'De que me adianta viver na cidade?'
Se a felicidade não acompanhar, o melhor mesmo é ir morar no campo. Esse foi o caminho traçado por família em Londrina
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sábado, 03 de agosto de 2019
Se a felicidade não acompanhar, o melhor mesmo é ir morar no campo. Esse foi o caminho traçado por família em Londrina
Laís Taine - Grupo Folha 

Embaixo de uma árvore, a família senta ao redor da mesa para o café da tarde no quintal. Queijo da vizinhança, café da própria roça, bolo de banana feito em casa. A vida corre no seu tempo, na região do bairro Limoeiro (leste), mas nem sempre foi assim. Após longos anos na cidade, a família optou por uma vida caipira com mais contato com o campo.
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“Minha infância foi no sítio, sempre falei que queria voltar para essa paz, sossego e tranquilidade”, conta Mioko de Souza, 68. Há 10 anos eles compraram uma chácara e passavam os finais de semana no local, a mudança só ocorreu mesmo há três anos, após o filho sair do emprego e tomar a decisão de montar uma marcenaria no local. “Foi uma transição circunstancial. A gente sempre teve afinidade com essa vida no campo”, afirma Paulo Rodrigo de Souza, 39.
No início, o marceneiro trabalhava na chácara e morava na cidade até que decidiu levar a família para morar de vez na área rural. A transição não foi tão simples para a esposa. “Para mim foi mais difícil, porque eu larguei meu emprego de cinco anos, eu era vendedora e tive que abrir mão de tudo”, comenta Kelly Nagahara, 41. Na época, eles tinham uma filha (Hikari, hoje com 10 anos) e esperavam outra (Estela, hoje com 3). “Então, comecei a fazer artesanato para vender, adotei o estilo de vida daqui e me adaptei bem. Hoje não me vejo mais morando na cidade”, revela.
Em poucos dias, os pais do marceneiro também tomaram iniciativa e foram morar no campo com o filho. Lá eles plantam diversas culturas por simples prazer, mas que traz retorno para o bolso e a saúde. “Uma vez a gente foi almoçar, olhou para a mesa e percebeu que as únicas coisas que não eram cultivadas aqui na chácara eram a carne e o arroz”, comenta Paulo Rodrigo. Para o pai, Pedro de Souza, 70, além das atividades de lazer, o universo rural trouxe de volta a paz que ele tanto sonhava. “A primeira coisa que eu notei foi o silêncio, onde eu vivia tinha muita perturbação do silêncio de madrugada”, recorda Pedro.
Apesar da rotina e costumes diferentes, a adaptação foi rápida. “Uma coisa muito característica da zona rural é a colaboração. Todos se conhecem e, mesmo que não se conheçam, as pessoas ajudam sem esperar nada em troca, tudo é muito simples, sem burocracia”, aponta Paulo Rodrigo, que junto com a esposa participa da Feira do Limoeiro aos domingos, espaço em que eles trocam experiências com produtores locais e Kelly vende seu artesanato. É lá que eles acabam conhecendo e comprando produtos frescos produzidos na região.
Kelly também menciona que é preciso ter prazer, pois a distância tem suas desvantagens. “Não tem Uber, não dá para pedir pizza, mas eu comparo como se a gente vivesse em um bairro distante. Aqui a gente faz o pão, não pede pizza”, brinca, até porque alguns pontos da vida urbana também chegam lá, como energia elétrica, internet e TV a cabo.
Em outros aspectos, aceita o ritmo e a responsabilidade de trabalhar com a natureza, ali se aproveita chás e ervas para remédios naturais, busca-se alimentação saudável e vive-se em mais contato com a vida em geral. “As meninas têm espaço aqui, brincam e veem bichos que às vezes aparecem no quintal, como preá, gambá, lagarto”, menciona. Um ritmo orientado pela mudança do ciclo dia e noite. “Eu não sabia mais o que era acordar sem despertador”, acrescenta.
São aspectos que validam essa vida mais autônoma e instintiva. Lá se trabalha muito, mas com muito respeito pelo que está ao redor e pela própria vida. “Aqui eu faço meus horários, às vezes trabalho até mais tarde. A vida rural nos proporciona estilo de vida mais espontâneo, você não se sente o tempo todo tendo que atender as expectativas da sociedade”, afirma Paulo Rodrigo. Para ele, é um modo de ver a vida com mais simplicidade e que essa experiência de viver no urbano e rural os levaram para esse caminho, que ele deu um nome: “é uma vida encaipirada”, ri. 'Encaipirados' para viver com mais qualidade.


