FOLHA ENEM - CADERNO 14- Redação

08/11/2021

Adriana de Cunto - Diretora de Redação
Adriana de Cunto - Diretora de Redação

 

FOLHA ENEM - CADERNO 14- Redação
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REDAÇÃO 

Este caderno tem por objetivo propor atividades que desenvolvam algumas habilidades de leitura e interpretação importantes para a construção de uma Redação do ENEM.


Juventude interrompida

A raiz do problema do qual a gravidez precoce é sintoma está na onda de baixaria e vulgaridade que tomou conta do ambiente nacional

O leitor é o melhor termômetro para medir a temperatura do cidadão comum. Tomar o seu pulso equivale a uma pesquisa qualitativa informal. Aos que há anos me honram com sua leitura neste espaço opinativo, transmito uma experiência recorrente: família, ética, empreendedorismo e valores aumentam o índice de leitura. Dão ibope. Em um de meus últimos artigos tratei da crise da família. Recebi muitos e-mails, sem dúvida uma bela amostragem de opinião pública, sobretudo considerando o rico mosaico etário, profissional e social dos remetentes.

Neste Brasil sacudido por uma brutal crise ética, alimentada pelo cinismo e pela mentira dos que deveriam dar exemplo de integridade, há, felizmente, uma ampla classe média sintonizada com valores e princípios que podem fazer a diferença. E nós, jornalistas, devemos escrever para a classe média. Falar com a sociedade real. Nela reside o alicerce da estabilidade democrática. Escreva algo, sublinhavam alguns dos e-mails que recebi, a respeito do descaso com os jovens, da perversa interrupção da juventude. Meu artigo de hoje, caro leitor, foi pautado por você. O título deste artigo está inspirado em recente reportagem especial do jornal O Estado de S.Paulo: “Juventude interrompida”.

Juliana Diógenes, enviada especial do jornal a Codó e Timbiras (MA), conta algumas histórias dramaticamente rotineiras. Raquel (nome fictício) observa a massinha de modelar entre as mãos e brinca de criar formas enquanto fala sobre o dia em que foi estuprada aos 10 anos, em Cajazeiras, distrito onde mora na zonal rural de Codó. O rapaz, então com 19 anos, fugiu. Aos 13, foi morar com Raimundo, um pedreiro de 35 anos que conheceu na casa vizinha. E engravidou novamente. E a vida segue.

Pobreza, desorientação e gravidez precoce interrompem a infância e sequestram a juventude. A gravidez precoce é hoje, no Brasil, a maior causa da evasão escolar entre garotas de 15 a 17 anos. Dados da Unesco mostram que, das jovens dessa faixa etária que abandonaram os estudos, 25% alegaram a gravidez como motivo. Complicações decorrentes da gestação e do parto são a terceira causa de morte entre as adolescentes, atrás apenas de acidentes de trânsito e homicídios. A gravidez precoce afeta até quem mal saiu da infância.

De quem é a responsabilidade? É de todos nós – governantes, formadores de opinião e pais de família – que, num exercício de anticidadania, aceitamos que o país seja definido mundo afora como o paraíso do sexo fácil, barato, descartável. É triste, para não dizer trágico, ver o Brasil ser citado como um oásis excitante para os turistas que querem satisfazer suas taras e fantasias sexuais com crianças e adolescentes. Reportagens denunciando redes de prostituição infantil, algumas promovidas com o conhecimento ou até mesmo com a participação de autoridades, crescem à sombra da impunidade.

O governo, assustado com o crescimento da gravidez precoce e com o crescente descaso dos usuários da camisinha, investe pesadamente nas campanhas em defesa do preservativo. A estratégia não funciona. Afinal, milhões de reais já foram gastos num inglório combate aos efeitos. A raiz do problema, independentemente da irritação que eu possa despertar em certas falanges politicamente corretas, está na onda de baixaria e vulgaridade que tomou conta do ambiente nacional. Hoje, diariamente, na televisão, nos outdoors, nas mensagens publicitárias, o sexo foi guindado à condição de produto de primeira necessidade.

Atualmente, graças ao impacto da televisão e da internet, qualquer criança sabe mais sobre sexo, violência e aberrações do qualquer adulto de um passado não tão remoto. Não é preciso ser psicólogo para que se possam prever as distorções afetivas, psíquicas e emocionais dessa perversa iniciação precoce.

As campanhas de prevenção da aids e da gravidez precoce batem de frente com inúmeras novelas e programas de auditório que fazem da exaltação do sexo bizarro uma alavanca de audiência.

A juventude é um ativo precioso. Não pode ser interrompida e sequestrada. Dela depende o futuro do Brasil.

Carlos Alberto Di Franco é jornalista.

https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,juventude-interrompida,70002242133


1. Ao introduzir seu texto, o jornalista discorre que o assunto de seu texto é de interesse dos seus leitores, contudo ele não está falando de algo de interesse do público, mas de interesse público. Evidencie trechos do texto que comprovam essa afirmação, explicando-os.


2. Como a descrição da menina mencionada na notícia reforça o posicionamento do jornalista sobre o assunto tratado?


. Leia a fala de uma psicóloga publicada em uma reportagem no jornal Folha de Londrina sobre moda e erotização infantil:


Munir uma criança de sexualidade, através de maquiagem ou roupas de mulher, é lhe dar um poder que ela não sabe usar e colocá-la em situações que ela não saberá como se esquivar. E o resultado disso pode trazer marcas psíquicas irreversíveis como sexualidade precoce, atitudes problemáticas no futuro, entre outras."

Larissa Amaral , psicóloga

Fonte: https://www.folhadelondrina.com.br/folha-da-sexta/bonitinho-ou-inadequado-772393.html


Relacione o trecho com um argumento apresentado no artigo.



4. Observe atentamente as imagens abaixo

 

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Qual o discurso as imagens desejam retratar no que diz respeito ao direito das crianças?


5. Tendo em vista sua resposta ao item anterior, elabore um parágrafo interpretativo, associando o discurso da obra de arte ao problema social retratado no artigo.


6. Para Platão “podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. Associe essa citação de Platão ao fato da responsabilidade, de acordo com o artigo, sobre o problema da gravidez precoce no Brasil.


7. Observe paráfrases das concepções de criança ao longo do tempo, de acordo com documentos oficiais do país:

· 1960: Criança é reprodutora de conhecimento de cultura.

· 1980: A concepção de criança varia de acordo com a situação socioeconômica e cultural. Portanto, existem infâncias.

· Atualidade: Criança como construtora e transformadora de conhecimento e de comportamentos sociais, culturais.

(BNCC – Base Nacional Comum Curricular – 2017)

Considerando os meios de comunicação em massa mencionados no artigo, eles reforçam, primordialmente, qual concepção de criança. Explique.


8. Agora é sua vez...

Tendo como base a imagem os textos analisados ao longo dessa atividade, responda:

Qual o tamanho da responsabilidade social e governamental no caso de gravidez precoce no Brasil?


MORADORES DE RUA

A crescente população em situação de rua no Brasil é o retrato mais cruel da miséria social que se aprofunda em diversos ramos da esfera pública. O atual estado é a consequência de uma reação em cadeia que relaciona os altos índices de desemprego, rebaixamento salarial, uso de drogas e violência. Morar na rua é o reflexo visível do agravamento social no Brasil, e a falta de políticas públicas eficientes se constitui negligência do poder público em garantir a esse cidadão condições mínimas de sobrevivência. Os mais miseráveis estão entre os que mais incomodam politicamente, estigmatizados como perigosos socialmente por serem os que não participam da geração de riquezas. Um contingente de pessoas que pouco usufrui dos serviços básicos públicos, à mercê do Estado e indiferente à sociedade civil. Para sobreviver buscam alternativas para o banho, necessidades fisiológicas, alimentação e vestuário. Vivendo literalmente nas ruas e dormindo sobre trapos ou papelão, pessoas que constroem nas ruas suas próprias histórias, mas não como querem; não sob circunstâncias de suas próprias escolhas, e sim, sob aquelas com as quais se defrontam diretamente, legadas e transmitidas principalmente pelo passado trágico de uma vida que deixaram para trás. Apesar de serem atores da própria história, só são capazes de agir nos limites que a realidade impõe. Os exercícios a seguir visam propor uma reflexão acerca da temática e trabalham diversas habilidades de escrita.

1. Leia atentamente os textos a seguir

TEXTO I

O Bicho

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.


Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.


O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira



TEXTO II

Os estigmas do fracasso, da impotência, da vagabundagem e da mais-valia levam ao distanciamento das estruturas sociais, e no anonimato restam as estratégias de sobrevivência possíveis (...) que incluem, por sua vez, uma ampla rede solidária que torna a vida nas ruas uma alternativa viável, ou pelo menos mais viável que a pobreza extrema”

Pesquisador de população de rua e uso de drogas da Faculdade de Saúde Pública da USP


Produza um PARÁGRAFO INTERPRETATIVO, estabelecendo relações entre os textos, a fim de tratar sobre a condição de miséria dos moradores de rua no Brasil.


2. Marina Colassanti retrata a situação dos meninos de rua no texto abaixo:


De quem são os meninos de rua?

Eu, na rua, com pressa, e o menino segurou o meu braço, falou qualquer coisa que eu não entendi. Fui logo dizendo que não tinha, certa de que estava pedindo dinheiro. Não estava. Queria saber a hora. Talvez não fosse um Menino de Família, mas também não era um Menino de Rua. É assim que a gente divide. Menino de Família é aquele bem-vestido, com tênis da moda e camiseta de marca, que usa relógio e a mãe compra outro se o dele for roubado por um Menino de Rua. Menino de Rua é aquele que quando a gente passa perto, segura a bolsa com força porque pensa que ele é pivete, trombadinha, ladrão. [...] Na verdade, não existem meninos De rua. Existem meninos Na rua. E toda vez que um menino está Na rua é porque alguém o botou lá. Os meninos não vão sozinhos aos lugares. Assim como são postos no mundo, durante muitos anos também são postos onde quer que estejam. Resta ver quem os põe na rua. E por quê.

COLASSANTI, Marina. A casa das palavras. São Paulo: Ática, 2002.


Explique o efeito de sentido decorrente das expressões meninos de rua e meninos na rua, empregadas no texto de Marina Colassanti.


3. Observe a citação do geógrafo Milton Santos.

O simples nascer investe o indivíduo de uma soma inalienável de direitos, apenas pelo fato de ingressar na sociedade humana. “Viver, tornar-se um ser no mundo, é assumir, com os demais, uma herança moral, que faz de cada qual um portador de prerrogativas sociais”

Milton Santos (1926- 2001), Geógrafo


Com base na citação, explique a seguinte afirmação: A situação dos moradores de rua não é condição inata do ser humano.


4. Leia o texto abaixo:

Os estigmas do fracasso, da impotência, da vagabundagem e da mais-valia levam ao distanciamento das estruturas sociais, e no anonimato restam as estratégias de sobrevivência possíveis (...) que incluem, por sua vez, uma ampla rede solidária que torna a vida nas ruas uma alternativa viável, ou pelo menos mais viável que a pobreza extrema”

Pesquisador de população de rua e uso de drogas da Faculdade de Saúde Pública da USP


Qual relação é possível estabelecer entre a situação dos moradores de rua e o estigma da mais-valia? Responda com base nos conceitos da Sociologia.


AINDA SOBRE OS MORADORES DE RUA...

CIDADANIA CORROMPIDA

O conceito de cidadania na sociedade na qual vivemos está fortemente relacionado à noção de democracia e direitos que permitem ao indivíduo participar de escolhas que afetam suas vidas. O pensador Norberto Bobbio concebia um regime democrático como um método de governo, um conjunto de regras de procedimento para a formação das decisões coletivas, no qual está prevista e facilitada a ampla participação dos interessados.

Contudo, como garantir direitos básicos a esse segmento de excluídos, sendo que quase metade dessa população não possui qualquer documento pessoal como carteira de identidade ou título de eleitor – símbolos de cidadania – o que as exclui da vida civil, deixando de ter direitos e de serem reconhecidos como cidadãos? É nesse quesito que a atual democracia peca ao não cumprir suas promessas de igualdade, de ampla participação e garantia de direitos.

Mesmo despojados do preceito básico da democracia, tais indivíduos se constituem como cidadãos. Segundo o sociólogo Juraci Antonio de Oliveira, “os direitos humanos foram uma conquista ao longo da história da civilização e que ainda hoje, em pleno século 21, é um campo que se encontra longe do consenso. O mesmo ocorre com status de cidadão. Poderíamos dizer que no limite, moradores de rua e tantos outros excluídos, são cidadãos, porém não são tratados como tal, não exercem seus direitos e deveres dentro dos padrões minimamente aceitáveis”, argumenta.

Já para o arte-educador do Centro de Inclusão de Pessoa em Situação de Rua, Orlando Coelho, “essas pessoas não são vistas como sujeitos de direito e que de alguma forma, em algum momento de suas

vidas ou tiveram seus direitos negados ou alijados, mas, como vítimas de sua incapacidade ou de seu pecado e por lhes destinarmos um olhar de caridade, piedade, misturado com desprezo, não há um reconhecimento de sua humanidade”.

O geógrafo e professor Milton Santos acrescenta: “O simples nascer investe o indivíduo de uma soma inalienável de direitos, apenas pelo fato de ingressar na sociedade humana. Viver, tornar-se um ser no mundo, é assumir, com os demais, uma herança moral, que faz de cada qual um portador de prerrogativas sociais. Direito a um teto, à comida, à educação, à saúde, à proteção contra o frio, a chuva e as intempéries; direito ao trabalho, à justiça, à liberdade e a uma existência digna”.

Mesmo sendo cidadãos por natureza, eles têm suas prerrogativas sucumbidas pelo Estado, que se diz pluralista e representativo, mas que não garante meios de sobrevivência a todos os cidadãos. De tal modo que não são apenas moradores sem casa, são também cidadãos sem direitos. Disso nasce a crítica na qual o filosofo Jean-Jacques Rousseau admitia que essa representatividade não traduz a vontade de um cidadão para o outro. Rousseau acreditava que a vontade só será geral se tiver a participação de todos os cidadãos de um Estado. Para ele, a soberania só existe se for geral. “(...) É a [vontade] de todo um povo ou de uma parte dele. No primeiro caso, esta vontade declarada é um ato de soberania e faz lei, no segundo, é simplesmente uma vontade particular, um ato de magistratura ou, quanto muito, um decreto”. Mesmo em que no atual contexto de um país com mais de 190 milhões de pessoas a representatividade seja necessária, no caso dos moradores de rua o Estado não se aproxima de modo eficiente dessa categoria. Portanto, mesmo que os princípios democráticos indiquem igualdade entre os diferentes estratos sociais, o morador em situação de rua em nada é igual com relação ao restante da população. São iguais apenas entre si devido à própria condição, uma massa de desabrigados que estão em seu estado máximo de carência, o que reforça a perda da própria identidade e a situação de total exclusão social. Essa opressão se materializa na violência e na intolerância praticada por vários agentes da sociedade contra os moradores de rua em geral. Os níveis de agressão e impunidade crescem a cada dia em todos os sentidos. O número de vítimas ao longo de 10 anos foi proporcionalmente maior. Os fatos recentes comprovam, e o mais marcante de todos foi o massacre ocorrido em 2004, no qual 15 moradores de rua foram atacados por um grupo, enquanto dormiam, na região central da cidade de São Paulo. Das 15 pessoas que dormiam, sete morreram, até hoje apenas um dos apontados como culpados pelos assassinatos foi preso.

Disponível em: https://jus.com.br/artigos/48124/o-exercicio-da-cidadania-no-desenvolvimento-da-sociedade


Produza um texto dissertativo-argumentativo, posicionando-se sobre o seguinte questionamento:

Quem são os principais responsáveis pela condição dos moradores de rua?


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