "Cocozão”. Em 2009, funcionários da prefeitura foram retirar abelhas e marimbondos do local e acabaram acidentalmente incendiando o objeto, o que forçou a retirada da obra. Em nota na ocasião, a administração local afirmou que “já havia recebido outras solicitações para a retirada do monumento, alegando que ele depunha contra o município”.


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