A música Laranja Madura é bom exemplo do artesanato musical de Ataulfo Alves, com letras tão coloquiais quanto singulares. É um samba porém com jeito de toada mineira, como na Miraí onde ele nasceu e viveu até os 17 anos, quando foi para o Rio de Janeiro trabalhar como lavrador, marceneiro e farmacêutico.

Descoberto como sambista, tornou-se compositor com cerca de 400 músicas e grandes sucessos como "Amélia", "O Bonde de São Januário" e "Atire a Primeira Pedra."

"Laranja Madura" é sobre os enganos, como prenuncia a primeira estrofe: “Você diz que me dá casa e comida / boa vida e dinheiro pra gastar / que é que já? / Tanta bondade que me faz desconfiar...”

A seguir, Ataulfo saca do campo rural a tão expressiva imagem da laranja madura: “Laranja madura / na beira da estrada / tá bichada, Zé / ou tem marimbondo no pé...”

Depois, volta ao campo amoroso, não sem antes passar por uma observação de engano religioso, sempre com rimas internas embutidas nos versos: “Santo que vê muita esmola / na sua sacola, desconfia / e não faz milagre não / Gosto de Maria Rosa / mas quem me dá bola / é Rosa Maria, vejam só que confusão” (a esta altura já se apresentava em shows e a música se dirige ao público: “vejam só”).

A simplicidade da letra, com expressões coloquiais muito comuns, também é enganosa, pois se refere à complexidade das relações amorosas, que afinal define como “confusão” – confusão que expressa já na mistura dos campos amoroso, rural e religioso. Lembra assim a sabedoria cabocla ou pré-agro da gente que colonizou os sertões para fazer o Brasil.

Isso encantou Itamar Assumpção, cuja obra completa pode ser achada em streaming, e que dedicou a músicas selecionadas de Ataulfo todo o disco "Pra Sempre Agora", onde há jóias como "Meus Tempos de Criança", cuja expressividade dispensa comentários:

“Eu daria tudo que tivesse / pra voltar aos dias de criança / Eu não sei pra que que a gente cresce / se não sai da gente essa lembrança.

“Aos domingos, missa na matriz / da cidadezinha onde nasci / Ai, meu Deus, eu era tão feliz / no meu pequenino Miraí.

“Que saudade da professorinha / que me ensinou o beabá / Onde andará Marizinha / meu primeiro amor, onde andará?

“Eu igual a toda a meninada / quanta travessura eu fazia / Jogo de botões sobre a calçada / eu era feliz e não sabia”.

Vi Ataulfo descer de ônibus para dar show, o primeiro a descer, para oferecer mão de apoio a cada uma das quatro cabrochas ou pastoras que faziam seu vocal de fundo. Estava sempre de paletó e gravata, como a dizer me respeitem, mas nem precisava, seus sambas o tornaram um brasileiro notável, o que melhor definiu a infância, que é quando a gente foi feliz e não sabia.

Mas fez também versos políticos, como em "Abaixa o Braço" (referindo-se a Hitler):

“Deixa de cena / lugar de palhaçada é no cinema / Seo Adolfito, pra que tanta valentia / se nós queremos a democracia?”

Ou em Atire a Primeira Pedra: “Perdão foi feito pra gente pedir”.

Simples e consequente assim, ou como dizia Itamar: Salve, Ataulfo Alves!

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