Wilfred Owen: o poeta que desmontou o mito do heroísmo na guerra
Livro do poeta inglês que viveu e combateu os horrores da guerra é lançado no Brasil pela Caravana Editorial
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de março de 2026
Livro do poeta inglês que viveu e combateu os horrores da guerra é lançado no Brasil pela Caravana Editorial
Clarissa Desterro/ Especial para a FOLHA 

A Primeira Guerra Mundial como narrativa foi construída, enquanto acontecia, largamente por quem não lutava nela. Jornais, púlpitos e salas de aula reforçavam um imaginário de honra e sacrifício que pouco tinha a ver com o que ocorria nas trincheiras, e que servia para manter o clima necessário à continuidade do conflito. A maioria dos poetas de guerra colaborava com essa versão, produzindo versos consoladores e patrióticos para consolar os vivos e justificar os mortos.
Wilfred Owen, tenente inglês na casa dos vinte anos, escreveu na direção oposta. Durante sua experiência de guerra, Owen foi soterrado por explosões, sobreviveu a ataques de gás e viu tantos horrores que desenvolveu o que hoje chamamos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
Sua poesia, composta majoritariamente entre 1917 e 1918 e publicada postumamente — Owen foi morto por uma metralhadora sete dias antes do armistício —, é hoje a maior expressão da poesia de guerra contemporânea em língua inglesa. Descrito por Dylan Thomas como “um poeta para todos os tempos, todos os lugares e todas as guerras”, homenageado ao lado de nomes como Shakespeare e Jane Austen na Abadia de Westminster, amplamente lido por todo o mundo anglófono e sujeito de filmes, livros, estátuas e memoriais, esse rapaz tímido com um talento ímpar e uma forte sensibilidade anti-belicista foi a voz dos soldados do além-túmulo.

TERAPIA E URGÊNCIA POLÍTICA
Owen compôs a maioria de seus poemas internado no hospital psiquiátrico de Craiglockhart, na Escócia. A escrita começou como terapia, mas se tornou urgência política: registrar a verdade para um público que consumia uma versão altamente romantizada do conflito. Owen admirava Keats e os românticos ingleses desde jovem, mas foi a guerra que transformou seu interesse por poesia em vocação e em instrumento. Seus poemas carregam o trauma na estrutura: a confusão entre pesadelo e memória, a desorientação sensorial, a indistinção entre estar vivo ou morto.
O alvo de Owen era aquilo que ele chamou de “a Velha Mentira”: a ideia, sintetizada no "Dulce et decorum est pro patria mori" de Horácio, então repetido à exaustão, de que morrer pela pátria é doce e nobre. Enquanto outros apresentavam soldados lutando com bravura e morrendo com serenidade, Owen descrevia rapazes mutilados e sufocados por gás, corpos largados em carroças, enlouquecidos e suicidas. Sua poesia é de uma brutalidade visual deliberada e recusa qualquer consolo; Owen escrevia para acusar, envergonhar, e apontar a forma como a retórica do sacrifício servia para esconder e permitir a continuação da carnificina.
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Enquanto conflitos armados continuam sendo justificados com as mesmas abstrações, sobreviventes seguem sendo descartados, e jovens ainda são aliciados com as mesmas conversas ideológicas e vãs de honra, pátria e glória, a poesia de Owen segue atual. Lê-lo é falar de guerra — e de arte de guerra — sem reproduzir retóricas de heroísmo e mitos que matam. Assim, é necessário. “Que o horror retorne para dar uma palavra apenas…”

A AUTORA DO LIVRO
Clarissa Desterro é historiadora, escritora e tradutora formada em História pela Universidade Federal do Estado do Amazonas (UFAM). Sua pesquisa de graduação teve como foco a Primeira Guerra Mundial, investigando suas representações culturais e os impactos físicos e psicológicos do conflito, com ênfase em trauma, masculinidades e literatura de guerra. Leitora de Wilfred Owen desde a adolescência, traduziu, escreveu e organizou a antologia A velha mentira – poemas da Grande Guerra por Wilfred Owen (Caravana, 176 págs.), que reúne trinta poemas do autor, além de ensaios analíticos, biografia e contextualização histórica.
Confira o poema “Hino para a juventude condenada”, de Wilfred Owen, traduzido por Clarissa Desterro:
“Quais serão os sinos fúnebres para estes que morrem como gado?
— Apenas a monstruosa fúria das armas.
Apenas o gaguejar apressado dos rifles
Pode elevar suas apressadas orações.
Nenhum fingimento por eles agora; nem orações, nem sinos;
Nem qualquer voz de luto, exceto os corais, —
Os estridentes, dementes corais de bombas chorosas;
E clarins que os chamam de seus tristes lares.
*
Que velas podem ser acesas para guiá-los?
Não nas mãos de meninos, mas em seus olhos
Brilhará o lampejo sagrado do adeus.
A palidez nas faces das moças serão suas mortalhas;
Suas flores, a ternura de mentes pacientes
E cada lento amanhecer, um fechar das cortinas.
* Com assessoria.

SERVIÇO
A velha mentira - poemas da Grande Guerra
Autor: Wilfred Owen
Tradução e Organização: Clarissa Desterro
Capa e editoração eletrônica: Ayumi Shimamoto
Editora: Caravana Grupo Editorial
Páginas: 176
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