Um posto de saúde pequeno mas com uma grande história
Antes do SUS, quem não tinha como pagar serviços médicos ou hospitalares era atendido como “indigente”
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sábado, 18 de julho de 2026
Antes do SUS, quem não tinha como pagar serviços médicos ou hospitalares era atendido como “indigente”
Domingos Pellegrini 

Aqui Nasceu o SUS – devia estar escrito em parede ou mesmo monumento na UBS da Vila da Fraternidade em Londrina. Pois foi ali, em 1971 - na administração do prefeito Dalton Paranaguá com seu secretário de Saúde Bruno Piancastelli Filho - que começou a funcionar no país o primeiro “postinho de Saúde” como fala o povo. Foi um dos muitos que antecederam e depois seriam a base do SUS, que é o maior sistema de saúde pública do mundo, pois os semelhantes são em países com menos população (Alemanha, França, Inglaterra, Suécia e outros).
Antes do SUS, quem não tinha como pagar serviços médicos ou hospitalares era atendido como “indigente” nos hospitais ou Santas Casas da Misericórdia, que assim muito honraram o próprio nome.
Os países europeus criaram seus sistemas públicos de saúde como resposta ao caos da Segunda Guerra, e aqui, a partir de 1970, isso passou a ser debatido através do Movimento de Reforma Sanitária Brasileira, com centenas de reuniões em todo o país. Londrina se destacava através da liderança de Nelsão, o professor Nelson Rodrigues dos Santos, da UEL, que coordenaria o Postinho da Fraternidade, logo seguido pelos de Paiquerê e do Jardim do Sol.
Em março de 1986 foi realizada em Brasília a Oitava Conferência Nacional de Saúde, com relatoria dos londrinenses Darli Antonio Soares e Paulo Gutierrez, colocando a ideia do SUS no papel e na consciência de muitos líderes políticos, prevendo que seria baseado em universalidade (para todos) e integralidade (consultas e tratamentos nos mesmos locais, racionalizando custos públicos e deslocamentos dos pacientes).
Como na Europa os sistemas públicos de saúde começaram atendendo sequelas da Guerra, aqui era preciso atender às consequências da rápida urbanização da população que, devido à mecanização agrícola pós geada de 1975, evadiu dos campos para as cidades para morar mal e até em favelas e se alimentar pior.
O SUS foi previsto pela Constituição de 1988 conforme seu artigo 196: “a saúde é direito de todos e dever do Estado”. Os deputados constituintes londrinenses eram Hélio Duque, João Olivir Gabardo e Osvaldo Macedo, e o senador era Leite Chaves. Álvaro Dias assumiu como governador do Paraná em março de 89 e deu prioridade à instalação de postos de saúde, hemocentros e hospitais, de forma que, em 1990, o Paraná foi o primeiro Estado do Brasil a implantar o SUS.
Entre 1977 e 1986 professores da UEL, liderados por João Campos e Luiz Cordoni Júnior, tocaram os postos de saúde pioneiros em Londrina e distritos, e a ideia se disseminou pela região. Os postinhos passaram a ser UBSs, Unidades Básicas de Saúde, e em Londrina foram administradas pelo Hospital Universitário até 1992, quando passaram para o sistema municipal de saúde. Em 2013 o Postinho da Fraternidade, que o povo continuou a carinhosamente chamar assim, foi desativado, em 2014 foi demolido, em 2023 reconstruído e reaberto como UBS Arnaldo Bertone, no mandato do prefeito Marcelo Belinati, assim se tornando também patrimônio histórico de Londrina. Que agora tenha vida longa.


