'Que c'ocê foi fazê no mato, Maria Chiquinha?'. As marcas do dialeto caipira estão presentes em muitas letras de músicas e poemas que representam esse universo. Engana-se quem acredita que este jeito de falar ficou no passado. Mais que presentes, algumas variações estão em expansão.

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'De que me adianta viver na cidade?'

O primeiro pesquisador a investigar o dialeto caipira foi Amadeu Amaral. Sua obra de 1920 é bastante detalhada e apresenta o modo de fala que ainda é muito presente na expressão do brasileiro. “No prognóstico dele, dentro de pouco tempo o dialeto teria sumido ou ficaria restrito a lugares muito afastados, isso na visão de 100 anos atrás”, explica Vanderci Aguilera, professora sênior do departamento de letras da UEL (Universidade Estadual de Londrina).

Pesquisas recentes mostram que, na verdade, algumas marcas se expandiram. O R retroflexo é um deles, exemplo bastante presente em nossa região. “O R retroflexo é específico do dialeto caipira e nós acreditamos que tenha sido disseminado pelos bandeirantes, que são portugueses ou filhos de portugueses com indígena”, afirma Aguilera.

A professora explica que os caboclos foram assimilando a fala do pai com as dificuldades de pronunciar da mãe. “No tupi não há sílaba fechada, que termina em R, S, L, como a língua portuguesa tem”, indica. Assim, surgiram as variações, como: falta-farta.

Esse R muito marcado nas falas do caipira é genuinamente brasileiro, não encontrado em outras colônias portuguesas. Porém, diferentemente do que se pensava no passado, esse modo de falar não desapareceu, pelo contrário, se expandiu. “Se você pegar o estudo que fizemos sobre o mapa do R retroflexo, é impressionante como ele abrange o Paraná inteiro, com exceção de pouquíssimas cidades. Na década de 1970, uma pesquisa apontou que Curitiba tinha 5% de pronúncia do R retroflexo, agora está próximo de 50%”, aponta Aguilera.

Na pesquisa publicada em 2016, a variação estava presente em algumas partes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais e Goiás e em quase todo o Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso”, afirma.

POPULARIZAÇÃO

A ascensão do caipira e a apresentação de figuras famosas que mantiveram a fala fizeram com que o R retroflexo perdesse o estigma. “Apresentadores, locutores e comentaristas que eram do interior passaram a não ter mais vergonha de pronunciar seu R. Também a ideia de que o caipira saiu de Jeca Tatu para aqueles fazendeiros ricos, com caminhonetes do ano, bota, cinturão e chapelão, que mostram para a sociedade que ele tem o poder econômico. As duplas sertanejas também foram se impondo, criou-se a mentalidade de que é chique ser caipira, de ter orgulho e não ter que ficar falseando mais a fala”, explica a professora.

ESTIGMA

Algumas marcas ainda são estigmatizadas. O rotacismo, que troca o som de uma letra para o som de R (claro-craro); assimilação do gerúndio (falando-falanu); transposição de fonemas (prateleira-partileira) são apenas alguns exemplos dessa forma de falar do caipira que sofrem desaprovação.

No entanto, a professora defende que essas são marcas históricas que não devem ser desvalorizadas. “Ninguém fala errado. “Falanu”, “crasse”, a pessoa não está falando errado, porque isso está na história da língua. Camões escrevia frauta em vez de flauta e ninguém vai questionar. Qualquer fenômeno está na história da língua”, defende.

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