Coleção: O Valor e a emoção das "coisas"
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de agosto de 2019
Erika Gonçalves - Grupo Folha 

Volta ao mundo no formato de lápis
Paris, Jerusalém, Alemanha, Canadá, Japão, Austrália, Disney, João Pessoa, Holambra, Foz do Iguaçu, Gramado... O que todos esses locais têm em comum? Para a pedagoga Juliana Piccinim Pivetta são os locais de origem de alguns dos exemplares de sua coleção. Com cerca de 720 lápis, contou que sabe exatamente a origem de cada um e quem a presenteou.
A coleção é uma verdadeira volta ao mundo, uma forma de conhecer um pouco da cultura de cada país e um deleite mesmo para os não colecionadores. São lápis de diferentes formatos e materiais, esculpidos, com múltiplas cores, gravados com desenhos ou impressos. Há lápis com borracha na ponta, com a mina colorida, lápis torto, grosso, fino, comprido, de borracha, aveludado, áspero. Mini lápis japoneses, Super lápis alemães. Lápis que desenha o contorno de Nossa Senhora ou de uma camiseta, lápis com aplicações de pedras, lápis de propaganda, em formato de coração. Com figuras feitas em crochê, EVA ou feltro na ponta. Apontados, novos e usados.

Pivetta admite é muito ciumenta com sua coleção e poucas pessoas têm a oportunidade de conhecer os exemplares de perto. Ela ainda busca uma forma de deixar todos em exposição e por enquanto eles são guardados em caixas, em local de difícil acesso. “Eu tenho uma sobrinha de nove anos e eu tinha muito medo que ela pegasse os lápis e quisesse usar, apontar. Tempos atrás ela me pediu para ver a coleção e eu suei frio. Mas para minha surpresa ela gostou muito e agora também começou a colecionar”, conta orgulhosa.
A pedagoga também começou quando criança. Ela conta que no início seu interesse foi por chaveiros e borrachas, mas deu as peças para os primos e se focou nos lápis. Os primeiros foram comprados no Paraguai.
Aos poucos os amigos foram sendo “contaminados”, como ela diz e desde então todos que sabem da coleção colaboram de alguma forma. Ela sempre procura por novas peças em suas viagens e não se acanha em pedir em lojas e bancos quando vê algum objeto do desejo. “Também vou na papelaria comprar, mas não sou aquela que vai todos os dias só para procurar lápis. Vou de vez em quando, geralmente com a minha sobrinha.”
Seu exemplar preferido é um lápis de tamanho bem maior que o comum, trazido por um amigo da Alemanha. O dono do presente já faleceu o que fez com que o objeto ganhasse um espaço mais do que especial na coleção.
COLECIONANDO HISTÓRIAS
Filha de professora, ainda muito cedo a pedagoga, ilustradora, contadora de história e artesã Renata Suzue Ogata foi inserida no mundo da literatura. Ela se apaixonou tanto pelos livros infantis que os coleciona até hoje. E se engana quem pensa que sua coleção seja apenas um reflexo de sua profissão, algo obrigatório para uma contadora de histórias.
“Me interessei em colecionar porque literatura é puro prazer. É para horas de descuido, felicidade sem pensar no utilitarismo que nos engole em tudo. 'Ah, vou estudar pra ganhar mais dinheiro'. Ou 'ah isso vai ser útil nisso'. Não. O mundo da leitura é prazer e fruição. E claro, de quebra enriquece todos os nossos caminhos da vida”, explicou.

Um dos primeiros livros que ela teve contato foi O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupery, e depois vieram muitos outros. Entre todos os de sua coleção é difícil para ela escolher o mais especial, mas destacou o primeiro livro extenso que leu ainda criança "A Fonte Luminosa”, de Walmir Ayala, e que fez questão de comprar anos depois quando o encontrou em um sebo.
Assim como acontece com outros colecionadores, ela compra muitos exemplares mas também é presenteada pelos amigos que sabem da sua paixão. O último presente que ganhou também é citado como um dos favoritos: "Contos da Rua Brocá, de Pierre Gripari.
Como critério para escolher os livros que entram para sua coleção, Ogata leva em consideração o texto e as ilustrações. “Eu amo tanto os textos quanto ilustrações. Como eu desenho e também faço ilustrações, este universo atrai. Juntos. E a riqueza literária tem que dialogar com a ilustração para merecer entrar na coleção”, finaliza.
QUANTO MAIS EXCLUSIVO, MELHOR
O objeto de desejo de um colecionador pode ser o mais variado, indo de itens comuns como latas de cerveja até carros caros. O empresário Ronaldo Bealta tem duas coleções completamente diferentes, mas que tiveram início muito cedo.
“Coleciono canetas de propaganda – tenho cerca de duas mil – e tênis esportivos. Meus pais eram comerciantes e nós ganhávamos muitas canetas, coleciono desde pequeno. Já os tênis eu sempre gostei, mas quando era criança não podia ter. Assim que comecei a trabalhar, comecei a colecionar”, conta.
Atualmente são 88 pares do sapato, nacionais e importados, que ele cuida com muito zelo, assim como todo colecionador que se preze. Dos pares, ele conta usar três ou quatro com frequência, os outros são para ocasiões mais que especiais. E cerca de dez pares sequer foram provados.
Em sua coleção estão modelos exclusivos, comprados a maioria pela internet, em sites especializados. Os chamados sneakerheads – colecionadores – se comunicam pelas redes sociais e também compram por elas. As próprias marcas criam cadastros e mandam avisos sobre lançamentos que se esgotam em minutos.
O empresário mantém seus tênis nas caixas, em armários e alguns ficam em uma estante. Para evitar que o calçado estrague, logo após o uso é limpo antes de ser guardado e a cada 45 dias os pares são higienizados usando uma solução bactericida. Mas já há profissionais especializados em restaurar os calçados, para alívio dos colecionadores, que também podem personalizar seus tênis trocando o cadarço, escrevendo o nome na sola ou ainda fazendo um desenho. Entre os sneakerheads famosos, o empresário cita Marcos Mion, que tem até um altar para seus exemplares.
CONTINUE LENDO:
- Diferenças entre o colecionar e o acumular
- Excesso de objetos pode se tornar problema de saúde pública


